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Dante Senra

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A lógica perversa de Rocky Balboa e o enfrentamento da pandemia

Sylvester Stallone em cena de "Rocky Balboa" (2006) - Divulgação
Sylvester Stallone em cena de "Rocky Balboa" (2006) Imagem: Divulgação
Dante Senra

Doutor em Emergências Clinicas pela FMUSP (Faculdade de Medicina da USP) e médico especialista em cardiologia, clínica médica e terapia intensiva. Também é autor do livro Terapia Intensiva Fundamentos e Prática, ganhador do Prêmio Jabuti.

Colunista do UOL

04/04/2021 04h00

Todos sabem que o preço que se paga pela vida é o sofrimento e há quem defenda que essa dor é a responsável por nossa evolução e aprendizado.

O escritor português Eça de Queiroz dizia: "A todo viver corresponde um sofrer".

Assim, o desenvolvimento da resiliência é fundamental para a sobrevivência emocional que está sendo colocada em xeque nesta pandemia.

Muitos são os estressores que têm nos testado ao limite.

Medo de contaminarmos e também as pessoas que amamos. Se ocorrer, como será a evolução? Terá vaga em hospital? Serei intubado? Terá oxigênio? Quem vai cuidar de mim? Como ficará minha família? Novas variantes, falta de medicamentos e distanciamento social. E a economia? Perderei meu emprego? Faltam vacinas...

Parecem não ter fim as possibilidades de eu não sair bem disso. E para piorar, as táticas de compensação das nossas angústias no exercício do viver, como a socialização, ficaram proibidas nessa quarentena.

E, assim, surge um novo tempo que põe a prova nossa resiliência e resistência. Tempo de ameaça que testa nossos valores, esperanças e espiritualidade.

A saúde mental que é composta dentre outras coisas pela temperança e tolerância também é testada nesse novo momento da humanidade. Extrapolaram nossa capacidade de gerenciar as emoções.

Para colaborar com nossa insanidade temos sido bombardeados por uma lógica perversa por parte da imprensa brasileira, que tenho muita dificuldade de entender, que em manifestações de prazer mórbido agora conta as mortes por minuto (hoje em novo recorde tivemos "tantas" mortes, o que dá "tantas" a cada minuto).

Uma jornalista esta semana declarou que "jornalismo não é entretenimento. Não estamos aqui para agradar ninguém".

Desnecessário lembrar que ao ligarmos a televisão em um telejornal não estamos atrás do seu afago, senhora. Apenas da verdade sem o sensacionalismo mórbido que outrora já trouxe audiência.

Para não ficar atrás, a falta de empatia de alguns políticos deixa explicitado seu desrespeito com o sofrimento de quem os elegeu para tornar nosso país um local do qual possamos nos orgulhar.

Como enfrentamos tudo isso?

Lógico que a maneira mais eficiente seria a real perspectiva de um final feliz, em que toda a população já estivesse vacinada e imune. Esse tempo chegará, mas até lá precisamos resistir.

O que nos definirá até então não serão quantas vezes e nem a intensidade que seremos expostos às agressões do noticiário ou até a falta de tato ou solidariedade de alguns governantes, mas a forma do enfrentamento.

Como disse Rocky Balboa no filme da saga em um discurso para seu filho Robert: "O mundo não é feito apenas de sol e arco-íris. É um lugar mau e desagradável, e não importa o quão durão você seja, ele vai te bater até que esteja de joelhos e vai te manter assim se você permitir. Nem você, eu ou ninguém vai bater tão forte quanto a vida. Mas a questão não é o quão forte você bate, mas, sim, o quanto você aguenta apanhar e continuar seguindo em frente".

Tais palavras se tornaram um verdadeiro mantra de superação e motivação. A proposta deste texto é tentar fornecer suprimentos para nos fortalecer em momentos de angústia e nesses tempos em que a vida não nos tem sido minimamente gentil.

Precisamos aumentar nosso repertório para esse enfrentamento. Não há um roteiro pré-definido que ensina caminhos, até porque se existirem são individuais com os recursos que adquirimos durante a vida.

Em um livro recém-publicado, meu amigo Marcelo Ribeiro, como grande psiquiatra que é, afirma que é preciso cultivar a resiliência, exercitar o otimismo e fortalecer as conexões sociais, ainda que virtuais.

A resiliência que tem a ver com o que chama de "flexibilidade emocional", também guarda relação com a tolerância, mas tem que ser seguida por compreensão e aceitação para se sustentar. Vamos combinar que a vida exagerou um pouquinho nesta pandemia e está difícil a adaptação.

A ciência tende a acreditar que indivíduos que encaram a vida com bons olhos parecem ter melhores condições de saúde que os pessimistas. Estes por sua vez também tendem a ser mais improdutivos uma vez que nada adianta ser feito porque vai mesmo dar errado.

O otimismo proposto não é o da alegoria de Pollyanna, protagonista do livro de Eleanor H. Porter, publicado em 1913, clássico da literatura infanto-juvenil, em que a menina propõe a todos o que chamava de "jogo do contente", que consistia em procurar extrair algo de bom em tudo, mesmo nas coisas mais desagradáveis e assim, encara o mundo irrealisticamente.

A proposta aqui é de desenvolver o pensamento que tudo passa e que o melhor ainda está por vir.

Winston Churchill talvez seja o melhor exemplo que me ocorre com frases como: "Se estiver passando pelo inferno, continue caminhando" ou "Um pessimista vê uma dificuldade em cada oportunidade; um otimista vê uma oportunidade em cada dificuldade."

Por último, mas não menos importante, são as relações sociais que parecem ter sido alijadas de nossas vidas sem cerimônia.

Ficamos apenas com a possibilidade dos encontros virtuais na quarentena. Se Pollyanna fôssemos, diríamos que temos que nos alegrar, pois em outras pandemias isso não era possível.

Como não somos, qualifico este contato como o fomento de uma relação que é infinitamente afetivamente pobre e que não aquece nossos corações.

Como o texto aqui é para ajudar a sobreviver, digo que é "o que se tem para hoje", frase que utilizo como uma senha para seguir em frente e tentar fazer as pazes com a vida dando a ela meu voto de confiança.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL