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Crise de ansiedade e infarto: sintomas parecidos, problemas diferentes

Paulo Chaccur

Diretor da Cirurgia Cardiovascular no Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, é formado pela Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo e possui mais de 40 anos de experiência.Na década de 90, Chaccur passou a liderar a própria equipe de cardiologia e cirurgias cardíacas no HCor (Hospital do Coração).

Colunista do UOL

08/12/2019 04h00

A pessoa começa a sentir uma forte dor no peito, formigamento pelo corpo, enjoo, taquicardia, transpiração excessiva, tem dificuldades para respirar... Será que ela está enfrentando uma crise de ansiedade ou um ataque cardíaco?

Os sintomas nesses dois casos são bem parecidos e acabam gerando confusão e dúvidas, o que leva muitos pacientes a dar entrada no pronto-socorro, mesmo sem nenhum problema no coração. Entre os principais problemas cardíacos confundidos com uma crise de ansiedade estão as anginas, infartos e AVC (acidente vascular cerebral).

No entanto, apesar de apresentarem sinais similares, é possível distinguir e identificar algumas diferenças que podem ajudar no diagnóstico inicial dessas condições.

O que caracteriza um ataque cardíaco?

Um ataque cardíaco acontece a partir da interrupção do fluxo de sangue necessário para que o coração funcione de forma correta. Isso ocorre quando as artérias que irrigam o órgão apresentam algum problema ou entupimento. Em situações assim, os sintomas surgem no corpo de forma aguda, indicando que o músculo cardíaco está em sofrimento.

Na maior parte dos casos, a dor começa no meio do peito e pode ser sentida no braço esquerdo (gerando sensação de formigamento) e nas costas, além de irradiar para o pescoço, nuca, ombros, mandíbula, queixo e estômago. Também é possível que surjam sinais como a transpiração fria, náuseas, desmaio e vômito. Geralmente, não há alterações na respiração, exceto nos casos em que o ataque provoca uma crise de ansiedade.

Indivíduos que já sofreram um ataque cardíaco descrevem a dor como opressiva, ou seja, uma sensação de aperto ou pressão no peito. Ela não passa mesmo quando a pessoa fica em repouso e sua intensidade varia.

Esse estado dura cerca de cinco minutos, mas em alguns casos se estende por até 20 minutos —o que de fato revela que há um problema nas artérias, impedindo que o sangue chegue da forma como deveria ao coração. Os sintomas são crescentes e podem ir piorando gradativamente por várias horas.

E como saber os sintomas são de uma crise de ansiedade?

No caso das crises de ansiedade, a dor também se concentra na área do peito, mas sem a pressão gerada nos ataques cardíacos. Além disso, ela não se limita ao braço esquerdo, podendo irradiar também no braço direito, pernas, dedos, tórax e pescoço.

Apesar dessa dor no peito, isso não quer dizer necessariamente que há problemas no coração. É comum que outros órgãos situados nessas áreas causem reações fortes, que acabam confundindo os pacientes: o estômago com uma gastrite ou o esôfago com o refluxo, por exemplo.

Em alguns casos, o problema ainda é originado por uma desregulação cerebral, que ativa o sistema autônomo simpático e prepara o corpo para algo ruim, deixando o organismo em situação de alerta. Aqui entra outro sinal comum: as pessoas costumam sentir medos irracionais, entre eles o de altura, de ficar preso em algum lugar ou de afogamento.

Em consequência disso, durante uma crise, a produção hormonal é estimulada, fazendo com que o corpo libere mais adrenalina e noradrenalina, substâncias que aumentam a frequência cardíaca, geram taquicardia, alteram a pressão arterial, dificultam a respiração, aumentam o suor, causam tremores e vômitos. Outros sintomas comuns nas crises são as dores abdominais e dores de cabeça, tonturas e sensação de quase desmaio.

Uma grande diferença entre as crises ansiosas e o ataque cardíaco é o tempo em que os sintomas alcançam seu ponto máximo. As crises ansiosas normalmente atingem seu auge entre 10 e 20 minutos. Aos poucos, o paciente tende a baixar os níveis de adrenalina e recuperar o controle corporal. Sinais prévios de depressão e alterações de humor também podem caracterizar o quadro.

Para distinguir os dois, é preciso levar em consideração ainda fatores que aumentam as chances de um problema no coração, como: idade, se é fumante, qual nível de estresse no dia a dia, se há histórico familiar ou doenças como diabetes e hipertensão.

Crises de ansiedade aumentam os riscos de problemas no coração

Mesmo que as crises de ansiedade não representem, necessariamente, um evento cardíaco, estudos já apontam que elas são atualmente reconhecidas como fatores de risco para o coração, uma vez que, quando acontecem de forma recorrente, podem levar a uma resposta inflamatória no corpo que predispõem problemas cardíacos.

Os efeitos da ansiedade sobre o corpo, como a hipercortisolemia (altos níveis de cortisol na corrente sanguínea), hiperatividade do sistema nervoso simpático, anormalidades plaquetárias que levam a fenômenos trombóticos e a ativação do sistema imunológico, estimulam a evolução da aterosclerose, a ocorrência de doença arterial coronariana e de outros eventos cardiovasculares.

Pesquisas revelam que portadores de doenças psiquiátricas apresentam mortalidade de duas a três vezes maior em relação à população geral, especialmente por conta de problemas no coração.

O contrário também pode ocorrer

Assim como é possível que o paciente confunda a ansiedade com um ataque cardíaco, o contrário também pode acontecer. Uma pessoa pode achar que está no meio de uma crise e minimizar os sintomas, quando na verdade está com um problema cardiovascular sério.

Por isso, caso ainda não tenha sido diagnosticado com ansiedade e não seja capaz de entender o que está sentindo, o melhor é procurar imediatamente um médico. Até porque no caso dos ataques cardíacos também nos deparamos com exceções, em pacientes que apresentam sintomas diferentes ou até mesmo nenhum sinal.

Esperar não é a melhor opção de forma alguma. Isso porque, se estiver sofrendo de um ataque do coração, não receber ajuda médica a tempo pode significar complicações sérias que levam a pessoa até a óbito. Em qualquer hospital, dor no peito é levada muito a sério, garantindo que o atendimento seja feito em pouco tempo, o que aumenta a chance de recuperação.

E existe uma razão para isso: a cada minuto sem sangue, podemos dizer que o músculo cardíaco morre um pouco, formando uma necrose que pode nunca mais ser recuperada e causar graves danos ao órgão.

Já no caso de uma crise de ansiedade, não buscar ajuda médica pode piorar o problema, aumentando a frequência das crises. Tratamento e acompanhamento podem atenuar os efeitos negativos desses transtornos sobre a qualidade de vida e, como dito, também sobre a saúde cardiovascular.

Informação e esclarecimentos são importantes, assim como estar sempre atento os sinais transmitidos pelo corpo, mas buscar orientação profissional e não hesitar em procurar atendimento o mais rápido possível pode salvar vidas.