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Jairo Bouer

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Seus planos neste final de ano vão mudar por causa da ômicron?

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Jairo Bouer

Jairo Bouer é médico psiquiatra formado pela Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) e pelo Instituto de Psiquiatria do HC-USP. Bacharel em biologia pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e mestre em evolução humana e comportamento pela University College London (UCL). Nos últimos 30 anos, trabalha com comunicação em saúde e sexualidade nos principais veículos de mídia do país.

Colunista do VivaBem

22/12/2021 04h00

Se a nova onda de covid-19 que está acontecendo nas Europa por causa da ômicron se reproduzir por aqui, o Brasil deve registrar nas próximas semanas um aumento importante de novos casos e de internações por conta da variante do coronavírus.

No Reino Unido, por exemplo, as admissões hospitalares aumentaram em 34% na última semana, e o número de diagnósticos está dobrando, em média, a cada dois dias. A variante já responde por três em cada quatro casos diagnosticados no país. Mais de 93 mil pessoas testaram positivo para a covid-19 só na última quinta-feira, um aumento de 60% em relação à semana anterior.

A Holanda também anunciou lockdown desde o último domingo até o dia 14 de janeiro. Outros países europeus têm discutido e implementado medidas mais restritivas nos últimos dias.

Planos não mudam para maioria dos americanos

Uma pesquisa recente feita nos EUA, entre os dias 03 e 06 de dezembro, mostra que, apesar da ômicron estar crescendo rapidamente no país, apenas 23% da população pensava em mudar suas viagens, e só 28% cogitavam desistir dos encontros de final de ano.

Na minha última coluna, comentei que a fadiga em relação às medidas de restrição, aliada ao fato que boa parte da população se sente protegida por estar vacinada, é uma das hipóteses que explica porque as pessoas estão mais dispostas a correr riscos do que se manter por mais tempo em casa.

Um novo artigo publicado na última semana no jornal The New York Times traz algumas camadas adicionais para essa discussão. Para o psicólogo Adam Grant, depois de quase dois anos encarando a pandemia, estamos atravessando uma espécie de "dessensibilização coletiva" em relação à covid-19, o que faz a gente sentir menos medo dela. É como se tivéssemos criado "anticorpos" contra os novos temores gerados pela pandemia, ômicron incluída.

Terapia coletiva

Essa dessensibilização, depois de sucessivas situações de "alerta" e de "alarme", pode fazer as pessoas baixarem a guarda, reduzirem a percepção de risco e adotarem comportamentos menos seguros, inclusive deixando de usar máscaras e se vacinar.

Grant sugere que, de alguma maneira, fomos expostos à melhor das "terapias" para extinguir medos extremos, como o que acontece quando buscamos tratamento para as fobias.

Quando uma pessoa tem uma fobia (ou medo desproporcional) a algum tipo de estímulo externo, como o temor de atravessar pontes, o terapeuta pode propor duas abordagens distintas. Na exposição em massa (ou "flood"), a pessoa é exposta de cara ao fator gerador de medo de forma mais aguda e intensa. Assim, por exemplo, ela pode ser colocada no alto de uma ponte e estimulada a atravessá-la. O terror deixa de ser paralisante à medida em que é colocado no seu devido lugar.

Já na dessensibilização sistemática ou progressiva, o terapeuta começa gradualmente a falar de pontes, mostrar imagens, trabalhar expectativas e ansiedade para, então, pensar em um eventual plano de travessia.

Exposição extinguiu medo

Nos dois casos, a ideia é deixar a pessoa tão acostumada com a fonte do medo, para que ele deixa de ser uma grande ameaça. No mundo todo, bilhões de pessoas foram submetidas nos últimos dois anos aos dois tipos de exposição. De início, vivenciaram de perto e sem rodeios a ameaça do inimigo invisível e mortal, o colapso dos hospitais e as imagens de gente agonizando. Depois, dia após dia, as notícias, os números, as crises e as sucessivas ondas foram operando de maneira sistemática para que nos adaptássemos a essa nova forma de viver.

O resultado foi que, depois de dois anos, temos menos receio e estamos menos dispostos a abrir mão de planos e projetos. Em um cenário em que as pessoas estão cansadas de ter medo e esgotadas de maneira geral, as novas variantes, mesmo as mais contagiosas, parecem menos problemáticas.

Do ponto de vista de saúde pública e das mudanças comportamentais necessárias para se conter uma pandemia, o medo, logo no inicio, pode ter sido a estratégia mais efetiva para convencer as pessoas a ficarem em casa, usarem máscara e se vacinarem. Mas, a partir do momento em que o temor passa a ser um estado, uma constante, fica mais difícil usá-lo como estratégia para implementar e manter as medidas desejadas de cuidado e segurança. Para piorar, mundo afora, houve a politização dos comportamentos, o que abalou crenças e comprometeu a adesão das pessoas à sua própria proteção.

Para um final de ano em que variantes, casos novos e internações parecem menos assustadoras, talvez a melhor estratégia seja trabalhar o gerenciamento individual de riscos, o comprometimento de cada um com sua própria saúde e a importância de pensar no coletivo para que a gente possa atravessar mais uma onda que deve chegar por aqui. Olhar para o lado, se inspirar no que está dando certo e confiar na ciência são boas apostas nesse momento. E você? Vai ou não mudar seus planos? Aproveito para desejar um feliz Natal para você e para sua família!