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Nuno Cobra Jr

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A moda das lives no escuro

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Imagem: iStock
Nuno Cobra Jr

Nuno Cobra Júnior é um generalista do conhecimento corporal e acompanhou o treinamento físico e mental de alguns dos maiores esportistas brasileiros nos últimos 35 anos, entre medalhistas olímpicos e diversos campeões mundiais, como Ayrton Senna e o surfista profissional Ítalo Ferreira. Profissional de educação física, palestrante, consultor em qualidade de vida e treinamento integral, tem ajudado a conceitualizar e fomentar uma nova visão do treinamento físico, longe dos modismos e dos modelos hegemônicos de treinamento. O autor do livro ?O Músculo da Alma, a Chave para a Sabedoria Corporal? defende a inovação e a renovação do treinamento físico. É fundador de uma nova abordagem metodológica que une a filosofia, a psicologia e diversas áreas do conhecimento corporal, aplicados ao treinamento físico. Veja mais em www.treinamentoconsciente.com.br

Colunista do VivaBem

18/02/2021 04h00

Em uma live recente que fiz no Instagram, algo de inesperado me aconteceu: como o sinal estava ruim, ao entrar no ar, minha tela estava escura, um breu total.

"E agora?", pensei. "Bem aqui no Instagram, o paraíso da imagem." Eu estava nu, sem imagem, apenas uma voz na escuridão.

Para não decepcionar os seguidores, fui em frente, decidido a assimilar a dificuldade e fazer graça com a situação.

Então, uma mágica aconteceu, a possibilidade de libertar o olhar abriu outras portas da minha percepção, mergulhando em outros sentidos, permitindo que a alma pudesse voar com mais leveza e desenvoltura.

Foi uma experiência única, fiquei bem mais calmo e consegui me comunicar com mais profundidade e sinceridade. Era como se estivesse de olhos fechados, mergulhando para dentro e não para fora, como é mais comum.

Percebi que estar livre da minha imagem era uma grande vantagem, eu poderia caminhar, ir até a cozinha, me deitar e relaxar, e ninguém iria bisbilhotar a minha vida.

Melhor ainda, poderia estar de pijama, com a barba malfeita e descabelado, sem que ninguém pudesse me julgar.

O mundo da imagem é uma grande ilusão, em um mundo cada vez mais artificializado, manipulador e "fake", nos tornamos caricaturas de nós mesmos.

Caiu na rede é peixe!

O peixe morre pela boca, nós estamos sendo capturados pelos olhos. O maior ativo financeiro do mundo é a nossa atenção.
Estamos cansados de olhar, tentando fugir da força magnética irresistível das telas, um universo cada vez mais gratificante e sedutor.

Assim é covardia, estamos sendo influenciados por influenciadores profissionais, estamos sendo manipulados por marqueteiros profissionais. Como não ser pego nessa rede de intrigas, ideologias, marketing político, destruição de reputações, investidas contra a ciência, além da sedução das teorias conspiratórias, entre outros?

Só o silêncio, o corpo em movimento, a meditação e a expansão da consciência nos salvarão dessas trevas que se aprofundam a cada dia, nos conduzindo à divisão, à reatividade, ao extremismo, à polarização e à autodestruição da nossa espécie.

A principal estratégia do marketing digital é manipular aquilo que pensamos, aquilo que desejamos.

Manifesto em defesa do corpo

Falando nisso, em 2016, criei um movimento chamado: Movimento treinamento consciente. Uma das ideias era desenvolver ações criativas para trazer à tona algumas questões levantadas em um longo estudo que durou 12 anos, investigando as distorções do mercado de consumo ligadas ao treinamento e à saúde, o que resultou em um livro: "O músculo da alma, a chave para a sabedoria corporal".

A experiência da live no escuro foi a deixa para pensar sobre a exploração da imagem corporal pelo mercado de consumo. Afinal, modelos de perfeição física insanos e inatingíveis geram diversos efeitos colaterais, com graves consequências na saúde pública mundial, como o aumento exponencial dos transtornos alimentares, o consumo de anabolizantes (só nos EUA três milhões de pessoas consomem anabolizantes com finalidades estéticas), um aumento assustador da obesidade, devido ao desequilíbrio causado pelas dietas da moda, acidentes fatais em cirurgias plásticas e dezenas de outros fatores subterrâneos.

Para aprofundar a questão, segue um trecho de um manifesto que escrevi chamado: Manifesto em defesa do corpo.

"O corpo virou 'o mais belo objeto de consumo' e a publicidade, que antes só chamava a atenção para um produto exaltando suas vantagens, hoje em dia serve, principalmente, para estimular o consumo como um estilo de vida.

O resultado disso é um consumidor, perpetuamente, intranquilo e insatisfeito com a sua aparência.

Com isso, saem ganhando, entre outros, os mercados das dietas, das cirurgias estéticas, dos suplementos e da 'malhação'.

O corpo 'virtual' apresentado pela mídia é um corpo de mentira, medido, calculado e artificialmente preparado antes de ser traduzido em imagens e de se tornar uma poderosa mensagem de 'corpolatria'.

As imagens e normas atingem em cheio todos aqueles que as veem e, por meio de um diálogo incessante entre o que veem e o que são, os indivíduos insatisfeitos com sua aparência são cordialmente convidados a considerar seu corpo defeituoso.

Mesmo gozando de perfeita saúde, seu corpo não é perfeito e 'deve ser corrigido' por numerosos rituais de autotransformação, sempre seguindo os conselhos das normas veiculadas pela mídia."

(Trechos do livro "Nu e Vestido - Dez antropólogos revelam a cultura do corpo carioca", organizado pela antropóloga Mirian Goldenberg).

A insatisfação é uma das bases do consumo. O sarrafo não para de subir. O modelo de beleza vendido é um corpo cada vez mais inatingível, cada vez mais fora da realidade. Treinar se transformou em algo nocivo à saúde corporal, quanto mais radical for uma atividade física, melhor

Nesse contexto, um exercício passa a valer apenas pelo resultado estético que ele pode proporcionar, independentemente do mal que ele pode causar ao seu corpo no médio e longo prazo.

Esse manifesto se desdobrou em outro, chamado: Manifeste o seu desejo de mudança, texto posteriormente publicado na revista Veja em 5/09/2018.

Uma luz na escuridão

A ideia de realizar uma live mais sensorial, mais livre e meditativa começou a ganhar força em minha imaginação e se transformou no projeto: Uma luz na escuridão

O movimento mais potente, nos próximos anos, será o movimento de escapar da força magnética das telas e, consequentemente, do poder das grandes corporações ligadas ao consumo em massa, um movimento que pode simplificar a vida, ressignificar o consumo, descansar o olhar e o espirito.

Dizem que a voz é um retrato da alma. Não me surpreende que a voz esteja sendo resgatada nesse momento em que o mundo superficial está derretendo, e grita, desesperadamente: mais alma, por favor!

Também não me surpreende que a nossa saúde e o nosso corpo estejam colapsando, atingindo à desintegração, um esgotamento acelerado, refletido no aumento vertiginoso de todas as doenças modernas, devido à aceleração da vida e do consumo, assim como acontece com o corpo do nosso planeta. Quando a natureza sofre, nós sofremos também, não tem como ser diferente.

Afinal, todos os organismos vivos pulsam em perfeita sintonia e interdependência. Na realidade, nós e o planeta somos uma coisa só, embora a ciência e a consciência humana insistam em nos conceber como algo separado da natureza.

Falando em separação, após a live no escuro, me convidaram a entrar em um clube seleto, a nova moda do momento nas redes sociais, o Clubhouse, mas ao ver as condições, como ter um IPhone e outros detalhes, achei um pouco excludente.

Mas aí eu pensei, se o movimento é se livrar da imagem, podemos levar esse convite a outras redes, sem problema, é só desligar o vídeo, acender uma vela ou ficar no escuro, por exemplo.

