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Nuno Cobra Jr

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Fitness não é saúde!

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Imagem: iStock
Nuno Cobra Jr

Nuno Cobra Júnior é um generalista do conhecimento corporal e acompanhou o treinamento físico e mental de alguns dos maiores esportistas brasileiros nos últimos 35 anos, entre medalhistas olímpicos e diversos campeões mundiais, como Ayrton Senna e o surfista profissional Ítalo Ferreira. Profissional de educação física, palestrante, consultor em qualidade de vida e treinamento integral, tem ajudado a conceitualizar e fomentar uma nova visão do treinamento físico, longe dos modismos e dos modelos hegemônicos de treinamento. O autor do livro ?O Músculo da Alma, a Chave para a Sabedoria Corporal? defende a inovação e a renovação do treinamento físico. É fundador de uma nova abordagem metodológica que une a filosofia, a psicologia e diversas áreas do conhecimento corporal, aplicados ao treinamento físico. Veja mais em www.treinamentoconsciente.com.br

Colunista do VivaBem

06/05/2021 04h00

Vou resumir, nesse artigo, algo que já é do conhecimento dos treinadores há várias décadas: o universo do bodybuilding, o culto ao fortalecimento muscular, tão estimulado nas academias, revistas, sites e outras mídias, dando sustentação à base do movimento fitness, propaga princípios e conceitos que vão contra a saúde corporal.

Obviamente, não podemos generalizar, muitas pessoas podem se beneficiar do modelo do fitness e, assim, indiretamente, caso não assumam radicalmente essa proposta, atingir uma boa saúde.

No entanto, mesmo essas pessoas podem se favorecer ao ampliar a sua perspectiva acerca das funções primordiais de um treinamento físico saudável e consciente.

Na realidade, a imensa maioria dos alunos está disposta, de bom grado, a sacrificar a sua saúde corporal em prol de resultados estéticos rápidos e milagrosos --seja tomando suplementos e anabolizantes, seja fazendo dietas severas, seja seguindo dicas radicais de treinamento. Aliás, o universo fitness se distanciou tanto dos princípios fundamentais da saúde corporal que, atualmente, quase tudo o que se vende nessa indústria são propostas sedutoras, instantâneas e milagrosas para acelerar os resultados, com o foco na performance e não na saúde.

Nesse processo, o treinamento se transformou em uma área estética, em que o foco é ganhar músculos e perder peso no menor tempo possível —mesmo que à custa de uma destruição metódica do corpo, associada ao uso intermitente de anabolizantes e às lesões causadas pela sobrecarga no treinamento.

Nesse modelo, os alunos devem condicionar e acostumar o seu corpo a resistir ao sofrimento e à dor, para atingirem, em um curto espaço de tempo, o tão sonhado "corpo perfeito", algo inatingível, uma isca jogada para desaguar no mercado milhares de produtos fitness.

A indústria do bodybuilding é um grande case de marketing. Como um marketing bem feito consegue vender um modelo de treinamento que pode ser extremamente danoso à nossa saúde (como no caso da vigorexia, com alto risco de lesões, envelhecimento precoce, aumento dos radicais livres, enrijecimento corporal e uso de anabolizantes) e, mesmo assim, é capaz de empacotar este produto como algo saudável? Mistérios do marketing e do consumo.

O treinamento radical é irmão da dieta radical. Como assim, Nuno? É que em ambos os resultados estéticos no curto prazo podem ser satisfatórios, no entanto podem ser desastrosos para a saúde corporal no médio e longo prazo. De forma geral, esse tipo de exercício pode diminuir severamente a vida útil das nossas articulações e cartilagens. Pergunte a um fisioterapeuta o que acontece com a maioria dos "marombeiros" a partir dos 50 anos. Quando se é jovem, o grande nicho da indústria fitness, o dia de amanhã não existe.

Tudo mudou

Uma visão mais profunda e moderna do treinamento corporal nos leva a alterar e reestruturar os princípios propagados pelo fitness nas últimas quatro décadas.

Resumindo minhas experiências e pesquisas nessa área, cheguei a uma maneira didática para explicar algo muito básico em um treinamento físico que realmente seja focado na saúde corporal.

O conceito é bem simples: caso o treinamento físico roube a mobilidade, flexibilidade e funcionalidade corporal, ele não pode ser considerado um treinamento natural e saudável.

Para entender esse conceito, imagine o seguinte: no fim de semana, você foi convidado por seus amigos para fazer uma trilha radical, cheia de obstáculos naturais, que irão exigir manobras de agilidade, como saltar, nadar, ou subir em árvores ou cipós, além de um bom preparo cardiovascular e muita resistência física, de forma geral. A pergunta é: o seu treinamento na academia o preparou para esse desafio natural?

Bom, você pode argumentar que a vida moderna não irá te expor a tais desafios e que ter um corpo extremamente forte lhe trará mais vantagens sociais.

No entanto, trocar a busca da saúde pela estética corporal pode trazer enormes prejuízos, como já expliquei em outros artigos, embora não se fale muito sobre isso.

Um corpo transformado por meio de musculação pesada e anabolizantes perde a sua naturalidade, ginga, flexibilidade e movimento, tornando-se uma estrutura engessada, uma massa pesada de músculos, sem utilidade e benefício à saúde corporal.

Entendo que a paixão estética e as questões psicológicas envolvidas na vigorexia levam os praticantes do fisiculturismo a uma obsessão com o volume e a qualidade muscular. Porém, será que realmente vale a pena treinar duro, durante 10 ou 20 anos, para, enfim, perder sua funcionalidade, flexibilidade e agilidade corporal? Esse é um questionamento que todo bodybuilder deveria fazer a si mesmo.

O excesso de músculos sobrecarrega o funcionamento do coração, o excesso de suplementos sobrecarrega e maltrata os rins, o uso de anabolizante leva a graves desequilíbrios orgânicos e pode provocar a morte, funcionando como uma roleta russa, é impossível prever o dano à saúde em cada caso específico

Além de sobrecarregar diversos órgãos vitais, o vigoréxico sofre vários problemas ósseos e articulares, encurtamento dos músculos e tendões, risco de infarto ou derrame, impotência, diminuição dos testículos e uma grande propensão a diversos tipos de câncer.

Portanto, qual o sentido de todo esse sacrifício? Apenas para estar de acordo com um modelo de beleza inventado pela indústria bilionária do bodybuilding? Apenas para se adquirir status social? Isso é realmente saudável?

Quando você quiser jogar uma partida de futebol, vôlei de praia, fazer slackline ou surfar, você acha que todo esse excesso de musculatura será uma vantagem ou uma desvantagem?

Vale a pena abrir mão de tudo isso, da saúde e funcionalidade corporal, em prol de um padrão estético? Se a resposta for sim, você é um bodybuilder convicto e sabe os riscos que está correndo. Só me cabe compreender as suas escolhas, que devem ser sempre validadas e respeitadas, como qualquer tipo de escolha em nossas vidas, acolhendo a diversidade humana.

A nova pirâmide do treinamento

Para finalizar, é difícil explicar isso para um leigo, mas um treinamento com o foco na saúde faz tudo exatamente ao contrário daquilo que ensinaram a você até hoje, abandonando o foco nos resultados rápidos e adotando a moderação, a medida exata, sem exagero, como um princípio fundamental.

É curioso, faço parte de um grupo de treinadores que cuida da preparação física de grandes atletas. Quando analisamos, de perto, as estratégias utilizadas nesse meio, percebemos que 100% desses treinadores não seguem nenhum dos princípios ou conceitos adotados pelo fitness.

Faz sentido, um atleta precisa priorizar a funcionalidade corporal e não pode se expor ao risco de lesões. Dessa forma, o seu treinamento exige a expertise de um treinador consciente e holístico, muito próximo à visão de um fisioterapeuta, atuando com extrema moderação e cuidado.

Inspirado por essa visão, sugiro aos alunos uma outra ordem de prioridade no uso do tempo reservado ao treinamento. No modelo hegemônico, quase todo o treinamento é reservado para o desenvolvimento muscular, sobrando muito pouco tempo para a mobilidade, a flexibilidade, o treino restaurativo, o relaxamento e o treinamento cardiovascular.

Na teoria, seria algo em torno de 70% para o fortalecimento, 20% para o cárdio e 10% para a flexibilidade e outros. Na prática, muitos alunos direcionam 100% do tempo para o fortalecimento.

Como é a pirâmide atual:

Como o treinamento cardiovascular é infinitamente mais importante e determinante para a nossa saúde orgânica como um todo, se estabelecendo como o bem mais precioso de um treinamento; a base fundamental da saúde, o "coração" de um treinamento consciente e saudável, essa ordem deveria ser revista. Detalhe: para 90% da população, o treinamento cardiovascular ideal seria uma simples caminhada, como explico em "Correr não é melhor do que caminhar"

A pirâmide que favorece o treinamento focado na saúde e na consciência corporal é assim:

Em um futuro não muito distante, o termo fitness, atualmente usado como um elogio, será utilizado de forma pejorativa para designar aqueles que valorizam a estética em detrimento da sua saúde corporal.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL