PUBLICIDADE

Topo

Alexandre da Silva

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Pessoas que envelhecem e a experiência da discriminação

iStock
Imagem: iStock
só para assinantes
Alexandre da Silva

Alexandre é fisioterapeuta, especialista em gerontologia e mestre em reabilitação pela Unifesp, doutor em saúde pública pela USP e professor da Faculdade de Medicina de Jundiaí. É também membro do Centro Internacional de Longevidade e dos grupos de trabalho Racismo e Saúde e Envelhecimento e Saúde Coletiva, ambos da Abrasco.

Colunista do UOL

04/07/2022 04h00

A experiência em sentir a discriminação é algo horrível, indescritível. Traz o choro, o tremor e suor e até a raiva. Causa o medo e, a longo prazo, a destruição da autoestima, do amor próprio e alimenta a descrença com a humanidade.

Quem já passou por isso procura mostrar a outras pessoas, semelhantes a ela, sobre como é essa discriminação percebida e tatuada na alma e sempre acessada pelas mais avançadas funções cognitivas.

Dessa forma, grupos específicos de pessoas transmitem os sofrimentos já sofridos por essa discriminação para outras gerações. A intenção é que essas gerações mais novas criem novos mecanismos para mitigar todo esse sofrimento.

Mas nem sempre dá certo.

Na sociedade na qual vivemos e nos espaços que frequentamos nem sempre se percebem os malefícios gerados pelas constantes práticas discriminatórias que podem destruir um grupo social, seja pela morte social, ao excluir o direito de desfrutar a vida, ou a morte física, por meio das doenças, dos maus tratamentos, da falta de pactos sociais para a eliminação dessa discriminação e, infelizmente, pelas tentativas de suicídio que, nessa situação, são gritos silenciosos de quem quer ajuda.

É desta forma que se opera o racismo que aniquila as perspectivas e sonhos desde a infância. É o machismo que coloca pessoas do gênero feminino em um lugar de eterno julgamento e de inferioridade baseados em falácias que ainda são traduzidas como verdades absolutas.

Em comum, as agressões verbais, que são considerados "descuidos" de quem discrimina, ou as físicas que também se justificam como "corretivos" necessários para enquadrar ou educar. E é por isso que é tão difícil eliminar a discriminação.

Mas quando afeta o outro, ou seja, a pessoa negra, parda ou a mulher, o problema parece ser apenas com quem se identifica nesse lugar. Mas, com o passar dos anos, se nada de errado ou muito injusto acontecer, todas as pessoas envelhecerão e poderão, talvez pela primeira vez, ou de forma mais dura e ofensiva, experimentar a discriminação por ser uma pessoa velha, "gagá", "o tiozinho" "a velhinha" ou tantas palavras que, por si só, despersonificam e padronizam todas as pessoas que alcançam as idades superiores aos 50 anos, veja só.

Sentir os olhares que querem expulsar essa pessoa do lugar que queria estar, seja do vagão de um metrô, de um aparelho da academia, da fila do emprego ou do banco daquele barzinho serão situações novas para quem envelheceu.

A partir desse instante, muitas pessoas começam a estranhar o olhar que nunca tinham recebido e que faz mal porque expressa uma intenção de maltratar, de expulsar, de não querer que esteja ali, junto a pessoas mais jovens que ela.

Agora, essa pessoa grisalha estranha como um olhar é capaz de alterar os seus batimentos cardíacos e, de forma precipitada e errada, atribui a si mesma que está envelhecendo e que a causa dessa taquicardia deva ser uma possível hipertensão arterial que desenvolveu nesses últimos anos.

Nas lojas, sua autonomia diminui a cada ano. Percebe que para ela só são oferecidas roupas em tons pastéis, vários tons de bege ou de cores destoantes da moda vigente. E, mais uma vez, sente que ficou inferiorizada, colocada em uma estatura menor que a do seu neto de três anos.

Sente-se sendo apagada. E credita esse tratamento, outra vez injusto, a uma boa iniciativa de vendedores e vendedoras em mostrar qual vestuário é o mais indicado para ela que chega nessa idade sem ter internalizado os preconceitos que fazem dela. Dos olhos, agora marejados, uma lágrima ensaiada se desfilará por aquele rosto ou se fará a estreia na próxima loja que promoverá mais um episódio de desrespeito.

E essas cenas se repetirão nos serviços de saúde, nas tentativas de arrumar ou garantir um emprego e para a continuidade do aprendizado. Etarismo ou idadismo são termos atribuídos a discriminação de quem é velho, velha, idosa ou idosa.

Se essas cenas já causam estranhamento e revolta, considere que aquelas pessoas citadas no começo deste texto, sim, as pessoas negras, pardas e aquelas do gênero feminino também envelheceram e agora, não apenas pela cor da pele ou gênero, elas sofrem esse acúmulo de discriminações, de tentativas de apagamento (como essa que Nelson Piquet tentou fazer com o heptacampeão Lewis Hamilton).

Essas pessoas agora também sofrem pelo idadismo, e passam a ter uma forma de acúmulo que não garante um bom envelhecimento.

Se já não fossem suficientes todos os anos nos quais a maioria da sociedade definiu que seu lugar deveria ser o pior, o que sobrasse, que suas demandas nunca fossem atendidas plenamente, que sua meia cidadania fosse transmitida para suas futuras gerações, como agora essa Preta Velha, esse Preto Velho, esse "Nego Véio" não querem morrer!

E, como se não fosse suficiente essa transgressão, esse não cumprimento de um pacto biopolítico, que não inclui ver tantas pessoas envelhecendo, agora ousam viver e pleitear direitos iguais a todas as outras pessoas!

Quanto a redução ou eliminação de diversas formas de discriminação presentes no Brasil, ainda desanima a pouca iniciativa de muitas instituições, a falta de construção das políticas públicas específicas, o desinteresse de muitas empresas privadas, a história mal contada que reduz ou apaga os grandes feitos dos nossos Pretos, Pardas, Pretas e Pardos mais velhos.

Medimos muito um ser humano pelo seu potencial de gerar dinheiro. Sim, no fundo ainda é o que impera (olha um resquício do período colonial aqui!). Não se valoriza, por meio de políticas assistenciais, previdenciárias, de saúde e de educação de quem muito fez e ainda faz para que essa geração mais jovem mantenha o céu como o limite para seus grandes feitos.

Ainda espero que possamos criar uma métrica que considere noites mal dormidas, pratos feitos para quem iria chegar mais à noite do trabalho ou da escola, as horas/cadeira que muitos avós fazem ao levar e buscar seus netos ou bisnetas na escola, ou na aula disso ou daquilo. Seria amor? Bem provável que sim, mas também é economia, pois é um dinheiro que seria investido para que duas ou três pessoas fizessem o que eles, nossos mais velhos, fazem bem e com comprometimento.

A sobreposição, o cruzamento dessas discriminações limitam quem será velho ou velha longeva no país.

Então, se você deseja viver até envelhecer e aproveitar a sua velhice, há duas alternativas: ou você se prepara para sofrer as discriminações contra você, e mesmo assim correndo um risco desse plano não dar certo, ou já começa ou continua nessa desconstrução de preconceitos contra as pessoas mais velhas.

Enquanto isso, a discriminação etária ainda será uma fonte geradora de muito sofrimento para milhares de pessoas idosas no Brasil.