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Cristiane Segatto

"Casa é lugar de cuidado; repensar a atenção ao idoso é o melhor presente"

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal
Cristiane Segatto

Cristiane Segatto é jornalista e mestre em gestão em saúde pela Fundação Getulio Vargas (FGV-SP). Durante as últimas duas décadas, cobriu saúde e ciência na Revista Época e nos jornais O Globo e Estadão. Foi colunista da Época online e comentarista da Rádio CBN. Suas reportagens especiais sobre o universo da saúde conquistaram mais de 15 prêmios nacionais e internacionais. Entre eles, dois prêmios Esso de Jornalismo na Categoria Informação Científica, Tecnológica ou Ambiental. Em 2012, com a reportagem ?O paciente de R$ 800 mil? e, em 2014, com o trabalho investigativo ?O lado oculto das contas de hospital?, ambos publicados na Revista Época. Em 2015, foi finalista do Prêmio Gabriel García Márquez. Participa de projetos liderados por organizações e pessoas que acreditam no valor da informação precisa e das histórias bem contadas.

Colunista do UOL

23/12/2020 04h00

No ano em que tudo precisou ser diferente e os idosos sofreram mais, repensar a atenção dada a eles durante e após a pandemia é o melhor presente de Natal. Esse é o ponto de vista da médica Martha Oliveira, especialista em envelhecimento e doutora em gestão de sistemas de saúde para idosos.

Nos últimos anos, Martha ocupou cargos de direção na ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar) e na Anahp (Associação Nacional dos Hospitais Privados). Recentemente, criou a empresa Laços Saúde, especializada em oferecer cuidados de atenção primária à saúde oferecidos na própria casa dos pacientes.

Como o objetivo de controlar doenças crônicas e melhorar a qualidade de vida, a independência e a interação social dos idosos com base no modelo holandês Buurtzorg (explicado a seguir), a empresa atende no Rio e, em janeiro, começa a atuar também em São Paulo.

Em entrevista à coluna, Martha falou sobre os danos sofridos pela população idosa durante o necessário isolamento social, a importância da reorganização familiar e o preconceito do mercado de trabalho em relação aos profissionais maduros.

Qual é a sua avaliação sobre a atenção dada aos idosos durante a pandemia?

Muitas famílias tentaram proteger os idosos do risco de infecção pelo coronavírus. Elas reduziram as visitas e tentaram estar presentes de forma virtual. Esse afastamento necessário não trouxe apenas mais depressão e outros prejuízos de saúde mental. Observamos que a perda da rotina e da rede de relacionamentos tem provocado prejuízos funcionais.

De que tipo?

Os idosos que andavam sozinhos e faziam atividade física perderam esse hábito e passaram a se alimentar mal. Os que caminhavam muito começaram a ter dificuldades para andar dentro da própria casa. Se não tomarmos atitudes agora, como estarão esses idosos daqui a seis meses?

O consumo de medicamentos para controle de doenças crônicas diminuiu na população idosa?

Fizemos um levantamento sobre isso em parceria com a ePharma, uma base que reúne dados sobre compra de medicamentos em farmácias. Em 2020, as vendas de anti-hipertensivos para idosos acima de 69 anos caíram 34% em relação ao ano anterior. No caso de remédios para controle de diabetes, a queda foi de 28% nessa faixa etária.

A pandemia trouxe à tona um problema que o Brasil tenta varrer para baixo do tapete há muito tempo...

O Brasil envelheceu mais rápido que países europeus e não se preparou para isso. Negamos o envelhecimento dizendo que somos um país de jovens. As cidades não têm estrutura adequada para a mobilidade do idoso. Falta tudo: esporte, previdência, possibilidades de retorno ao trabalho, instituições de longa permanência etc. O Brasil não se organizou.

O foco do sistema de saúde também é equivocado?

Continuamos com um sistema organizado para atender a doença aguda. Não há estrutura para fazer monitoramento e cuidar do paciente crônico. É preciso mudar essa lógica. Não há mais aquela história de bônus populacional. O Brasil já envelheceu.

A organização familiar precisa mudar?

