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Dante Senra

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A importância das campanhas públicas de saúde

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Dante Senra

Doutor em Emergências Clinicas pela FMUSP (Faculdade de Medicina da USP) e médico especialista em cardiologia, clínica médica e terapia intensiva. Também é autor do livro Terapia Intensiva Fundamentos e Prática, ganhador do Prêmio Jabuti.

Colunista do UOL

03/10/2021 04h00

Esse texto tem a pretensão de ressaltar a importância de campanhas públicas de alerta ou prevenção de saúde, ou de lamentar a falta delas.

Por exemplo, o Brasil tem uma das campanhas mais exitosas do mundo no combate ao tabagismo. O objetivo não é falar sobre os malefícios do cigarro à saúde (embora seja inevitável), até porque cairemos na obviedade.

Há 30 anos quase 35% da nossa população era tabagista. Hoje, esse número reduziu para 9,5%, o que prova que políticas públicas de prevenção são bastante eficazes.

Mesmo sabendo que nos últimos 10 anos 100 milhões de pessoas morreram por causa do cigarro, segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde) ainda existem 1,3 bilhão de fumantes no planeta, ou seja, cerca de 20% da população mundial (o mesmo número de hipertensos).

Apesar da redução no Brasil, nosso cenário ainda é preocupante, já que a quantidade de pessoas que tentam parar de fumar também teve queda, de 51,1% para 46,6% dos entrevistados.

Todos sabemos que sentimentos negativos e níveis elevados de estresse são desencadeantes da vontade de fumar.

E aí, vem a pandemia.

Com ela vieram isolamento, angústia, depressão, ansiedade, medo, familiares e amigos contaminados. Um estudo da Fiocruz constatou que cerca de 33% dos fumantes brasileiros aumentaram o uso de cigarros durante a pandemia.

Estudos mostram que entre os pacientes contaminados com covid-19, a progressão para formas mais graves da doença e a morte foram 14 vezes maiores entre fumantes do que para não fumantes. Afrouxamos nas campanhas e pior, quando mais precisávamos delas, elas não vieram.

Nem as anti-tabagismo e nem para ressaltar a importância das vacinas.

Um estudo realizado pela pesquisadora da Fiocruz Márcia Pinto com base nos valores monetários de 2011, intitulado "Carga das Doenças Tabaco-relacionadas para o Brasil", foram atualizados e seus resultados apontaram que no ano de 2015, o tabagismo gerou custos para assistência médica associados ao tabagismo em quase R$ 40 bilhões, o que equivale a 8,04% de todo o gasto em saúde, e os custos indiretos atingiram mais de R$ 17 bilhões devido à produtividade perdida por morte prematura e incapacidade. Estima-se que na pandemia estes valores dobraram.

A Afubra (Associação dos Fumicultores do Brasil) calcula que os cigarros representam R$ 14,478 bilhões em tributos para o Brasil.

Novamente, campanhas públicas compensam e se não forem lamentavelmente por compaixão, sejam por economia.

Nova publicação do Instituto de Efetividade Clínica e Sanitária em 2020 estimou que no Brasil as doenças causadas pelo tabagismo custam R$ 125,148 bilhões ao ano, ou seja, o equivalente a 23% do que o país gastou em 2020 para enfrentar a pandemia da covid-19 (R$ 524 bilhões).

Não me ocorre outra situação em que acredito que aumento da carga tributária seria bem-vindo. E pensar que nosso ex-ministro da Justiça tentou baixar impostos do tabaco com o objetivo de diminuir, segundo ele, o contrabando.

Outro exemplo de igual importância é a campanha, provavelmente a melhor do mundo, de combate, prevenção, conscientização e tratamento de HIV/Aids no Brasil.

Segundo o Ministério da Saúde, em 2001, entre 18 mil e 27 mil pessoas morreram pela doença, contra um intervalo de 11 mil a 19 mil em 2012 —uma queda de 30% até 39%. Entre 2012 e 2019 houve um decréscimo de 18,7% na taxa de detecção de Aids. Já a taxa de mortalidade teve queda de 17,1% nos últimos cinco anos, entre 2015 e 2019.

Segundo o secretário de vigilância em saúde, Arnaldo Medeiros: "Hoje talvez tenhamos o menor índice de mortalidade por Aids no Brasil nos últimos 10 anos com 4,1 por 100 mil habitantes."

Atualmente, cerca de 920 mil pessoas vivem com HIV no Brasil, de acordo com o Ministério da Saúde. Dessas, 89% foram diagnosticadas e 77% fazem tratamento com medicamentos antirretrovirais, que são remédios para impedir a multiplicação do vírus no organismo, distribuídos gratuitamente pelo SUS (Sistema Único de Saúde). Números impensáveis há 20 anos. As campanhas de prevenção dessa doença também sumiram.

Esta semana celebramos o Dia Mundial do Coração. Estima-se 400 mil mortes este ano por doenças cardiovasculares. Uma pandemia por ano. Nada das campanhas de prevenção novamente.

Prevenir ou remediar não é mais uma questão. Prevenir economiza dinheiro e salva vidas. Deus nos proteja da ausência das campanhas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL