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Paulo Chaccur


Paulo Chaccur

Você toma seus remédios corretamente ou vive atrás de desculpas para parar?

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Paulo Chaccur

Diretor da Cirurgia Cardiovascular no Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, é formado pela Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo e possui mais de 40 anos de experiência.Na década de 90, Chaccur passou a liderar a própria equipe de cardiologia e cirurgias cardíacas no HCor (Hospital do Coração).

Colunista do UOL

01/09/2019 04h00

Na carreira de médico nos deparamos com diversos tipos de pacientes. Têm aqueles que são responsáveis, se cuidam e estão sempre com o check-up em dia; os hipocondríacos, que a todo o momento aparecem com algum suposto problema de saúde; e até aqueles que evitam passar perto de um consultório e só aparecem quando o corpo praticamente obriga por conta de uma dor ou sintoma.

Poderia listar aqui muitos outros perfis, mas um em especial precisamos chamar a atenção: pacientes que são diagnosticados com uma doença, mas não seguem o tratamento indicado. São indivíduos que mesmo com informação e consciência de suas necessidades são displicentes com a própria saúde.

Muitas pessoas têm dificuldade em entender que precisam tomar remédios e se cuidar pelo resto da vida, como no caso de quem têm diabetes, hipertensão, colesterol elevado ou uma cardiopatia. Em casos assim é preciso atenção contínua, uma vez que qualquer descuido pode ser muito prejudicial à saúde e ter consequências graves.

A seguir, selecionei algumas desculpas comuns para essa displicência, e derrubo cada uma delas:

"Parei porque já estou melhor!"

Quem nunca ouviu ou já repetiu a frase acima? No consultório não é raro encontrar pacientes que ao atingirem os níveis adequados da pressão arterial ou colesterol, por exemplo, prontamente entendem que não precisam mais continuar tomando os remédios indicados e simplesmente param, sem consultar ou conversar com o médico. É como se o paciente quisesse testar a verdadeira necessidade de utilizar tais medicamentos, para autoconvencimento.

O grande problema nessas situações é que não fazendo o controle domiciliar da pressão arterial ou novas dosagens do colesterol —que só serão reavaliadas em uma próxima consulta, geralmente entre 4 a 6 meses — permanecem fora das recomendações por períodos longos, acarretando em riscos de AVC (acidente vascular cerebral) e da degeneração de artérias coronárias ou de outros sistemas vasculares.

"Estes remédios não estão me fazendo bem"

Simular efeitos colaterais é outra forma de querer se justificar na suspensão da medicação. Apesar de serem poucos, há casos em que realmente os efeitos colaterais aparecem.

Nessas situações, principalmente se o retorno programado não estiver próximo, o recomendado é entrar em contato imediatamente com o médico e relatar a questão e não simplesmente interromper o tratamento. Se há efeitos colaterais, o médico poderá fazer uma avaliação e buscar alternativas de acordo com o caso.

"Era muito medicamento por dia! Meu corpo não aguenta"

Esta é mais uma situação frequente. São casos de pacientes que apresentam muitas comorbidades (ou seja, a existência de duas ou mais doenças simultaneamente), como diabetes, hipertensão arterial, dislipidemia (colesterol e/ou triglicérides elevados) e doença arterial coronária, com a necessidade de tomar um ou dois medicamentos para cada uma dessas patologias e, invariavelmente, por duas ou três vezes ao dia.

A argumentação desses indivíduos é que são muitos medicamentos e que não se sentem bem tendo que tomar 10 ou mais comprimidos ao dia, não se dando conta de que por ter várias patologias necessitam de um número maior de remédios.

O fato é que a decisão da prescrição de um medicamento, bem como a sua continuidade, deverá ser orientada pelo médico, que poderá buscar opções de tratamento e acompanhar devidamente sua evolução.

"Optei por buscar outras opções de tratamento"

Com alguma frequência nos deparamos com pacientes que optam por tratamentos alternativos para suas patologias. Nesses casos buscamos não interferir, mas alertar para a importância de um acompanhamento, uma vez que é preciso monitorar e checar regularmente se a opção está apresentando o resultado necessário.

No caso de níveis de colesterol, por exemplo, quando após algum período de teste fica constatado que a terapia aplicada não está funcionando, buscamos sutilmente alertar que é indicado iniciar um tratamento medicamentoso tradicional.

"Tomo o remédio na hora que eu lembro"

Tomar o remédio no horário recomendado é tão importante como consumi-lo na dose certa. Isso porque alguns medicamentos são melhor absorvidos pelo corpo em determinados horários do dia.

Isso é chamado de cronofarmacologia, ciência que relaciona os efeitos dos remédios no organismo em relação ao tempo e o trajeto percorrido no corpo. São estudos que revelam, entre outros pontos, que alguns medicamentos são potencializados quando administrados em determinados horários, ajudando, inclusive, a reduzir efeitos colaterais.

Remédios para pressão alta, por exemplo, têm efeito potencializado no início do dia. Isso porque, normalmente, a pressão arterial é mais alta entre cinco e dez horas da manhã. Assim, devem ser administrados principalmente nesse período, para começar a funcionar junto com o pico de pressão arterial.

Um alerta

De todas as patologias descritas anteriormente, o tratamento do diabetes é o de mais difícil entendimento por parte do paciente por conta da gravidade e das consequências que poderão vir ao não manter dieta adequada, bem como não tomar os medicamentos indicados.
Permanecer com níveis elevados da hemoglobina glicada pode não apresentar problemas imediatos, mas em longo prazo há riscos do desenvolvimento de insuficiência renal, retinopatia diabética e doença arterial coronária.

Todo cuidado é pouco!

Há certas doenças em que não basta tomar um medicamento por certo período e simplesmente parar que o corpo reagirá bem. É preciso seguir o tratamento, com adaptações no estilo de vida, alimentação, ambiente em que se vive e o uso de remédios.
Por isso, reforço a importância de seguir com responsabilidade as recomendações passadas pelo médico. Aqui vale salientar que buscar um profissional de confiança pode ajudar e muito.

Um fator importante está na verdadeira relação médico/paciente, de modo que a confiança do paciente em seu médico e a capacidade do profissional no convencimento dos riscos que esse indivíduo está suscetível implicará na continuidade terapêutica necessária para o sucesso do tratamento de cada uma dessas doenças.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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