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Alexandre da Silva

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A importância da palavra para as pessoas mais velhas

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Alexandre da Silva

Alexandre é fisioterapeuta, especialista em gerontologia e mestre em reabilitação pela Unifesp, doutor em saúde pública pela USP e professor da Faculdade de Medicina de Jundiaí. É também membro do Centro Internacional de Longevidade e dos grupos de trabalho Racismo e Saúde e Envelhecimento e Saúde Coletiva, ambos da Abrasco.

Colunista do UOL

21/03/2022 04h00

Não é de hoje que recordo de diversas situações nas quais a palavra é mais importante que qualquer outro documento ou forma de se estabelecer um contrato entre duas pessoas.

Recordo de cenas vividas ou contadas por outras pessoas sobre a importância de pessoas idosas "apalavrarem" algo. Pode ser a venda de um automóvel sem a realização das transferências documentais burocráticas e obrigatórias.

Outra vez é venda de um terreno que, no máximo, tem um recibo simples, mais para os mais jovens terem a certeza de que a "palavra" foi dada lá no passado, mas que foi firmado em palavras entre duas pessoas hoje idosas.

Outras situações envolvem a não cobrança de aluguel para aquele amigo que, na época em que apalavraram a locação, não tinha qualquer condição financeira para arcar com essa conta e, se não fosse essa gentileza, toda a sua família estaria morando na rua e, hoje, não usufruiriam do conforto que a casa ainda promove.

Muitas pessoas que hoje envelheceram apalavram de que cuidariam de alguém por toda a sua vida. E assim o fizeram e, para que isso acontecesse, precisaram declinar de muitas oportunidades de trabalho, de conjugalidade, de lazer e de autocuidado que a vida proporcionou.

Quando a pessoa a ser cuidada sempre esteve doente, essa que apalavrou cuidar, poderia até morrer antes e, infelizmente, nesse momento, deixava de cumprir sua palavra. E não era incomum que, filhas e filhos ao saberem dessa "palavra dada", continuassem a cumprir esse legado.

A palavra passava a ser um patrimônio ou herança transmitida para as futuras gerações.

Pessoas hoje mais velhas pediram a mão da pessoa amada e apalavraram de que nunca a deixaria passar qualquer necessidade. E assim foi feito, por décadas, por toda uma vida. Ainda que a vida oferecesse outros caminhos, tudo só seria possível se a possibilidade de cumprir a palavra dada pudesse ser mantida.

O termo apalavrar no dicionário significa "combinar de viva voz, mediante a palavra dada; ajustar; prometer; contratar alguém mediante a palavra dada; comprometer-se, empenhar-se mediante a palavra dada". Dessa forma, é possível entender a seriedade, o grau de comprometimento e responsabilidade quando, desde de muito antes da internet e da assinatura digital, a palavra era o que existia de mais fiel e pessoal que uma pessoa pudesse oferecer a outra.

Apalavrar então é um verbo e, por isso, é ação que tem um sujeito que age para a concretização de um fato. No contexto das marcas e dos registros corporais em que estamos, apalavrar seria como fazer uma tatuagem na alma que jamais deixará de existir, de lembrar o que estava ali, ainda que se tente apagar ou modificar o seu significado.

Mas apalavrar pode também significar sofrimento. Pode ser no cuidar de alguém que nunca manifestou qualquer empatia ou carinho desde que o contrato apalavrado foi firmado, que morou por décadas na casa cedida e, ao devolvê-la, não houve a mínima reforma da mesma e agora tem goteira no teto, vento e animais peçonhentos entrando pela porta frente ou pelas janelas quebradas há muito tempo.

É da pessoa amada no passado que hoje parece ter se esquecido da doação feita lá atrás, de tempo e da vida da pessoa que apalavrou e jurou que iria amá-la para sempre. Ela pode até não ter pedido, mas enquanto foi dado cuidado e carinho não se queixou que tudo aquilo era exagero.

Desaprender a doar e a ceder é algo ainda muito difícil, principalmente para quem teve essa postura modulada pelo que apalavrou desde a sua adolescência e que ainda se vê envolvida até a fase da sua velhice.

O estar apalavrado é um ato político e pouco valorizado nos dias de hoje. Há advogadas e advogados que dizem que a criação dos contratos só existe para serem quebrados e que no tempo em que se usava as palavras para finalização de transações, os fatos e gestos eram mais reais, duradouros e de maior credibilidade.

Não saberia dizer aqui o quanto muitos propósitos de vida deixaram de ser alcançados pela barreira imposta pelo que foi apalavrado no passado. Por outro lado, fico desejando saber quantos sonhos também foram realizados a partir das palavras combinadas entre as pessoas!

A palavra tem um poder enorme e imensurável que muitos de nós não entendemos e dificilmente outra parte viverá para entender. Dizer que as palavras têm o poder de curar ou de matar não é um exagero. A morte social, a vida com significado, a morte anunciada, a vida prometida, tudo isso pode ser definido com palavras que geram movimentos e ações das pessoas, velhas ou não.

As pessoas mais velhas operam muito bem pela força das palavras. Daí que lembrar de "combinados", como aquele da adoção de uma criança, filha de uma sobrinha ou vizinha, é sagrado e não será jamais revelado, pois o apalavrado foi de que ela seria cuidada "como se fosse sua filha, gerada dentro do seu ventre".

Há governantes idosos que usam, de forma não compromissada e até irresponsável, o verbo apalavrar, porque o que sai pela sua boca não combina com os atos realizados desde o começo do seu mandato, nos votos que defendeu e da repercussão na vida dos seus eleitores e eleitoras. Nos prometeram, por meio das palavras, de que os preços dos combustíveis seriam os mais baixos já praticados na história da nossa democracia e, ao ver que não seria possível, jogou a responsabilidade no "colo" de outras pessoas que jamais apalavram algo sobre esse assunto conosco.

Presente e passado se encontram e se afastam quando damos nossa palavra para alguém. Hoje, perguntar se alguém lembra o que escreveu em um determinado aplicativo e, o seu resgate ocorrer na tela diminuta de um celular, pode ser o combinado mais íntimo e sincero que se faz entre duas pessoas.

Mostrar a conversa em um celular seja talvez a versão atualizada do apalavrar dos nossos e nossas mais velhas, tão válido quanto o reconhecimento de firma feito nos cartórios.

Dá um pouco de medo essa modernidade toda e a dinâmica das nossas vidas e laços de amizade existentes nas pessoas de hoje. Mas não há outro jeito. Sigamos acreditando na evolução da nossa espécie e de que o mundo há de ser melhor que o passado.

Evoluímos, né?