Dando seguimento a esse projeto, no sábado, dia 20 de fevereiro, conversarei em meu Instagram (@nunocobrajunior) com Ana Thomaz, do M.U.D.A, uma pensadora extremamente criativa e original.

Nessa live sensorial, vamos fazer um mergulho para dentro, acender uma vela na escuridão, iniciando com relaxamentos e respirações no chão e depois sabe-se lá o que irá acontecer nesse encontro às escuras (risos).

Os mais jovens já estão fazendo esse movimento contra-imagem e contra-manipulatório, ao aderir à onda dos podcasts.

A saúde pública agradece, afinal o excesso de tempo sentado causará um estrago de proporções monumentais à nossa saúde nas próximas décadas, seja devido ao sedentarismo, ao impacto em nossa coluna ou em nossos olhos. Fora a preservação do planeta, já que desligar a câmera durante reuniões online reduz em 96% as emissões de CO2.

Vamos deitar no chão, esticar a coluna, relaxar e descansar os olhos?

"Descansa seus olhos, me enche de luz" (Titãs)

Desliga a luz e vai dormir!

celular, insônia, falta de sono, usar aparelho eletrônico à noite - iStock - iStock
Imagem: iStock

Aqui em casa, todos os domingos, a gente desliga a internet, o que é uma experiência incrível. Podemos perceber, claramente, como estamos sendo controlados por esse tique nervoso automatizado, esse vício de checar a toda hora alguma mensagem ou outras distrações. Ao perceber o vazio que fica ao tirar o celular, você poderá avaliar o tamanho da encrenca, regularmente.

Esse habito é bastante educativo para os menores e os maiores também, inclusive os velhinhos que parecem estar hipnotizados, vivendo em uma realidade paralela assustadora criada pela enxurrada diária de marketing político e fake news.

Desligar a rede também é essencial à noite, o que já representa a mais grave questão de saúde pública do nosso tempo, sem qualquer exagero, uma vez que os primeiros colocados nessa mórbida lista são profundamente dependentes desse pilar primordial.

Quem diria, o celular é a arma mais letal já inventada pela humanidade, como diria Adoniram Barbosa: "Mata mais que atropelamento de automóvel, mata mais do que bala de "revólver".

É surreal, vejo as pessoas preocupadas em cuidar da saúde ou fortalecer o sistema imunológico, gastando tempo e dinheiro com isso, investido em suplementos, dietas detox, métodos exóticos de treinamento e terapias mil, e elas se esquecem de dormir, o que, no fim, seria o elemento mais essencial.

Futuramente, a Netflix terá que pagar uma indenização bilionária por ter mantido em cativeiro milhões de pessoas em todo o mundo, em noites que não tem hora para acabar, lutando contra a sedução de seriados que são feitos para nos manter presos ao sofá (risos).

Pobres seres humanos insones, no dia seguinte estarão se arrastando no trabalho, sem concentração e sem ânimo, o que, por tabela, impacta brutamente a produtividade mundial.

Pensando nisso, criei mais um movimento contra cultural chamado: Desliga essa P**** e vai dormir!

Esse movimento atingirá em cheio as pessoas que se acostumaram a levar o inimigo para a cama, uma grande agressão à sua saúde física e mental.

Para participar é muito simples, basta publicar em suas redes sociais, aos domingos, uma tela com o fundo preto, com essa chamada em destaque, colocando uma advertência nos comentários: o celular é a arma mais letal já inventada pela humanidade. Se puder, use partes desse texto para apresentar o projeto e torna-lo inteligível aos leitores, multiplicando o seu sentido e potencial.

Cada post publicado irá prolongar a vida de centenas de pessoas, o que, em escala, salvará a vida de milhões de pessoas em médio e longo prazo, desafogando os hospitais públicos.

Absolutamente simples, mas eficiente.

Afinal, a melhor maneira de resistir à manipulação do mundo digital é desligar a sua fonte, apagar a luz e ir dormir.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL