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Jairo Bouer

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Individualismo e risco à saúde: jovens 'comemoram' infecção pela ômicron

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Jairo Bouer

Jairo Bouer é médico psiquiatra formado pela Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) e pelo Instituto de Psiquiatria do HC-USP. Bacharel em biologia pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e mestre em evolução humana e comportamento pela University College London (UCL). Nos últimos 30 anos, trabalha com comunicação em saúde e sexualidade nos principais veículos de mídia do país.

Colunista do VivaBem

08/01/2022 04h00

Como já era esperado, a variante ômicron chegou com tudo no Brasil na virada do ano. Para se ter uma ideia da dimensão da nova onda, um meme que circulou nas redes sociais na última semana dizia o seguinte: "Se você não tem um amigo com covid, é porque você não tem amigos". O que não se podia imaginar é que jovens iriam celebrar o seu status de teste positivo nas redes sociais.

O comportamento é, no mínimo, insólito quando se considera que a situação atual da pandemia já é complexa e delicada em muitas cidades do Brasil. Apesar da variante, segundo uma série de pesquisas, ter um perfil menos agressivo que as anteriores, o volume avassalador de novos casos pode sobrecarregar os serviços de saúde e dificultar o acesso de quem pode necessitar de cuidados mais intensivos. Os testes já faltam nas farmácias e laboratórios, os hospitais enfrentam escassez de profissionais e, eventualmente, o sistema todo pode colapsar, como já aconteceu em ondas anteriores.

Nesta semana, o primeiro caso de morte pela ômicron foi confirmado em Goiás, acendendo um sinal de alerta importante. Além da covid, o novo surto de influenza e a ocorrência simultânea das duas infecções (fluorona) estão causando um aumento ainda maior nos casos de síndrome respiratória no país.

Comportamento das pessoas explica cenário atual

O que explica o cenário atual, além da alta transmissibilidade da variante, os encontros do final de ano e as festas de verão, é o padrão de comportamento de boa parte da população em relação à pandemia.

Como escrevi em dois textos em dezembro aqui no VivaBem, depois de sucessivas exposições a informações e imagens sobre covid, as pessoas estão com menos receio da infecção e, em paralelo, estão saturadas de ficar em casa depois de quase dois anos de restrição de contatos sociais.

Muita gente optou em não mudar nada nos seus planos de baladas e viagens. Mesmo com sintomas ou até mesmo com testes positivos, uma série de turistas decidiu seguir em frente, como mostrou, por exemplo, reportagem da Folha de S.Paulo. Sem novas restrições e controles em ônibus e aviões, o vírus está se espalhando com muita facilidade e, nesse ritmo, a situação pode ficar ainda mais dramática de hoje até depois do carnaval.

Glamorização do teste positivo

Como se não bastasse o menor medo e a fadiga em relação ao distanciamento social, parece haver, pelo menos entre os mais jovens, até uma certa glamorização dos diagnósticos positivos. Algo como: "Peguei ômicron, mas pelo menos me diverti muito nas férias ou no final de ano".

Na última semana, uma nova trend no TikTok trazia vídeos de pessoas revelando seu resultado positivo e, depois, comemorando o fato de terem se infectado em festas e baladas. Há vídeos com esse teor vindos de todas as partes do mundo, mostrando que o fenômeno não é exclusivo aqui do Brasil.

Por mais que as previsões apontem que a covid acabe com um padrão de transmissão e de risco similar à da gripe, com mutações ocorrendo ao longo do ano e com uma possível necessidade de vacinas periódicas, a ômicron parece ser ainda bastante preocupante. A própria OMS (Organização Mundial da Saúde) pediu para não menosprezarmos os riscos desse momento da pandemia, já que a variante tem se mostrado mais resistente às vacinas disponíveis e, inclusive, mortal em diversos países.

Individualismo e risco para a saúde pública

Não me parece inteligente na atual situação que as pessoas corram riscos voluntários de se infectar. Muito menos aceitável é a celebração dessa infecção, justificando que pelo menos ela teria ocorrido por um "motivo nobre" (a diversão). Não preciso nem dizer que, enquanto alguns comemoram, muitos profissionais de saúde sofrem para atender essa demanda crescente e até correm risco de se infectar por conta dessa avalanche de casos.

Esse comportamento de negação do risco e de minimização dos impactos da pandemia só dificulta a estruturação de uma resposta mais efetiva de combate ao coronavírus.

Parece lamentável também que as pessoas, mesmo sabendo dos seus resultados positivos, sejam egoístas a ponto de expor outros a risco porque não querem abrir mão das suas viagens e da sua diversão (e isso vale tanto para a covid como para a influenza).

Isso tudo revela o quanto ainda temos que evoluir muito para entender nossa responsabilidade individual quando se trata de um tema de saúde pública. Tomara que, de fato, a gente aprenda alguma coisa com essa pandemia. O que você acha?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL