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Cristiane Segatto

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

O rastreamento por celular que o Brasil não fez pode evitar outra pandemia

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Cristiane Segatto

Cristiane Segatto é jornalista e mestre em gestão em saúde pela Fundação Getulio Vargas (FGV-SP). Durante as últimas duas décadas, cobriu saúde e ciência na Revista Época e nos jornais O Globo e Estadão. Foi colunista da Época online e comentarista da Rádio CBN. Suas reportagens especiais sobre o universo da saúde conquistaram mais de 15 prêmios nacionais e internacionais. Entre eles, dois prêmios Esso de Jornalismo na Categoria Informação Científica, Tecnológica ou Ambiental. Em 2012, com a reportagem ?O paciente de R$ 800 mil? e, em 2014, com o trabalho investigativo ?O lado oculto das contas de hospital?, ambos publicados na Revista Época. Em 2015, foi finalista do Prêmio Gabriel García Márquez. Participa de projetos liderados por organizações e pessoas que acreditam no valor da informação precisa e das histórias bem contadas.

Colunista do UOL

26/05/2021 04h00

"O maior erro é não se mexer". Com essa frase, dita em março de 2020, o epidemiologista Michael Ryan, diretor-executivo do Programa de Emergências em Saúde da Organização Mundial da Saúde (OMS), implorou aos países que agissem para conter a pandemia do novo coronavírus.

O Brasil se moveu. Com passos erráticos no início da crise e em direções deliberadamente descabidas nos meses seguintes. O resultado da aversão do governo federal à ciência e da negação dos critérios técnicos para a tomada de decisões sobre saúde está no show de horrores exibido diariamente pela CPI da Covid.

É longa a lista de providências que poderiam ter sido tomadas para evitar a morte de 450 mil pessoas e a crise social e econômica decorrente do descaso no enfrentamento da pandemia. Um exemplo: a falta de uma boa política de rastreamento de contatos dos infectados pelo Sars-CoV-2 contrariou princípios básicos da saúde pública.

Há séculos o rastreamento de contatos faz parte do bê-á-bá de quem pretende conter uma epidemia. Da peste bubônica à varíola foi assim. O mesmo deve ser feito em relação à tuberculose, à aids ou a qualquer outra doença infecciosa.

O princípio é claro: a cada novo caso identificado, tenta-se encontrar todas as pessoas com quem o doente teve contato. O objetivo é testá-las e, a cada infectado encontrado, a busca dos contatos, os testes e o registro dos casos recomeçam. Assim é possível traçar o caminho percorrido pelo agente infeccioso em uma determinada população.

Tecnologia a serviço da saúde

O destino da saúde pública depende da capacidade de um município, estado ou país de identificar pessoas que estiveram em contato com indivíduos infectados. Se os epidemiologistas do passado pudessem vislumbrar as ferramentas (testes genéticos, aplicativos de celular etc) disponíveis hoje para facilitar esse trabalho, provavelmente ficariam espantados. Ou maravilhados, dependendo da disposição individual para conhecer o novo.

Como sabemos, o Brasil testou pouco. Quanto ao aplicativo para identificação dos infectados e seus contactantes, até existe um (o Coronavírus -SUS), mas quem o conhece? Segundo o Ministério da Saúde informou a Tilt, do UOL, apenas 1% da população brasileira usava o aplicativo em fevereiro de 2021.

A vantagem dos apps

A experiência de outros países demonstra que a adoção de apps ajuda a enfrentar uma das dificuldades impostas pela covid-19. Como há transmissão assintomática, a identificação das pessoas que tiveram contato com infectados deve ser feita rapidamente e em larga escala.

"A incapacidade de identificar contatos desconhecidos da pessoa infectada e a falta de rastreadores de contato treinados foram desafios adicionais. Havia uma necessidade urgente de aumentar a escala e a rapidez do rastreamento para identificar todos os que foram expostos ao vírus", escrevem James O'Connell, pesquisador da Universidade Nacional da Irlanda, e colegas.

Em um artigo publicado na semana passada no The New England Journal of Medicine, eles apontam casos de sucesso no enfrentamento da pandemia e defendem a ideia de que o amplo rastreamento de contatos feito por meio de apps seria uma espécie de "vacina digital" contra as próximas pandemias.

Rastreamento rápido

A Coréia do Sul foi um dos países com melhor desempenho no controle da covid-19 durante a primeira onda. A experiência da Mers (Síndrome Respiratória do Oriente Médio), em 2015, fez com que os líderes políticos e a população entendessem a necessidade de uma ação rápida e robusta. O país criou um sistema de rastreamento de contatos e diagnóstico em larga escala e adotou isolamento e quarentena rígidos. Medidas eficazes que foram levadas a sério pela população.

O rastreamento digital feito por aplicativo de celular foi um dos principais ingredientes do sucesso. A legislação do país permite que as autoridades usem dados de geolocalização dos cidadãos para conter epidemias. Graças a esse recurso, os epidemiologistas conseguiram apontar onde o contato com os infectados ocorreu até 14 dias antes do início dos sintomas ou do diagnóstico.

Com essa base de dados, foi possível registrar em detalhes os movimentos das pessoas com covid-19. Informações preciosas e acessíveis online. O app alertava os usuários de celular quando eles se aproximavam de um local visitado por algum infectado.

E a privacidade?

Por mais útil que esse recurso possa ser, ele suscita importantes questionamentos sobre invasão da privacidade. É, no mínimo, desconfortável viver em uma sociedade que vigia passos e revela o status de saúde de seus cidadãos. Por outro lado, nos países que não adotaram essa medida ou qualquer outra capaz de evitar o alastramento do vírus (caso do Brasil) a alternativa ao excesso de vigilância foi a morte.

Nesse contexto, é interessante observar o movimento ocorrido na Europa. No início da pandemia, os aplicativos de rastreamento de contatos não foram adotados. A defesa do direito à privacidade prevaleceu, embora grande parte dos cidadãos permita a coleta de dados de geolocalização por apps que oferecem benefícios infinitamente inferiores à proteção da vida.

Ao final da primeira onda, em junho de 2020, as 180 mil mortes por covid registradas nos países europeus levaram a uma mudança de rota. "Muitos países reconheceram a necessidade de tecnologias digitais de rastreamento confiáveis, transparentes, que preservem a privacidade e sejam aceitáveis para as populações ocidentais", afirmam os autores.

Nações como a Alemanha, a Irlanda, o Reino Unido, entre outras, criaram seus próprios sistemas e aplicativos de celular para rastreamento. Em janeiro deste ano, o app do National Health Services (NHS), o sistema público de saúde britânico, era usado por 19 milhões de pessoas (28% da população). Em geral, os dados coletados na Europa permanecem no dispositivo do usuário, são criptografados e excluídos automaticamente após 14 dias.

Entre tantas lições, a covid-19 tem destacado a importância do equilíbrio entre a preservação da privacidade e a preservação da vida. O rastreamento por celular, aliado ao bom senso na adoção de outras medidas técnicas, pode ajudar a evitar a próxima pandemia. Um ano e dois meses depois do início da maior tragédia das nossas vidas, o Brasil não fez uma coisa nem outra.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL