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Paulo Chaccur

Pimenta na dieta: ela faz bem ou mal à saúde cardiovascular?

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Paulo Chaccur

Diretor da Cirurgia Cardiovascular no Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, é formado pela Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo e possui mais de 40 anos de experiência.Na década de 90, Chaccur passou a liderar a própria equipe de cardiologia e cirurgias cardíacas no HCor (Hospital do Coração).

Colunista do UOL

30/08/2020 04h00

Malagueta, caiena, biquinho, de cheiro, dedo-de-moça, do reino, calabresa, jalapeño, cambuci, cumari... a lista é grande! São diversos tipos de pimenta, que variam em tamanho, cor, formato e grau de ardência. Elas estão presentes no preparo das mais variadas receitas, que vão de pratos salgados a sobremesas. Mas você sabia que além de perfumar e dar sabor aos pratos, a especiaria também pode ser uma aliada quando o assunto é a saúde do nosso coração?

Estudos têm evidenciado que o consumo regular de pimentas nas refeições está associado com a prevenção e controle de fatores de risco para as doenças cardiovasculares, como a obesidade e o colesterol. Isso porque contém substâncias que ajudam a queimar gordura do corpo, diminuir os níveis de colesterol ruim no sangue (LDL), evitar o acúmulo de gordura na parede das artérias, além de possuir propriedades vasodilatadoras e anti-inflamatórias, que protegem o organismo das enfermidades que atingem o órgão.

No entanto, sabemos que a pimenta divide opiniões: há quem ame e quem passe longe. E o grande causador deste impasse é justamente aquele que traz os benefícios e contribui para proteger o coração, o ardor, ou melhor, um componente da pimenta que causa a ardência.

O segredo

Pimenta-malagueta - iStock - iStock
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Primeiro, é preciso entender do que estamos falando. Pimenta é um termo comum dado a várias plantas, seus frutos e condimentos deles obtidos. Possui diversas espécies ao redor do mundo. No Brasil, quando se fala em pimenta, normalmente, estamos nos referindo às espécies Capsicum (de modo geral, aquelas de coloração avermelhada) e Piper (a pimenta-do-reino, por exemplo).

E é entre elas que está o principal segredo: a capsaicina, substância encontrada na composição das pimentas Capsicum (como malagueta, dedo-de-moça, jalapeño e pimentas-de-cheiro) e a responsável pela sua ardência —a intensidade do ardor varia de acordo com o tipo e concentração de moléculas capsaicinoides.

No entanto, a capsaicina não tem sabor nem cheiro, apenas atua como um estimulador. Quando ingerida, estimula as células nervosas da boca, nariz e garganta, que enviam uma mensagem ao cérebro. Portanto, quanto mais picante a pimenta, maior o teor de capsaicinoides, substâncias funcionais e importantes na prevenção de doenças.

Estudos

Pimenta-do-reino - iStock - iStock
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Um estudo recente do Instituto Neurológico Mediterrâneo Neuromed (Pozzilli/Itália), publicado no Journal of the American College of Cardiology, acompanhou cerca de 22 mil pessoas por cerca de oito anos, identificando uma associação entre a pimenta e a proteção contra problemas cardiológicos, como o infarto do miocárdio.

Segundo a pesquisa, o consumo frequente da especiaria pode reduzir o risco de morte por problema cardiovascular em 34%. O levantamento apontou que as pessoas que comeram pimenta quatro vezes na semana tiveram um risco 44% menor de morrer devido à doença arterial coronária (DAC) e 61% menor de morte por acidente vascular cerebral (AVC), quando comparadas aquelas que não comeram ou raramente comiam pimenta na semana (o estudo não faz distinção entre os tipos de pimenta).

Outra investigação científica, realizada na Universidade de Vermont (EUA) e publicada em 2017 no periódico PLoS ONE, concluiu que comer pimenta no mínimo uma vez por mês pode reduzir a mortalidade em 13%. Os pesquisadores acompanharam 16 mil pessoas por quase 20 anos e perceberam que quem tinha o hábito de comer pimenta estava menos suscetível às doenças do coração.

Ardência do bem

Pimenta de cheiro - iStock - iStock
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Segundo análises dessas e outras pesquisas que vem sendo realizadas mundialmente nos últimos anos, os índices apontados se devem a diversos fatores. A pimenta pode ser considerada um alimento termogênico, ou seja, faz com que a temperatura corporal aumente e as células utilizem a reserva de gordura para compensar o gasto de energia. Por isso, podemos dizer que a capsaicina acelera o metabolismo e, consequentemente, eleva o gasto calórico, ajudando a queimar a gordura do corpo.

Ela também tem potente ação antioxidante, anti-inflamatória e propriedades vasodilatadoras, que favorece a dilatação dos vasos sanguíneos e assim contribui para a diminuição da resistência a circulação do sangue pelo corpo, se tornando uma aliada na redução da pressão arterial, no controle das taxas de glicose e insulina, além dos níveis de colesterol, evitando a oxidação das gorduras para o chamado colesterol ruim.

Tudo isso ajuda a evitar lesões e o acúmulo de gordura na parede das artérias e protege o organismo das doenças cardiovasculares, como infarto e AVC. A substância também tem efeito analgésico, que tem o poder de se ligar aos receptores da dor e promover a redução nessa sensação, e ainda propiciar o relaxamento da musculatura, agindo no alívio de dores musculares, de cabeça e artrite reumatoide.

E quando falamos das pimentas de modo geral, podemos acrescentar ainda mais benefícios nesta lista, já que são ricas em vários nutrientes essenciais para o funcionamento do corpo: são, por exemplo, fontes de vitaminas A, C e E, ácido fólico, zinco e potássio, importantes nutrientes antioxidantes para o organismo, além de bioflavonoides, substâncias que agem em favor da prevenção do câncer. As pimentas são ainda ricas em carboidratos e fibras alimentares, que aumentam a saciedade em curto prazo, contribuindo também na diminuição das taxas de gordura.

Moderação e cuidado

Apesar dos benefícios, é importante ressaltar que a ingestão excessiva pode provocar efeitos contrários e prejudicar o organismo, em especial o sistema digestivo. Portanto, é preciso ter cuidado, principalmente no caso de indivíduos que sofrem com gastrite, queimação, refluxo, úlceras, doenças inflamatórias no intestino e hemorroidas.

Reforçando que as pimentas não são a causa desses problemas, mas podem agravá-los se seu consumo for em excesso. Esses pacientes devem incluir a pimenta nas refeições apenas com orientação médica.

Uma aliada e não a solução!

Pimenta jalapeño - iStock - iStock
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Importante entender que as pimentas não vão resolver um problema cardiovascular, mas, sim, podem atuar como aliadas, principalmente na prevenção e no controle de fatores de risco. Também vale frisar que os benefícios são obtidos com o consumo regular, porém, como dito, sem exageros.

As palavras-chave aqui são equilíbrio e moderação. Para quem não tem restrições, a recomendação é usar os diferentes tipos de pimenta como tempero, em pequenas porções divididas entre as refeições. Além disso, embora os estudos trazidos aqui como exemplos apontem benefícios significativos, mais pesquisas são necessárias para explicar e comprovar tudo o que está por trás do consumo das pimentas.

Nenhum alimento sozinho tem o poder de manter bem a saúde do coração e do organismo. O resultado vem da combinação de uma dieta balanceada com a prática regular de atividades físicas, um estilo de vida e hábitos saudáveis.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL