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Alexandre da Silva

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Mudar a narrativa da vida para envelhecer bem

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Alexandre da Silva

Alexandre é fisioterapeuta, especialista em gerontologia e mestre em reabilitação pela Unifesp, doutor em saúde pública pela USP e professor da Faculdade de Medicina de Jundiaí. É também membro do Centro Internacional de Longevidade e dos grupos de trabalho Racismo e Saúde e Envelhecimento e Saúde Coletiva, ambos da Abrasco.

Colunista do UOL

20/06/2022 04h00

Sim, há pessoas idosas chatas.

Essas reclamam de tudo, querem tudo como foi no passado. Nada do presente é bom, funciona bem ou contribui para o bom crescimento pessoal. Pessoas jovens são chamadas de "velhas" quando também demonstram um pouco dessa "chatice" nas relações do seu cotidiano ou quando se recusam a fazer algo já aceito pela maioria do seu grupo. No dicionário, esse termo está associado a alguém que importuna, que aborrece ou irrita. Também diz respeito a algo ou alguém sem atrativos, desinteressante ou monótono.

Mas há aquelas pessoas idosas que não são.

Sim, há muitas pessoas idosas conservadoras.

São aquelas que valorizam a "boa" moral aprendida nos anos 1920 ou 1930, quando a divisão das classes sociais se consolidou e, até os dias atuais, mantém os abismos nas desigualdades entre ricos e pobres, homens e mulheres, negros e brancos, empregados e empregadores, velhos e jovens, por exemplo. O termo conservador se refere a quem é contrário a inovações radicais ou mudanças abruptas.

Mas há aquelas pessoas idosas que não são.

Sim, há pessoas idosas que discriminam todas as outras pessoas que não são iguais a elas.

Essas sempre frequentam, desde muito cedo, os mesmos espaços sociais com o receio de encontrar pessoas por elas indesejadas. É comum que essas pessoas envelheçam sentindo cada vez mais a tristeza, pois à medida que amigos e familiares vão morrendo —e eram as únicas capazes de "aturá-las" e que procuravam olhar para um "lado bom" que pudesse existir nessas pessoas cheia de preconceitos—, essas pessoas idosas vão ficando sozinhas no mundo. Muitas dessas pessoas amigas ou da família ainda lamentam os episódios de fúria dessa pessoa idosa quando soube que um dos netos era gay e uma das filhas era lésbica. Justo as duas pessoas que mais o amavam...

Mas há aquelas pessoas idosas que não são.

E poderia continuar a lista de características ou atributos negativos que são comumente associados a quem envelhece ou já está na velhice. Tudo isso para mostrar que podemos ser autores e protagonistas da nossa própria história, seja criando um cenário de aventuras, de terror, de suspense ou de drama.

E tudo que escrevi sobre pessoas idosas que podem ser chatas, conservadoras ou preconceituosas, vale também para pessoas jovens e adultas que estão envelhecendo dia após dia.

Acrescentemos outros elementos para uma boa trama, como casos de amor, de desilusão, de culpa, de arrependimento e essa mistura prenderá a atenção de muita gente que, assim como você, envelhece a cada parágrafo concluído da própria história de vida, a cada página lida sobre a própria biografia. A vida de quem está envelhecendo também é registrada pelos olhares e abraços dados e outros não recebidos de pessoas que passaram pela mesma trilha que você escolheu para viver.

Sua história pode ser contada no passado, no presente ou no futuro. Narrar sua vida no passado será sempre mais seguro, pois sempre haverá a certeza do que aconteceu e das lições aprendidas que fizeram de você a pessoa vencedora, aquela que envelheceu e, por isso, é sábia na arte de envelhecer.

Se contar a sua história de vida no futuro parecerá um eterno sonhador ou sonhadora e dará a impressão de que o melhor sempre estará por vir e de que tudo que é, ou está, ou foi, nunca teve importância. Muitos acharão que nunca teve um dos pés no tempo presente e de que morrerá sem nunca ter vivido plenamente o tempo atual.

Agora narrar a vida no presente, isso é para poucas pessoas! E escrevo com a certeza de que ainda não faço parte desse grupo seleto. Ainda tenho medo, ainda vejo muito medo em pessoas que envelheceram ao meu redor e vejo muito pavor em quem está envelhecendo comigo, na mesma geração.

Mas quando se consegue narrar a vida no tempo presente é a oportunidade de experimentar alguma alegria, de perceber uma respiração mais completa e revigorante, de um sorriso mais espontâneo que "escapa" naquela situação menos esperada e de um encontro nunca pensado com alguém que gera uma afinidade de pensamentos e desejos para o bem viver.

Mudar a narrativa da nossa vida é necessária para ressignificar ensinamentos que tivemos sobre ela e de que essa vida não precisa ser tão marcada de sofrimento e de desilusões! Precisamos não apenas repensar comportamentos, valores, crenças, mas também mudar a narrativa que nos ensinaram para viver e alcançar a felicidade que nunca pareceu estar próxima ou nesse mundo.

E de qual felicidade estamos falando? Aquela que foi ou aquela que virá?

Bem, é assim que termino esse texto. Segue aí você, a melhor pessoa para escrever e protagonizar a sua vida e o seu envelhecimento! Tente ser uma pessoa criativa ou até muito realista, descreva e, mais importante, sinta o significado de felicidade na sua vida!