A nossa organização familiar é muito diferente da que existe na Europa. Lá os idosos têm o hábito de morar sozinhos. No Brasil, muitos são independentes, mas há uma quantidade enorme de outros que são estruturais na família. Inúmeras famílias vivem com um único salário fixo - o do idoso. Nossa situação social é muito peculiar.

Outra coisa peculiar é a expulsão dos profissionais do mercado de trabalho aos 50 ou 60 anos. Dá para ser diferente?

Esse é um dos pontos mais importantes. O Centro de Longevidade de Stanford é uma inspiração para mim. Lá o cuidado do idoso é baseado em três eixos: saúde física, mental e financeira. Não é só ensinar a pessoa a poupar o dinheiro para o envelhecimento. É também oferecer uma reciclagem profissional para que ele possa continuar trabalhando. Por exemplo, ensinar um contador a usar as ferramentas tecnológicas exigidas pela profissão dele atualmente.

O mercado de trabalho precisa enxergar o idoso de outra forma?

Antes o idoso era visto como alguém que se aposentava aos 60 anos e morria uma década depois, com declínio da capacidade funcional. Hoje ele se aposenta aos 60 e morre aos 90 anos. São trinta anos de vida com uma funcionalidade cada vez maior. Nem todo idoso brasileiro é o Pedro Bial, mas muitos são. Um cara de 60 anos é jovem, se comparado ao que eram as pessoas da mesma idade há algumas décadas. O cara de 70 é superativo, física e mentalmente. Depois vêm os de 70 e 80 anos e os centenários. A lógica do mercado de trabalho precisa mudar porque as pessoas não vão conseguir viver 40 anos se não estiverem ativas economicamente.

Muitas empresas fazem o discurso da inclusão, mas só oferecem vagas de estagiário aos profissionais maduros. Estão erradas?

As empresas que fazem isso colocam os profissionais em programas de idoso. Não fazem um mix de verdade das diferentes faixas etárias, como existe na população. Acabam não aproveitando essa experiência. O Brasil tem um problema de capacitação em todas as faixas etárias (dos jovens aos idosos). É preciso reciclar esse profissional nas tecnologias atuais para ele não ficar defasado e sair do mercado de trabalho. As pessoas vão ter que aprender a se recapacitar sempre.

Qual é o preconceito do mercado de trabalho em relação ao idoso?

Muitas empresas acreditam que idoso não gosta e não sabe usar tecnologia. Não é verdade. É preciso perder esse preconceito. O idoso tem um certo atraso na iniciação à tecnologia. Depois que eles aprendem, eles gostam e usam tecnologia. A gente só precisa entender como chegar até o idoso e oferecer coisas que façam sentido para ele.

O que é a Laços Saúde?

Quando conheci o sistema de saúde holandês e a metodologia Buurtzorg, percebi que é disso que os nossos idosos precisam. Ao decidir empreender, entrei em contato com eles (já estavam em 24 países) e trouxemos esse serviço para o Brasil. O mais importante é a coordenação do cuidado. Hoje o idoso vai a 500 médicos, mas não tem um médico que seja o assistente de verdade. O idoso fica perdido com tantas prescrições e interações e efeitos colaterais.

Qual é o diferencial desse modelo holandês?

A coordenação do cuidado é feita na própria casa do idoso. A figura central é a da enfermeira altamente qualificada. Ela faz a conexão com o médico que assiste aquele idoso, com o fisioterapeuta e com o terapeuta ocupacional, caso seja necessário e assim por diante. A enfermeira é quem faz toda a coordenação do cuidado. O idoso quer autonomia, não quer um profissional o tempo todo com ele. O idoso precisa se manter independente, mas agora pode contar com ajuda para resolver questões de saúde que ele não consegue resolver sozinho.

Como funciona esse serviço?

A enfermeira vai à casa do idoso e traça a linha do que ele precisa. Há residências em que ela vai uma vez por semana, todos os dias ou até duas vezes ao dia, caso ele esteja recebendo uma medicação especial ou tenha dificuldade de mobilidade, precise de ajuda para tomar banho ou se alimentar, por exemplo. A profissional não fica na casa o dia inteiro, mas vamos fazer tudo o que ele precisa. Alguns pacientes estão em cuidado paliativo em casa. Em outros casos, ajudamos na reorganização do ambiente para evitar quedas, por exemplo. Fazemos toda a organização de medicação.

No Brasil, organizar a medicação é importante porque aqui os idosos costumam tomar múltiplos remédios...

Organizar essa parte é uma das coisas que mais estamos gostando de fazer. Na Europa, um idoso tomar cinco remédios já é motivo de espanto. Durante o meu doutorado, constatei que no Brasil os idosos tomam, em média, 11 medicamentos. Quando vamos à casa dos nossos pacientes e pedimos para ver os remédios, eles chegam com duas caixas de sapato cheias de medicação. Avaliamos a situação desse paciente e entramos em contato com o médico, caso a gente perceba que pode estar ocorrendo alguma interação indesejada. Se o idoso estiver fazendo confusão com tantas prescrições, organizamos tudo para ele. Mantemos os sinais vitais controlados, fazemos os procedimentos que podem ser feitos em casa e oferecemos um monitoramento à distância. Não é só a telemedicina. Há tecnologia para monitoramento de sintomas, de quedas etc.

A casa passa a ser o centro de tudo?

Sim, é importante resgatar a casa como lugar de cuidado. A pandemia trouxe isso e nos deu uma chacoalhada. Não é só hospital. Ele tem o seu lugar no tratamento, mas não é para as necessidades do dia a dia. No Brasil, precisamos resgatar essa organização do cuidado. E ele deve ser coordenado pela enfermagem.

Qual é o papel dos "conselheiros" aposentados que vocês contrataram?

Temos um olhar holístico para outras coisas que compõem a saúde. Desde o ambiente em que a pessoa mora, as pessoas com quem ela se relaciona. Contratamos também profissionais de saúde aposentados que querem voltar ao mercado de trabalho e que atuam como "conselheiros". Em geral, são assistentes sociais, psicólogos e outros que vão à casa dos idosos nos dias em que as enfermeiras não vão. Treinamos esses profissionais para que eles trabalhem aspectos como solidão, memória, cognição etc. E também fazem alguns exercícios com os idosos. Durante a pandemia, o trabalho deles foi essencial. Algo emocionante. Olham para a pessoa e para a vida dela em primeiro lugar. Em casa, a pessoa se mostra inteiramente como é. Para ir ao médico, ela se arruma. É diferente. O médico sabe apenas o que o doente diz. Temos descoberto coisas muito interessantes nessas visitas. A ideia é primeiro gerar vínculo e, depois, cuidar.

Quais consequências a pandemia pode trazer aos idosos?

Os danos não são provocados apenas pelo coronavírus. Quem está pensando na continuidade do cuidado dos idosos, mesmo depois que a vacina estiver disponível? Quando falo em consequências, não estou pensando apenas na fibrose pulmonar sofrida pelo paciente que teve covid-19. Penso nos idosos que não tiveram contato com o vírus, mas que sofreram perdas evidentes de qualidade de vida e saúde. Uma amiga está preocupada com a tia. Antes da pandemia, ela era muito ativa, fazia compras, andava na praia etc. Depois do isolamento, não está mais conseguindo responder o próprio nome.

O que mais vocês observam nos idosos acompanhados pela sua empresa?

Segundo uma pesquisa respondida por 20 de nossos clientes, metade engordou durante a pandemia; 25% relataram piora no estado de saúde. A diminuição da atividade física afetou 87% dos idosos entrevistados, enquanto 62% passaram mais tempo em frente à TV. Fico angustiada. O que vai acontecer com a saúde dessa população depois da pandemia? O que vamos fazer para desenvolver fisicamente os idosos que estão sedentários e obesos? O que vamos fazer para reconstruir a rede de relacionamentos deles? Eles estão mais abalados e mais frágeis. Quem está pensando nisso?

Qual é o melhor presente que as famílias podem dar aos idosos neste Natal?

Casa é lugar de cuidado. Repensar a atenção ao idoso é o melhor presente. As famílias estão sofrendo com o distanciamento. Os parentes gostariam de estar perto do idoso. É por amor que muitos se mantêm longe. O importante é tentar estar próximo, nem que seja de forma virtual, e observar os sinais. Quando começar a perceber que a pessoa está perdendo cognição e mobilidade, é momento de procurar ajuda capacitada.

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