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Paulo Chaccur

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A má circulação do sangue nas pernas indica problemas na saúde do coração?

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Paulo Chaccur

Diretor da Cirurgia Cardiovascular no Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, é formado pela Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo e possui mais de 40 anos de experiência.Na década de 90, Chaccur passou a liderar a própria equipe de cardiologia e cirurgias cardíacas no HCor (Hospital do Coração).

Colunista do VivaBem

26/09/2021 04h00

Não é de hoje que elas incomodam. Um dos primeiros registros que se tem das varizes foi em uma estátua de mármore encontrada na Grécia, esculpida a mais de dois milênios. O problema é antigo, mas os cuidados seguem cada vez mais necessários. E vão muito além, como muitos pensam, de uma questão apenas estética: as varizes (ou veias varicosas) podem trazer repercussões e riscos sérios à saúde!

Para se ter ideia da quantidade de pessoas atingidas, de acordo com a SBACV (Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular), 38% da população do país convive com as varizes. No entanto, apesar de ser relativamente comum, o tema ainda é rodeado de dúvidas e desinformação.

O que são as varizes?

As varizes são veias superficiais que ficam salientes na pele. De coloração púrpuro-azulada, são veias dilatadas, deformadas, tortuosas e alongadas. Basicamente, elas se evidenciam devido a problemas de circulação que geram o acúmulo de sangue não oxigenado nas pernas.

De forma resumida: o sistema circulatório ou cardiovascular é formado pelo coração e vasos sanguíneos. O sangue é bombeado com uma força intensa pelo coração para o corpo todo através de uma rede de artérias, veias e capilares. No entanto, o caminho de volta não é tão simples e fácil, especialmente na irrigação dos pés e das pernas, em que é preciso agir contra a gravidade.

O chamado sangue venoso precisa de impulso para conseguir voltar ao coração e completar o ciclo circulatório --a panturrilha ajuda no processo ao contrair e relaxar, empurrando o sangue para cima. Quando isso não ocorre, o principal problema é a insuficiência venosa crônica, caracterizada pelo surgimento das varizes.

As veias possuem válvulas que abrem e fecham, impedindo que o sangue tome o caminho contrário. Ao ficarem varicosas, enfraquecem. Com o tempo, se dilatam, deformam e podem deixar de cumprir o seu papel. Assim, as válvulas também perdem sua função e não controlam mais o retorno do sangue, que se acumula nas canelas e nos tornozelos provocando deformação e inchaço. O quadro progride aos poucos e não dá vestígios nos estágios iniciais. As manifestações ou complicações das varizes vão depender, entre outros fatores, do grau de comprometimento das veias.

Além das varizes, alguns sinais indiretos podem dar indícios de que o sangue não está voltando como deveria, a exemplo de manchas verdes ou roxas (que se expandem aos poucos), dores e coceira frequente nas pernas, sensação de queimação e cansaço nos pés e inchaço nos membros inferiores, principalmente no fim do dia. As veias varicosas são ainda um alerta para o surgimento ou agravamento de doenças, como a trombose venosa, flebites (inflamação dos vasos), úlceras (feridas nas pernas de difícil cicatrização), gangrena e até embolia pulmonar.

Varizes indicam um problema no coração?

Então você deve estar se perguntando: se as varizes indicam problemas na circulação e a circulação é a principal função do coração, má circulação nas pernas indica também má saúde do coração? A resposta é não. Pacientes com varizes nas pernas não possuem, necessariamente, problemas cardíacos ou um risco aumentado de acidente vascular cerebral (AVC) ou ataque cardíaco (infarto). São dois problemas distintos.

A presença de varizes indica uma falha no retorno do sangue ao coração e não um risco de problemas cardíacos. As causas e os fatores de risco para eventos cardiológicos ou varizes e uma das suas principais consequências, a trombose, muitas vezes são os mesmos, gerando confusão. Talvez porque muitos pacientes que apresentam doenças ou eventos cardíacos também tenham veias varicosas, mas não são elas o gatilho para isso.

A aterosclerose é uma doença inflamatória crônica caracterizada pela formação de placas de gordura (ateromas) dentro e na parede das artérias, o que pode acarretar na obstrução parcial ou total destes vasos e ter como consequência o infarto agudo do miocárdio. Entre as suas principais causas estão a hipertensão, diabetes, sedentarismo, tabagismo, hereditariedade, idade avançada e altos índices de colesterol ruim (LDL).

Já a trombose surge a partir da formação de trombos (coágulos) no sangue. É ocasionada por varizes, longos períodos sem se movimentar, desequilíbrio hormonal, tabagismo, colesterol elevado (LDL), entre outros. Portanto, se não forem tratadas, as veias varicosas podem levar a uma condição inflamatória, à formação dos trombos e à e obstrução dos vasos sanguíneos. Em casos graves, eles atingem até veias mais profundas, obstruindo o fluxo de sangue.

O coágulo pode ainda migrar das pernas para um ou dois pulmões, desencadeando uma embolia pulmonar. Nesta situação há uma dificuldade acentuada do ventrículo direito em bombear o sangue para os pulmões, gerando redução na oxigenação, dispneia e diminuição da pressão arterial. Quando o quadro se agrava, devido as complicações, é possível uma evolução para a parada cardíaca.

Mulheres são as mais afetadas

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Hormônios presentes na pílula afetam estruturas envolvidas na circulação, o que favorece o surgimento de varizes
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As varizes são cada vez mais comuns a partir dos 30 anos, especialmente entre o sexo feminino. Segundo a SBACV, o problema acomete 45% das mulheres e 30% dos homens, levando em consideração todas as faixas etárias. Parte disso porque o fator hormonal é um dos desencadeantes para a doença venosa. E as mulheres passam com mais frequência por essas variações hormonais ao longo da vida: na gravidez (duas ou mais gestações aumentam os riscos de varizes), na menopausa e com o uso de anticoncepcionais.

Os hormônios presentes na fórmula dos anticoncepcionais, especialmente o estrogênio e a progesterona, provocam efeitos nas estruturas envolvidas na circulação e no fluxo do sangue. O estrogênio pode alterar as paredes das veias e danificar as válvulas responsáveis pelo controle da passagem do sangue dentro delas. Por sua vez, a progesterona aumenta a dilatação das veias e o fluxo de sangue.

A idade é outro ponto. Quanto mais idoso, maior a probabilidade de veias varicosas: 70% das pessoas acima dos 70 anos podem ter varizes. A atenção deverá ser redobrada ainda para pessoas que trabalham muito tempo de pé ou excessivamente sentadas, usuários de terapias hormonais e quem tem parente próximo com o problema ou histórico de trombose na família, uma vez que a genética também é um dos fatores de risco. Novos estudos ainda trazem a informação de que a altura pode contribuir com o desenvolvimento das varizes (porém, é preciso mais investigações neste ponto).

Vasinhos X varizes

As varizes são veias grossas que medem mais de 3 mm de diâmetro. Já os vasinhos são linhas arroxeadas ou azuladas, parecidas com teias de aranha, que recebem o nome de telangiectasias. São veias mais finas, bem menores (medem menos de 1 mm de largura) e superficiais --estão na derme e na epiderme. E não estão relacionadas a problemas de saúde.

Ainda dentro da classificação dos vasinhos, há também as microvarizes ou varizes reticulares, vasos um pouco maiores (medem entre 1 mm e 3 mm de diâmetro) e mais profundos do que as teleangiectasias, mas ainda de relevância estética. Porém, aqui vale o alerta: quem tem muitas formações de vasinhos deve ficar atento. É comum que as varizes apareçam em conjunto a eles ou na sequência.

Assim, embora grande parte das pessoas ainda procure atendimento apenas por questão estética ou já com dores, inchaços e outros sintomas mais graves, é importante ressaltar que nenhum sinal deve ser negligenciado. Além de existirem diversas formas de tratamento, quem tem pré-disposição para o quadro deve focar, em primeiro lugar, na prevenção, com mudanças de hábitos e atenção a fatores de risco.

Cuidados e tratamento

Atividades físicas que façam a contração e o relaxamento dos músculos das pernas melhoram a circulação (uma simples caminhada, por exemplo), evitando as complicações vasculares e varizes. Além disso, é recomendado não passar muito tempo em pé rotineiramente (para não dificultar a subida do sangue) bem como não permanecer muito tempo sentado, sem movimento. Essa última posição faz as veias dilatarem e exercerem maior pressão para bombear o sangue.

Outras medidas de prevenção (que também servem para a trombose e aterosclerose) são: ter atenção ao peso, uma vez que a obesidade pode piorar a circulação sanguínea, principalmente quando há excesso de gordura abdominal; evitar alimentos gordurosos (para combater as altas taxas de colesterol no sangue) e não fumar --indicação que serve para todos os aspectos da saúde, inclusive a boa circulação sanguínea.

Se já há a presença de veias varicosas, o médico, depois de uma avaliação rigorosa para determinar a gravidade, irá selecionar qual o melhor tratamento para cada paciente, considerando os diferentes tipos de varizes. Dependendo da situação, o especialista pode indicar desde terapias com medicamentos até intervenções cirúrgicas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL