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Como mudar pequenos hábitos pode curar a sua depressão

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Nuno Cobra Jr

Nuno Cobra Júnior é um generalista do conhecimento corporal e acompanhou o treinamento físico e mental de alguns dos maiores esportistas brasileiros nos últimos 35 anos, entre medalhistas olímpicos e diversos campeões mundiais, como Ayrton Senna e o surfista profissional Ítalo Ferreira. Profissional de educação física, palestrante, consultor em qualidade de vida e treinamento integral, tem ajudado a conceitualizar e fomentar uma nova visão do treinamento físico, longe dos modismos e dos modelos hegemônicos de treinamento. O autor do livro ?O Músculo da Alma, a Chave para a Sabedoria Corporal? defende a inovação e a renovação do treinamento físico. É fundador de uma nova abordagem metodológica que une a filosofia, a psicologia e diversas áreas do conhecimento corporal, aplicados ao treinamento físico. Veja mais em www.treinamentoconsciente.com.br

Colunista do VivaBem

06/08/2020 04h00

A OMS (Organização Mundial de Saúde) considera a depressão como a doença mais incapacitante do século 21. Atualmente, mais de 300 milhões de pessoas sofrem desse mal. Afinal, o que está por trás do aumento vertiginoso ocorrido nas últimas décadas? Quais os principais fatores que alimentam esse desequilíbrio?

Grande parte daquilo que chamamos de depressão é, na realidade, o que chamo de "depressão fisiológica", fruto de alterações fundamentais em nosso estilo de vida, e não uma decorrência direta de fatores psicológicos, como é mais comum se pensar (neste vídeo falo um pouco mais sobre o assunto). Em nossa sociedade, na maioria das vezes, quem adoece primeiro é o corpo e, em seguida, a mente, obviamente, tende a acompanhar esse processo, afinal ela também mora no corpo, como bem resume o antigo provérbio: "mens sana in corpore sano".

Tudo se inicia naquilo que chamo de "muita tela, pouca vida", o fenômeno moderno da virtualização do trabalho e da própria vida, fazendo com que a maioria de nós passe grande parte do dia sentado, refém de uma aceleração mental extremamente nociva à nossa natureza. O excesso de exposição à luz artificial, assim como o estresse crônico, terminam por prejudicar a qualidade do sono, sem contar que o tempo passado em lugares fechados impede uma exposição mínima ao sol, assim como inibe o movimento corporal, nos expondo a um nível tóxico de estímulos e informações.

Esse estilo de vida moderno pode levar à confusão e ao esgotamento mental. Junte a isso o excesso de estimulantes, como a cafeína, e teremos alguns dos principais fatores a alimentar esse processo. Assim como ocorre com o excesso de peso e outros desequilíbrios orgânicos, as causas da depressão são multifatoriais e, portanto, deveriam ser tratadas de forma sistêmica, transdisciplinar e profunda.

Obviamente, existem diferentes tipos de depressão, muitas delas, prioritariamente disparadas por crises existenciais, conflitos psicológicos ou traumas severos, o que busco discutir aqui é apenas um pequeno viés complementar, buscando enriquecer essa análise, acrescentando os aspectos fisiológicos escondidos por trás desse quadro.

Um efeito colateral das facilidades modernas

Para a maioria das pessoas, a questão essencial se resume a ter abandonado o seu próprio corpo e, em algum ponto da sua história, se posicionar contra a base fundamental da vida: sono, movimento equilibrado e um estilo de vida que respeite nossa herança evolutiva, de forma geral, como explico mais à frente.

Quando um ratinho é capturado e colocado em uma gaiola, temos que colocar uma roda ali, para evitar que ele enlouqueça, permitindo assim que ele se movimente. O ratinho, seguindo seu instinto animal, sabe que o movimento é essencial à sua sobrevivência, o seu cérebro não foi condicionado pelos valores do mercado ou por processos culturais sofisticados que distorceram a realidade e o sentido instintivo e primordial do movimento.

Lanço, aqui, um desafio aos estudiosos que pesquisam a depressão:

Selecionem 100 ratinhos saudáveis e os exponha a apenas três fatores citados anteriormente, como alteração no sono, falta de luz solar e sedentarismo crônico. Em seguida, observe o que irá acontecer após algumas semanas. Fatalmente, esse estilo de vida causará alterações hormonais severas em sua química corporal, levando-o, mais tarde, a um quadro depressivo. Faça o mesmo com qualquer outro animal e o mesmo processo irá se repetir, inclusive com o ser humano, embora de forma um pouco mais demorada e complexa.

Para ilustrar essa questão com mais profundidade, vou retomar um trecho do meu livro, "O músculo da alma":

"Vamos retornar apenas cem anos no tempo, no ano de 1920, nessa época, os pilares essenciais que sustentam e estruturam a nossa saúde ainda estavam bastante preservados. As pessoas ainda caminhavam muito, em média de 6 km a 8 km por dia, afinal, os veículos eram uma raridade. Atualmente, o excesso de conforto está minando e destruindo a vitalidade e a saúde do ser humano. O mundo contemporâneo trouxe inovação e comodismo ao nosso estilo de vida.

A partir da década de 1950, com a invenção norte-americana dos eletrodomésticos e do universo do consumo, acrescido da facilidade oferecida pelas escadas rolantes, elevadores, a popularização dos carros e a tecnologia, de forma geral, ficou muito mais fácil ser sedentário. E, em princípio, não vimos problema nenhum nessas tais 'facilidades'.

Qual a nossa realidade hoje? Um indivíduo acorda de manhã, depois de passar oito horas deitado, e se senta para tomar seu café da manhã. Em seguida, ele desce de elevador até a garagem de seu prédio e senta-se em seu carro para se dirigir ao trabalho. No final da manhã, após ficar outras cinco horas sentado trabalhando, ele vai de carro até um shopping, sobe algumas escadas rolantes ou elevador e fica novamente mais alguns minutos sentado para o almoço. Após passar o dia grudado numa cadeira, em frente ao computador, ele chega em casa e senta-se para o jantar.

Depois de tudo isso, como ele está muito cansado (afinal, ele ficou sentado o dia inteiro!), finalmente, liga a TV ou o celular e fica mais algumas horas fisicamente inativo, exposto ao excesso de informação. Por que será que ele tem uma hérnia de disco ou está com diabetes, pressão alta e apresenta diversos desequilíbrios orgânicos? A resposta é que não nascemos para viver sentados.

Em relação ao sono, antigamente as pessoas iam se deitar por volta das 8h da noite, já que não existia televisão ou o conceito moderno de vida noturna. Elas iam se deitar com as galinhas e dormiam em paz, com silêncio e tranquilidade, visto que não havia muitos estímulos externos, estresse crônico alimentado pelo estilo de vida moderno ou atividades nas ruas. "

Atualmente, as pessoas não têm tempo, nem energia, para fazer uma simples caminhada

Além disso, elas comem fast-food, bebem refrigerante, consomem alimentos saturados, químicos e industrializados de uma forma indiscriminada. O mundo sofre de uma crise crônica de ansiedade e, sendo assim, come de forma apressada, sem nem pensar no que está mastigando, pois está preso ao celular. O mundo está doente, obeso, flácido, sem energia e sem tônus muscular, pois se movimenta cada vez menos. O mundo toma remédios, pois tomar remédios é a opção mais rápida e mais prática para continuar sobrevivendo.

Resumindo, é isso: nós não estamos mais vivendo, nós estamos apenas sobrevivendo. Vejo isso diariamente em meu trabalho, em que me encontro com perfis heterogêneos que, de certa forma, são até homogêneos, já que quase todos dormem mal, são sedentários, estão ansiosos, depressivos, sem nenhuma vitalidade e energia, entre dezenas de outros desequilíbrios.

Outro dia, atendi um rapaz com uma história curiosa e, infelizmente, bastante comum. Aos 28 anos, ele já tinha uma quantidade enorme de cabelos brancos, não dormia, não se movimentava e comia muito mal. Obviamente, esse estilo de vida havia o conduzido a um quadro crônico de ansiedade e depressão. Trabalhando com tecnologia da informação, ele ficava no computador até às 2h ou 3h da manhã, pois tinha que levar trabalho para casa, para dar conta dos prazos e metas que lhe eram impostos.

No outro dia, acordava às 8h da manhã e começava tudo de novo. Que sistema de vida é esse que inventamos? Ele, claramente, não estava vivendo, estava apenas, "male e male", sobrevivendo. Aos trancos e barrancos, da forma como lhe era possível.

Você conseguiu chegar até aqui, sem acelerar o processo?

Faço essa pergunta porque a aceleração mental leva a uma dificuldade em ler um texto até o final, sendo um dos indícios da falta de foco e da confusão mental, ocasionadas pelo excesso de tela. Se nesse ponto do texto você estiver impaciente, lendo de forma acelerada, sugiro respirar fundo e diminuir o seu ritmo mental, afinal, dicas importantes estão espalhadas por todo o texto, inclusive no final. Em um futuro não muito distante, poucas pessoas serão capazes de ler um livro até o fim, o que, de certa forma, já é uma realidade.
A maioria das pessoas não associa aquilo que elas sentem com aquilo que elas fazem. Somos geneticamente dependentes do movimento corporal, tudo em nosso corpo só pode atingir uma melhor funcionalidade, sejam os ossos, seja a pele, seja a mente, sejam os músculos, sejam órgãos vitais, caso haja esta manutenção básica, proporcionada pela atividade física.

Na realidade, nossa saúde depende de princípios fundamentais ditados pela nossa herança evolutiva. O que significa isso? Caso siga o que determina sua herança evolutiva, aquilo que o nosso organismo já está adaptado há milhões de anos, você terá saúde e vitalidade; caso contrário, você estará estimulando um processo de adoecimento físico e mental acelerado. Detalhe: a nossa herança evolutiva não pode ser alterada em poucas décadas, essa readaptação é extremamente lenta, contada em centenas de anos ou alguns milênios. Ou seja, daqui a alguns séculos, talvez estejamos mais adaptados a um ciclo de sono diferente do habitual, coordenado pelo ciclo circadiano e, então, poderíamos dormir após a meia-noite, sem que isso traga muito prejuízo à nossa saúde. Por enquanto, isso dispara alterações extremamente negativas ao nosso organismo, como alterar nosso humor, estimular alterações metabólicas, cardiovasculares e alimentar o ganho de peso, entre outros.

Os medicamentos que combatem a depressão funcionam como auxiliares ao tratamento, porém, para cuidar dessa questão de uma forma mais abrangente e profunda, precisamos incluir mudanças de hábitos básicas e essenciais, assim como uma mudança de mentalidade em relação à depressão, sem as quais não se pode atingir uma cura sustentável e definitiva.

Sugiro pesquisar formas mais profundas e integrativas de tratamento, como a medicina chinesa ou a medicina Ayurveda, por incrível que pareça, algumas das estratégias mais eficientes e modernas de tratamento têm, em média, 5 mil anos de idade. Está aí a técnica do escalda-pé para comprovar esse fato, uma forma rápida, simples e eficiente de diminuir a ansiedade.

Por fim, para não abusar de sua paciência ou de sua provável dificuldade de leitura e foco, deixo aqui uma dica final, a mais importante de todas, ao tratar a depressão, comece pelo mais importante: caminhar, dormir e meditar, a "Santíssima Trindade" da saúde física associada à saúde mental.

Qualquer medicamento já inventado pelo homem não passa de uma "gota no oceano", comparado ao poder de hábitos determinantes que favoreçam a nossa herança evolutiva. Afinal, como diz meu pai, Nuno Cobra, um grande mestre da consciência corporal: o organismo se chama organismo porque ele se organiza sozinho, basta não atrapalhar muito o processo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.