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Alexandre da Silva

O protagonismo das pessoas idosas no combate à covid-19

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Imagem: Reprodução
Alexandre da Silva

Alexandre da Silva

Alexandre é fisioterapeuta, especialista em gerontologia e mestre em reabilitação pela Unifesp, doutor em saúde pública pela USP e professor da Faculdade de Medicina de Jundiaí. É também membro do Centro Internacional de Longevidade e dos grupos de trabalho Racismo e Saúde e Envelhecimento e Saúde Coletiva, ambos da Abrasco.

Colunista de VivaBem

25/01/2021 04h00

Eva, Ronoré, Joe, Luiza, Margareth, Alexandre e Paulo. O que essas pessoas têm em comum? São idosas e idosos.

Eva Maria Oliveira, uma idosa de 111 anos, quilombola, foi a primeira ser vacinada contra a covid-19 no município de Búzios (RJ). Vale destacar que o Plano Nacional de Imunização "oscila" entre garantir ou não a prioridade ao acesso para as primeiras vacinas às pessoas pertencentes às comunidades quilombolas, apesar das inúmeras vulnerabilidades às quais estão expostas mesmo antes de a pandemia chegar.

Alguns estados começam a incluí-las a partir de denúncias e pressões dos movimentos sociais, ativistas e pesquisadores.

Ronoré Gavião, de 105 anos, primeira indígena vacinada no Pará - Bruno Cecim/Ag. Pará - Bruno Cecim/Ag. Pará
Ronoré Gavião, de 105 anos, primeira indígena vacinada no Pará
Imagem: Bruno Cecim/Ag. Pará

Ronoré Gavião, idosa de 105 anos, indígena, primeira a ser vacinada no estado do Pará. Haká-Kiwi Gavião, neta e técnica de enfermagem, foi quem realizou o procedimento.

A região norte do país tem sido brutalmente violentada por omissões governamentais para o enfrentamento à covid-19 e agora sofre também pela falta de oxigênio para pacientes hospitalizados.

Zezé Motta, uma idosa de 76 anos e negra, atriz, cantora, vice-presidenta do Retiro dos Artistas, recebe a primeira dose da vacina contra a covid-19 e faz um discurso importante: "Não vou dizer que estou feliz, não dá para ser feliz testemunhando tanto sofrimento". A atriz sofreu com a perda de familiares durante a pandemia e, mesmo assim, busca colaborar com amigos e familiares da forma que pode.

Joe Biden, um idoso de 78 anos, cabelos grisalhos e um andar nada apressado, assumiu a presidência de um dos maiores países do mundo e já realiza mudanças significativas na agenda política de seu país que afetará a condição de vida não apenas dos norte-americanos, mas também dos brasileiros. Ele é o presidente mais velho a assumir esta função nos Estados Unidos.

Luiza Erundina, mulher idosa e nordestina, 86 anos, que recentemente foi candidata a vice-prefeita na maior cidade da América Latina, agora é candidata a assumir a presidência da Câmara dos Deputados. Erundina é uma personalidade extremamente importante no cenário político e denuncia constantemente as injustiças sofridas pelo povo brasileiro: "O combate à desigualdade, seja de raça, credo ou gênero, deve ser uma prioridade de qualquer gestão".

Margareth Dalcolmo, pesquisadora da Fiocruz - Reprodução/CNN Brasil - Reprodução/CNN Brasil
Margareth Dalcolmo, pesquisadora da Fiocruz
Imagem: Reprodução/CNN Brasil

Margareth Maria Pretti Dalcolmo, 66 anos, médica pneumologista, fez um discurso assertivo, duro e necessário sobre como o governo federal vem dificultando o acesso a vacina. E dessa vez foi em relação ao atraso dos insumos necessários para a conclusão de preparo das doses que precisam ser aplicadas na população brasileira, urgentemente. É uma das maiores especialistas em covid-19 no Brasil.

O que quero destacar citando essas pessoas idosas é quanto ao protagonismo que exercem na sociedade, das repercussões das ações tomadas por elas, do significado que isso deveria ter para os mais jovens. Sim, os mais jovens ainda têm muito o que aprender com os mais velhos e mais velhas. Não há excesso de demagogia, é pura constatação.

Biden irá fazer uma mudança ministerial nunca vista nos Estados Unidos. Erundina pode trazer importantes contribuições para o cenário político nacional.

Ronoré e Eva mostram que saberes e práticas ancestrais dos seus grupos sociais podem coexistir com as boas práticas e saberes científicos e, com isso, reduzir a mortalidade e adoecimento de quilombolas e indígenas.

Zezé Motta e Margareth estão buscando contribuir para a redução dos impactos da covid-19 dentro dos seus espaços de atuação profissional e demonstram grande empoderamento como mulheres.

Propósito e empatia. Segundo Alexandre Kalache, médico, gerontólogo e epidemiologista, idoso de 75 anos, ter propósito na vida é uma das condições essenciais para que o envelhecer ainda faça sentido. Mas o propósito precisa ser precedido de outros pré-requisitos, como aprendizagem ao longo da vida, saúde, segurança e capacidade funcional. Kalache tem exercido todos esses papéis sociais no momento da pandemia: "Nada sobre nós, sem nós".

Já a empatia demanda seu exercício regular nas mais diversas situações com profundo respeito ao próximo e a integração de valores culturais presentes em uma determinada região ou nação. Essa vem sendo constantemente violentada ou esquecida no nosso mundo capitalista.

Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor geral da OMS (Organização Mundial da Saúde), nos alerta sobre a distribuição desigual da vacina pelo mundo.

Paulo Marchiori Buss, idoso de 71 anos, diretor do Centro de Relações Internacionais da Fiocruz, publicou juntamente com o professor Luiz Eugenio de Souza um texto denunciando as iniquidades em tempos de covid-19 e as repercussões na Amazônia e em toda a América Latina.

A luta pela vida das pessoas idosas deve ser um mantra para todos e todas nós nessa pandemia. Não se trata de discutir os rumos da economia e não enaltecer todas as vidas e permitir que histórias e ensinamentos sejam enterrados de forma injusta e precoce. Trata-se de manter vivo quem ajuda, lidera, coordena, pensa, nos conscientiza, nos sensibiliza para que possamos ser jovens, adultos e crianças melhores.