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Larissa Cassiano

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Plástica em condições inadequadas: o preço de um sonho x o valor da vida

Lorena Muniz, 25, morreu em uma clínica de estética que pegou fogo - Reprodução/Instagram
Lorena Muniz, 25, morreu em uma clínica de estética que pegou fogo Imagem: Reprodução/Instagram
Larissa Cassiano

Larissa Cassiano é médica ginecologista e obstetra, especializada em gestação de alto risco pela USP (Universidade de São Paulo). Fez residência médica na Maternidade de Vila Nova Cachoeirinha (SP), uma das maiores do Brasil, referência em parto humanizado no SUS e em gestação de alto risco.

Colunista do UOL

23/02/2021 04h00

Há alguns dias, mais uma pessoa foi vítima de uma cirurgia plástica feita em condições inadequadas, desta vez Lorena Muniz morreu após ser deixada inconsciente dentro de uma clínica de estética que pegou fogo.

Ela saiu do Recife e foi até a cidade de São Paulo para realizar seu sonho de colocar próteses mamárias. Infelizmente, essa pode não ser a última vez que veremos casos de complicações ocorridas por situações que poderiam ser contornadas, mas não podemos deixar essa situação passar despercebida e se transformar em estatística.

Os procedimentos de cirurgia plástica envolvem o sonho de muitas pessoas que se esforçam e abrem mão de outras coisas para que o procedimento seja feito. A cirurgia deixa de ter um preço e passa a ter um valor sentimental agregado. Mas o que podemos levar do caso de Lorena e como podemos ajudar a reduzir a repetição de situações como essa?

Profissionais de saúde não são isentos de erros e diferente de outras profissões, o erro pode custar uma vida, por esse motivo, buscar profissionais capacitados e locais com condições adequadas é extremamente relevante.

Em uma pesquisa rápida no Google é possível encontrar 9 processos ligados a clínica em que Lorena foi deixada, não tenho condições nem posso julgar o mérito destes processos, mas esse deve ser um sinal de alerta. Pesquisar informações sobre a clínica e buscar testemunhos de pessoas que tenham realizado o procedimento também são outras formas de aumentar a segurança.

Outro dado relevante é o valor pago, segundo informações divulgadas por seu marido nas redes sociais, o procedimento custou R$ 4.000. Em conversa com Abdulay Ezequiel, cirurgiã plástica, ela explicou um pouco sobre o tema.

"Procedimentos cirúrgicos como a mamoplastia de aumento devem ser realizados em ambiente adequado. Os hospitais são os locais mais adequados para a paciente durante esse tipo de procedimento, caso aconteça alguma complicação durante a cirurgia. O valor da cirurgia é de pelo menos o dobro do que foi citado nos canais de comunicação, visto que além do pagamento ao hospital ainda tem a equipe cirúrgica com cirurgiões plásticos habilitados, médico anestesiologista e instrumentador, além da própria prótese de silicone que gira em torno de R$ 2.000."

Segundo a médica anestesiologista Jamile Barbosa Pereira, "para que procedimentos cirúrgicos ambulatoriais sejam realizados a pessoa não deve possuir doenças crônicas e, caso possua, deve estar controlada, segundo a escala de ASA que avalia os riscos anestésicos. Segundo resolução do CRM, existem classificações para que o local possa realizar determinados procedimentos, locais capacitados podem realizar procedimentos com anestesia local, sedação, raquianestesia e até mesmo intubação, mas isso se ele for habilitado e possuir condições para isso: se possui sala de recuperação pós-anestésica, se existe um médico e enfermeiro responsáveis por esse setor, porque após a anestesia o paciente precisa estar bem para a alta, o que significa estar acordado, sem náusea ou vômito, conseguindo se alimentar, urinar, entre outros pontos importantes. Além disso, um detalhe muitas vezes desconhecido dos pacientes é que, ao fechar o procedimento, é importante que o paciente saiba se existe um hospital de referência caso ocorra algum incidente ou eventualidade."

Segundo resolução do Cremers (Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Sul) nº 10/2009, locais que realizam procedimentos de maior porte precisam de alguns itens básicos:

1. Em cada sala onde se administra anestesia: secção de fluxo contínuo de gases, sistema respiratório e ventilatório completo e sistema de aspiração.

2. Na unidade onde se administra anestesia: desfibrilador, marca-passo transcutâneo (incluindo gerador e cabo).

Com esses itens e uma equipe preparada para situações de crise muitos incidentes podem ser evitados.

Na hora de escolher um local para realizar procedimentos cirúrgicos, procure algumas informações como as citadas no texto, verifique se o médico está inscrito no CRM (Conselho Regional de Medicina) e se possui título de especialista reconhecido também pelo conselho.

Todos esses dados podem ser pesquisados no site apenas com o nome ou o número do CRM do médico. Pesquise se o procedimento possui um valor próximo ao que os demais profissionais cobram.

Sonhos não têm preço para quem sonha, mas infelizmente podem custar algo irreparável nas mãos erradas.

Deixo aqui meus sinceros sentimentos à família da Lorena, que eles encontrem forças para lutar e lidar com esse momento tão difícil.

Gostou deste texto? Dúvidas, comentários, críticas e sugestões podem ser enviadas para: dralarissacassiano@uol.com.br.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL