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Cristiane Segatto

Home office na pandemia: pesquisa com brasileiras revela a vida como ela é

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Cristiane Segatto

Cristiane Segatto é jornalista e mestre em gestão em saúde pela Fundação Getulio Vargas (FGV-SP). Durante as últimas duas décadas, cobriu saúde e ciência na Revista Época e nos jornais O Globo e Estadão. Foi colunista da Época online e comentarista da Rádio CBN. Suas reportagens especiais sobre o universo da saúde conquistaram mais de 15 prêmios nacionais e internacionais. Entre eles, dois prêmios Esso de Jornalismo na Categoria Informação Científica, Tecnológica ou Ambiental. Em 2012, com a reportagem ?O paciente de R$ 800 mil? e, em 2014, com o trabalho investigativo ?O lado oculto das contas de hospital?, ambos publicados na Revista Época. Em 2015, foi finalista do Prêmio Gabriel García Márquez. Participa de projetos liderados por organizações e pessoas que acreditam no valor da informação precisa e das histórias bem contadas.

Colunista do UOL

20/01/2021 04h00

Os depoimentos a seguir são uma pequena amostra da vida real descrita por profissionais brasileiras que, nos últimos meses, precisaram se adaptar (sem direito a escolha) ao home office exigido pela pandemia de covid-19.

"Impossível, eles sabem que é impossível! O meu chefe, graças a Deus, é um cara legal. Não é que eu esteja de má vontade, que eu sou uma empregada encostada. Nunca fui, mas estou em uma situação que é impossível (...) participo de reunião assim como tô falando com você; o áudio só ligo quando vou falar e mesmo assim tem vezes que ela (filha de 1 ano) tá aqui gritando".

(Marcela, 42 anos, engenheira, divorciada, com filhos de 1 e 12 anos)

"Eu me sinto mal por isso, porque eu não tô participando de nada; ao mesmo tempo eu tenho a compreensão da equipe, mas não sei até quando. Eu não me sinto bem (...) quando chegou a ferramenta pra eu trabalhar eu não tive mais a ferramenta porque é disputada por três pessoas nessa casa, mas não consigo me concentrar; eles (os gêmeos) ficam aqui pendurados atrás de mim"

"Eu sempre gostei de beber aos finais de semana e na pandemia não tem dia; pra sair do estresse, ter um momento de relaxamento eu estava indo pra cerveja todos os dias, o consumo de álcool aumentou"

(Fernanda, 45 anos, matemática, solteira, com filhos de 3 anos (gêmeos), 11 e 18)

"Teve vezes de eu estar trabalhando e daqui a pouco falar: 'Meu Deus! Caramba! Ele tem que jantar.' Aí quando eu pego ele no berço, a criança está toda mijada porque fiquei tão focada no trabalho [...] e o tempo passou demais. Eu tenho vontade de chorar quando isso acontece"

"Tinha dia de fazer a faxina chorando, sozinha, e ele (o marido) deitado na cama vendo televisão [...] ele não me ajudava porque queria que eu fizesse com que a empregada viesse"

(Fátima, 42 anos, advogada, casada, mãe de um filho de 1 ano e outro de 10 anos)

"Eu tô ficando bem mais cansada; além dessas coisas (tarefas domésticas) tem que ficar o tempo todo de olho nos deveres do (filho)...eu só acompanhava, então era mais fácil; agora não, você tem que assistir o vídeo, tem um vai e volta, tem que fazer o trabalho, rever o vídeo"

(Larissa, 42 anos, pedagoga, casada, com filhos de 4 e 11 anos)

"Hoje eu atuo como coordenadora de uma equipe [...] eu tinha que dar diretrizes de algo que eu não fui preparada para e eu nem sabia como eu mesma ia lidar"

(Mariana, 33 anos, pedagoga, casada, sem filhos)

Trabalho e família

Esse retrato da vida como ela é em casas de classe média foi extraído de uma pesquisa da Escola de Negócios da PUC-RJ, publicada na última edição da RAE, a Revista de Administração de Empresas da FGV-SP.

A partir de entrevistas com 14 profissionais com carreiras consolidadas que trabalhavam de modo presencial e precisaram se adaptar ao home office, as pesquisadoras Ana Heloisa da Costa Lemos, Alane de Oliveira Barbosa e Priscila Pinheiro Monzato investigaram de que forma os conflitos entre trabalho e família foram exacerbados durante a pandemia.

Tripla jornada

Todas as entrevistadas (com diferentes arranjos familiares) relataram sobrecarga de trabalho devido à soma de exigências profissionais e demandas com os filhos e a casa. Várias relataram que não conseguem se dedicar ao trabalho como precisariam.

Elas contam com a boa vontade de chefias e de equipes. Algo que, provavelmente, se dá apenas pela excepcionalidade do contexto atual. Ainda assim, sentem frustração pelo baixo desempenho e por não conseguir dar atenção adequada aos filhos.

Com filhos pequenos exigindo ajuda constante para acompanhar aulas online, sem empregadas ou faxineiras para realizar tarefas domésticas e conflitos familiares provocados pelo confinamento, a transição abrupta e forçada para o home office tem sido traumática para muitas mulheres.

O corpo sofre

A exaustão física e mental e o sedentarismo podem levar ao adoecimento. Surgem problemas como estresse, depressão, hipertensão, ansiedade e transtornos de humor. Ou, ainda, abuso de substâncias como o álcool. Duas das entrevistadas relataram aumento do consumo de bebidas alcoólicas durante a pandemia.

Ainda que não surpreenda, a sobrecarga feminina não deve ser banalizada."As empresas precisam entender que os problemas de conciliação das realidades profissional e pessoal durante o home office não é uma questão apenas das mulheres. Esse é um problema de homens e mulheres", diz a pesquisadora Alane de Oliveira Barbosa.

E se o home office virar uma solução definitiva? "Cabe às empresas compreender a configuração familiar de cada funcionário, auxiliar na estruturação (internet, espaço físico e equipamentos) desse ambiente profissional, dar apoio psicológico e acompanhar a evolução profissional de cada um", afirma ela.

O lado bom

Para algumas pessoas, o trabalho remoto pode ser vantajoso. Quando o contexto familiar é favorável e o profissional tem autodisciplina e gosta de produzir dessa forma, o home office permite maior autonomia e concentração, bom uso do tempo e ganho de qualidade de vida.

Segundo a pesquisa, a sobrecarga de tarefas não intensificou o conflito entre trabalho e família para todas as entrevistadas. Apesar de estarem trabalhando mais, algumas preferem esse modelo porque ficaram mais próximas dos filhos e dos maridos e conseguiram encontrar tempo para a atividade física e o lazer.

"Não apenas o tempo, a pressão e o comportamento são fontes de conflito trabalho-família, mas também a distância física que as horas dedicadas ao trabalho fora de casa requerem", destacam as pesquisadoras.

A ausência de crianças pequenas em casa e a participação dos maridos nas atividades domésticas explicam, em grande medida, a experiência positiva relatada por algumas mulheres.

"Eu tenho um trabalho mais monitorado, com reuniões, acabo ficando mais ocupada durante o dia e meu marido tem o horário bem mais flexível porque trabalha junto com o sócio e por demanda. Então enquanto eu tô em reunião, ele prepara o café da manhã e se tem alguma coisa pra adiantar pro almoço ele já adianta"

(Renata, 34 anos, pedagoga, casada e sem filhos)

"Consigo dar mais resultado que antes, tiro minha pestana, assisto novela, faço minha esteira, faço Pilates com minha mãe e minha irmã por chamada de vídeo, [...] pra mim tá incrível isso"

(Carolina, 42 anos, executiva de contas, casada e sem filhos)

A maior surpresa do estudo, segundo as autoras: algumas mulheres com filhos, casadas ou não, relataram, simultaneamente, aumento da carga de trabalho e maior satisfação com o convívio familiar propiciado pelo home office.

"Apesar de estarem trabalhando mais, algumas mulheres sentem-se felizes por ter os filhos ao lado, almoçar em família ou trabalhar perto de seus parceiros. Para elas, essa combinação traz segurança e conforto", afirma Alane.

Isso não é pouco. Para quem pode e gosta, o home office é um presente.

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