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Blog da Sophie Deram

Não, nem todo mundo engordou na pandemia

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Sophie Deram

Sophie Deram é uma nutricionista franco-brasileira, autora do best-seller ?O Peso das Dietas?, palestrante, pesquisadora e doutora pela Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) no departamento de endocrinologia. Defende a importância do prazer de comer para a saúde e a ideia de comer melhor e não menos. Sophie não acredita nas dietas restritivas e no ?terrorismo nutricional?. Desenvolve programas online para transformar a relação das pessoas com comida e ensina profissionais de saúde sobre nutrição que alia ciência e consciência.Leia mais no site da Sophie Deram: https://www.sophiederam.com/br/

Colunista do UOL

13/01/2021 04h00

Há 10 meses enfrentamos a pandemia da covid-19. São mais de 90 milhões de casos confirmados e quase 2 milhões de mortes. As consequências disso são inúmeras e repercutem na economia, na política, na história e na saúde das pessoas, para além dos efeitos da doença.

A necessidade de isolamento social, juntamente com o medo de contrair o vírus, tem impactado significativamente os comportamentos de saúde, assim como o declínio da saúde mental. Talvez você mesmo tenha percebido que passou a cozinhar mais, que perdeu ou ganhou peso ou que se sentiu mais ansioso.

Muitos estudos têm sido realizados para investigar esse impacto. Um deles, realizado por pesquisadores do Pennington Biomedical Research Center, na Louisiana (EUA), foi publicado em outubro de 2020 na revista Obesity e avaliou as mudanças no estilo de vida em resposta à pandemia em pessoas com diferentes classificações de IMC (Índice de Massa Corporal).

Comportamento alimentar, prática de atividade física e saúde mental na pandemia

À medida que as pessoas no mundo todo ficaram em casa, o trabalho e as responsabilidades domésticas se modificaram. De acordo com os pesquisadores, essas mudanças trouxeram consequências para a saúde mental, mas também impactos positivos e negativos para os comportamentos de saúde.

De forma geral, passou-se a comer melhor. No entanto, as pessoas com obesidade foram afetadas de forma diferente, apresentando quedas mais acentuadas na saúde mental e maior incidência de ganho de peso como resultado de pedidos para ficar em casa.

Os pesquisadores chegaram a esses achados a partir de um questionário online aplicado com cerca de 8.000 adultos, a maioria residente nos Estados Unidos, Reino Unido, Austrália e Canadá. Foram coletadas informações sobre comportamentos alimentares, atividade física e saúde mental. Todas as perguntas foram apresentadas como "antes" e "depois" da pandemia.

Para avaliar as mudanças no comportamento alimentar, o formulário incluía itens sobre cozinhar e comer fora de casa, como também sobre o consumo de lanches. Os participantes foram questionados sobre a percepção de hábitos alimentares saudáveis em geral e mudança de peso.

Quando à atividade física, foram avaliadas as mudanças nos comportamentos de lazer sedentários (como assistir à televisão, usar o celular para se divertir, e jogar videogame).

E a saúde mental foi analisada por meio de questões sobre os horários para dormir e a ansiedade relacionada com o trabalho, a vida diária e a capacidade de interagir com outras pessoas.

Mudanças positivas e negativas

De acordo com o estudo, os comportamentos alimentares foram significativamente alterados com a pandemia. Comer refeições em restaurantes e consumir alimentos pré-preparados diminuiu de 1,98 vezes por semana para 1,08 vezes por semana, enquanto cozinhar refeições em casa aumentou de 4,49 para 5,18 dias por semana.

Mudanças positivas relatadas incluíram uma frequência mais baixa de pular o café da manhã, comer fora, consumir fast-food e alimentos fritos e um aumento no consumo de frutas. Mudanças negativas de comportamento alimentar incluíram aumento do consumo de doces e bebidas adoçadas.

No geral, 20,7% perceberam que se alimentavam de forma mais saudável e 35,6% relataram comer menos saudável.

Em geral, as pessoas que apresentaram comportamentos alimentares considerados não saudáveis foram também as que passaram a dormir mais tarde, que tinham mais ansiedade e que eram também mais sedentárias, em comparação com aqueles que se alimentavam de maneira mais saudável.

Para os participantes que relataram comportamentos alimentares considerados mais saudáveis, a atividade física aumentou e esse grupo teve a maior porcentagem de participantes trabalhando em casa por consequência da pandemia.

Mudanças no sono variaram: 43,8% relataram dormir pior, enquanto 10,2% relataram melhoras no sono.

A maioria dos participantes demonstrou estar preocupada ou moderadamente preocupada com sua própria saúde física (75%) ou com a saúde de algum familiar (87,5%) no que se refere à covid-19. E a ansiedade geral aumentou significativamente, 20% dos participantes relataram ansiedade sintomática com um aumento de 14% em comparação ao período anterior à pandemia.

Pessoas com obesidade podem ter sido mais afetadas pela pandemia

Durante o isolamento social, 27,3% dos entrevistados relataram ganho de peso, que foi mais prevalente nas pessoas com obesidade (33,4%) do que naquelas consideradas com sobrepeso (20,5%) e com peso normal (24,7%).

Por outro lado, 17,3% dos participantes relataram perda de peso, o que foi consistente em todas as classificações de IMC (obesidade: 18,0%; sobrepeso: 18,0%; peso normal: 17,8%).

Não houve diferenças no tempo de sono entre os subgrupos de IMC. Entretanto, pessoas com obesidade passaram a dormir mais tarde do que pessoas com peso considerado normal ou com sobrepeso.

Os entrevistados que relataram ganho de peso tiveram pouca mudança nos comportamentos alimentares, mas demonstraram os maiores declínios na prática de atividade física.

Enquanto isso, aqueles que relataram perda de peso tiveram melhorias em sua pontuação de alimentação saudável e aumento na atividade física.

A pandemia pode ser um momento para comer melhor

Não é surpreendente que nesse estudo muitas pessoas tenham apresentado hábitos menos saudáveis, pois a pandemia e o isolamento social são momentos de estresse que afetam a nossa saúde de maneira interligada.

A ansiedade, por exemplo, pode levar a pioras no sono e à busca por alimentos mais palatáveis e que forneçam mais conforto, como aqueles com excesso de açúcar, é o que chamamos comer emocional.

Mas também pode ter sido e ser (pois a pandemia ainda não acabou!) um momento para comer melhor (e não menos).

Foi a partir do isolamento social que muita gente passou a dar mais atenção à saúde física e mental, tentando lidar com o estresse, seja dentro ou fora de casa, cozinhando mais e comendo mais comida caseira, praticando atividade física de forma segura e buscando profissionais de saúde especializados, quando necessário.

Dessa forma, as descobertas publicadas na revista Obesity fornecem uma advertência para a sociedade em geral, para os governantes, para os profissionais de saúde e para a saúde pública adotarem medidas e políticas públicas que proporcionem um estilo de vida mais saudável seja durante a pandemia, o isolamento social ou após a vacinação, que já é uma realidade em muitos países.

Bon appétit!

Sophie Deram

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL