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Alexandre da Silva

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Da consciência para a inconsciência negra: pessoas idosas esquecidas

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Alexandre da Silva

Alexandre é fisioterapeuta, especialista em gerontologia e mestre em reabilitação pela Unifesp, doutor em saúde pública pela USP e professor da Faculdade de Medicina de Jundiaí. É também membro do Centro Internacional de Longevidade e dos grupos de trabalho Racismo e Saúde e Envelhecimento e Saúde Coletiva, ambos da Abrasco.

Colunista do UOL

29/11/2021 04h00

Estamos prestes a terminar outro mês de novembro que, no Brasil, ainda que muitos ainda acreditem que não faça sentido, continua a ser o mês da consciência negra. E, assim como em anos anteriores, ainda temos muitas reivindicações e lamentações. As comemorações, talvez, ficarão como promessas para o ano que vem.

E que comece a partir de um feriado respeitado por toda a sociedade. Sem essa de que é um feriado próximo do natal ou logo após um outro de novembro que atrapalhará o comércio, ou porque já tem outro em fevereiro e aí são sempre novas desculpas para tentar tirar a legitimidade de um feriado que se refere a, no mínimo, mais da metade da população brasileira.

Sim, o Brasil é cada vem mais um território ocupado por pessoas negras, já que cada vez mais há uma percepção de uma identidade negra presente em todos nós! É uma análise que podemos fazer a partir do aumento da autodeclaração das pessoas como pretas ou pardas, fato observado no Censo ou por outras formas de análises realizadas pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

E vejam o quanto essa consequência incomoda algumas pessoas. Recentemente, Regina Duarte, de 74 anos, atriz e ex-secretária da Cultura do atual governo, fez um depoimento no qual requeria um dia nacional para a consciência branca, oriental e parda (aqui já mostrando um desconhecimento de que pessoas pardas são consideradas negras).

Sim, um feriado que, na percepção dela e de outras milhares, talvez milhões de pessoas, refere-se àquelas pessoas de pele mais clara. Será que é isso mesmo, resumir a necessidade de (re)construção de uma identidade negra, à presença de mais melanina nas células dérmicas de um grupo de pessoas?

Ao mesmo tempo, o jornalista e ex-ministro Aldo Rebelo, de 65 anos, criticou duramente a pauta identitária, que ele nomeou de "agenda identitária", que vem sendo construída há muitos anos, a partir de muita discussão e aprendizagem sobre identidades presentes nesse Brasil tão plural (deixarei para falar que é desigual mais abaixo). Alegou que é necessária a valorização dos bons costumes, da cultura "tradicional" e evitar a desintegração da identidade brasileira (?).

Talvez o que eu vou escrever agora, ainda que simples, possa fazer muito sentido para algumas pessoas e não para outras (e vou tentar, se essa pessoa estiver disposta, a mostrar o contrário até o final desse texto):

  • Pessoas do gênero masculino e do gênero feminino não são iguais;
  • Pessoas negras e brancas não são iguais;
  • Pessoas pobres e ricas não são iguais;
  • Pessoas adultas e velhas não são iguais.

E quando escrevo isso, não estou me restringindo nem pensando nas características físicas ou genéticas. Levar a conversa para esse sentido é defender uma teoria de "racializar" a raça humana, e isso seria um erro enorme.

Isso, porém, já foi muito bem defendido pelo antropólogo e médico Nina Rodrigues e muitas pessoas da sua geração que procuravam alegar determinados comportamentos sociais a aspectos anatômicos ou fisiológicos de uma pessoa. Diziam que muitos crimes poderiam ser desvendados a partir das características físicas de quem os praticasse, por exemplo.

Eu disse que foi defendido lá atrás, certo? Errado. Quando se fala que pessoas negras não são iguais às brancas, considere a abordagem que alguns policiais, seguranças ou vendedores possuem com pessoas de pele mais escura. Sentir-se observada, porque seria "esperado" que pessoas com mais melanina cometessem atos como roubo não está muito longe do que se escrevia lá pelos anos de 1890, no campo das ciências.

Dizer que pessoas velhas não são iguais às adultas ficou também evidente nessas últimas décadas quando, mesmo com o aumento da expectativa de vida de população brasileira, ainda se observam receios, bloqueios e barreiras em fazer uma inclusão real de pessoas com cabelos grisalhos e de pele com mais flacidez.

A discriminação contra as pessoas idosas aumentou, assim como a violência física. Houve ministro e deputada que disseram ser menos importante a vida de pessoas velhas. E há riscos da sociedade mundial validar a velhice como doença. E como ainda queremos dizer que pessoas adultas são iguais às velhas? As pessoas adultas sofrem as mesmas discriminações?

As minhas explicações poderiam ocupar diversos parágrafos, mas o que quero evidenciar é que na construção social que temos, atualmente, pessoas do gênero masculino, feminino, adultas, velhas, negras, brancas, orientais, indígenas são diferentes em todos os aspectos não biológicos.

Cada um constrói suas subjetividades a partir da cultura que valorizam, mas também pelas experiências dos convívios sociais que possuem. E as diferenças que definem cada um desses grupos sociais, nos ajuda a definir a diversidade riquíssima presente no nosso país. Se fosse só para falar disso, seria lindo, concorda?

No entanto, vivemos em um país marcado por muitas desigualdades que afetam com maior ou menor intensidade determinados grupos sociais e, com muita repetição, que não é por acaso, outros. Aí podemos saber o que são os "-ismos": racismo, idadismo, classicismo, capacitismo e sexismo.

Nessas condições não justas de vida para pessoas pertencentes aos mais diversos grupos sociais, é dever do Estado garantir as mesmas condições de vida, direitos, deveres e de oportunidades para todos, não importando o gênero, cor da pele, idade, classe social, local onde reside, trabalho que realiza ou família descendente.

E o que pensar de pessoas idosas negras e pobres? Ou mulher idosa preta? Ou homem idoso preto desempregado? Ou mulher idosa parda solteira e sem filhos? Ou de mulher idosa parda viúva, sem filhos e pobre? Perceba que essas pessoas e os grupos sociais aos quais pertencem têm características que, além das diferenças, determinam formas injustas, desnecessárias e evitáveis para se envelhecer ou viver como pessoas idosas.

Mas quando digo que ainda temos lamentações a fazer, esse maior percentual de pessoas negras residindo no Brasil muda quando se analisa o grupo de pessoas com 60 anos ou mais. Dessa forma, mais da metade da população idosa é definida como branca. Isso pode mostrar que muita gente preta e parda morre antes dos 60 anos e de maneiras diferentes quando comparadas às pessoas brancas.

Como assim morre diferente, já que o remédio que se usa é o mesmo? A cirurgia é a mesma? E mais: os problemas são os mesmos? Iniquidades raciais, sociais e outras manifestações dos "-ismos" que citei lá em cima ocorrem de forma inconsciente ou não, aprendidas ou naturalizadas, praticadas por instituições presentes nos não cumprimentos de políticas, na prática de diversos profissionais dos mais diversos segmentos, pelo não protagonismo de muitas pessoas e de seus grupos na sociedade ou pelas suas invisibilidades.

E, se historicamente, pessoas negras foram sempre maltratadas, das mais diversas formas, a ponto de hoje ainda percebermos que nem todas as pessoas negras envelhecerão, já que morrerão precocemente se comparadas às pessoas brancas e orientais, é porque toda a sua trajetória de vida foi marcada por muito mais violência e estresses se comparadas a outros grupos.

Por isso que ainda precisamos marcar um dia, um mês para se fazer um balanço das ações que estão dando certo, quais que não e quais que precisam acontecer.

O dia e o mês da Consciência Negra precisarão existir enquanto os direitos, deveres, oportunidades, condições para envelhecer com saúde, oportunidades e propósito de vida não forem iguais para todas as pessoas que residem no nosso território.

O que fazer?

Aprender a dialogar, ouvir a dor da outra pessoa, da outra família, do desempregado, de quem passa fome, de quem tem competência e não oportunidade, da outra pessoa velha que, pela cor da sua pele, possui uma trajetória de vida marcadas por injustas e desleais condições de vida.

Muitas pessoas que leem essa coluna já não têm seu pai, mãe, avó ou avô negro vivo. E dói muito quando se percebe que a causa da morte, se por doença ou motivos sociais, poderia ser evitada. Morreram ainda jovens, algumas dessas pessoas comemoraram poucos aniversários desde a chegada à velhice, outras só puderam ver a velhice se aproximando, mas se despediram antes da hora esperada, demograficamente, que seja.

A benção meu pai!

A benção minha mamãe!

Que bom poder escrever isso enquanto vocês estão fisicamente comigo!

Se você chegou até aqui, talvez seja porque já entendeu a importância do Mês da Consciência Negra ou quer saber mais para entender.

Já pensou em reverenciar o pai e a mãe de quem lê essa coluna? E aqui não cabe apenas os pais biológicos. São todas aquelas pessoas que, na sua vida, tiveram essa importância. Muitas vezes é um tio, uma tia, avô, bisavó ou qualquer outra pessoa que chegou ao mundo antes de vocês e que te trataram como filha ou filho.

É assim que finalizo minha coluna, te convidando a reverenciar o seu mais velho! Nós só somos porque essas pessoas ainda são para nós, fisicamente ou não. Enquanto lembrarmos elas ainda estarão conosco. Esses são alguns dos ensinamentos da filosofia africana, que é muito negra.

E que sejam por eles e por elas que possamos fazer um país melhor!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL