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Alexandre da Silva

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O que Round 6 nos ajuda a pensar sobre o envelhecimento?

Netflix/Divulgação
Imagem: Netflix/Divulgação
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Alexandre da Silva

Alexandre é fisioterapeuta, especialista em gerontologia e mestre em reabilitação pela Unifesp, doutor em saúde pública pela USP e professor da Faculdade de Medicina de Jundiaí. É também membro do Centro Internacional de Longevidade e dos grupos de trabalho Racismo e Saúde e Envelhecimento e Saúde Coletiva, ambos da Abrasco.

Colunista do UOL

08/11/2021 04h00

Bom, antes da leitura do texto dessa semana, aviso de possíveis spoilers. Continue lendo por sua conta e risco.

Nessas últimas semanas, milhões de pessoas no Brasil e em outros 90 países assistiram ou ficaram muito curiosas em conhecer a série Round 6, da Netflix, que mostra pessoas com dívidas altíssimas, decorrentes das mais diversas armadilhas do capitalismo, competindo em busca do grande prêmio, estrategicamente colocado em um imenso porquinho daqueles onde costumamos guardar moedas.

Há uma diversidade de personagens, de diferentes idades, gênero e formas de atuação no jogo. Entre eles há apenas uma pessoa bem mais velha, o número 001.

E é sobre esse personagem que tentarei fazer algumas considerações e reflexões sobre como o seu papel nos ajuda a compreender a visão que é transmitida na série e que também é muito naturalizada no mundo real: o envelhecimento e pessoas velhas e, bem no final da série, sobre as regras praticadas pelo sistema econômico vigente na maior parte dos países.

Vi todos os episódios, mas confesso que desacelerei minha expectativa após a suposta morte do participante número 001, Oh Il-nam. Mas dali para frente não deixei de pensar em como seriam as provas e os comportamentos dos participantes caso ele ainda ali estivesse.

Esse jogador mais velho demonstrou o processo de envelhecimento marcado pelos agravos e possíveis doenças, incluindo o câncer. Tem uma marcha mais alargada, reações mais lentas, uma postura mais curvada, que reforça um estereótipo típico nos livros mais antigos sobre geriatria e gerontologia e até alguns logotipos atuais.

Mostra também um aparente déficit cognitivo em andamento, que deixa participantes em dúvidas constantes em escolhê-lo ou não para as provas que, na visão da maioria, sempre dependerá de muita força física e agilidade. E esse velho não conseguiria contribuir para as vitórias.

E talvez seja aí um dos pontos que, mesmo que timidamente, valoriza o velho, a pessoa idosa. O participante nº 001 mostra como a experiência e a construção de estratégias são muito importantes nesse cenário competitivo, que simula em muito as práticas de milhares de espaços de trabalho.

Ele mostra que jovens, homens e mulheres adultas e pessoas velhas podem vencer o que parecia impossível, com arranjos intergeracionais e comunicação efetiva, como a prova de cabo de guerra. Mostra que o convívio intergeracional pode existir no mercado competitivo de trabalho e, ainda que nem sempre com uma presença de afetos positivos, como bem demonstra a série, que bons resultados e metas podem ser alcançados.

Uma das cenas mais impactantes foi quando um dos protagonistas da série, Seong Gi-hun, joga bolinhas de gude com esse idoso. A encruzilhada que esse velho o coloca, mostrando que não estava perdido no jogo, que percebeu as trapaças e, mesmo assim, manteve a palavra de que seriam uma dupla, mostra uma vitória moral do ancião, que ainda morreu no ambiente mais acolhedor dentro dessa série, que parecia muito com o seu lar fora do ambiente dos jogos.

A morte do número 001 é respeitada, não foi explicitamente mostrada. Foi como uma passagem, semelhante àquelas esperadas em muitos rituais religiosos, e encobriu a forma desleal de Gi-hun em não cumprir as regras do jogo. O número 001 perdeu e deveria ser morto ali, mas os valores institucionais do sistema maior, que se explica no acúmulo de estresses financeiros de milhões de pessoas que são convertidos em lucro para uma minoria no mundo, driblaram uma das regras principais do jogo que era: perdeu, morreu.

"Round 6", da Netflix, foi idealizada para ter apenas uma temporada - Divulgação/Netflix - Divulgação/Netflix
Imagem: Divulgação/Netflix

As cenas de Il-man procurando sua reinserção no mundo fora da arena dos jogos é marcada pela precariedade da sociedade em mostrar que idosos podem ser inseridos naturalmente entre as pessoas não mais velhas. E, de forma alguma, estou romantizando que todas as pessoas idosas são ou foram boas com seus familiares e amigos.

Ainda assim, possíveis abandonos serão sempre criticados e passíveis da intervenção do Estado. Não se pode esquecer que, na maioria dos países capitalistas, há direitos garantidos a todas as pessoas, velhas ou não.

Um outro personagem, talvez o segundo mais velho na série, tem uma passagem marcante no episódio da ponte dos pisos de vidro temperado ou normal. Sua forma de jogar impressiona os finalistas que, injustamente e sem qualquer honra, o matam.

Talvez esse pudesse ser um dos vencedores. Foi excluído do jogo, assim como muitas pessoas com mais de 50 anos já começam a ficar mais para fora do mercado de trabalho selvagem que ainda predomina no nosso país, por exemplo.

A série também pode ser definida com uma forma de diversão bancada pelo dinheiro injusto e desleal do capitalismo, muitas vezes, e que se alimenta do aumento das desigualdades e sofrimentos humanos, e que é "degustado" por um número ínfimo de pessoas financeiramente ricas e sentimentalmente pobres em empatia.

Entretanto, Round 6 não revela que há milhares, talvez milhões de pessoas idosas endividadas. Na Coreia do Sul, o valor de endividamento das famílias já supera o PIB (Produto Interno Bruto) daquele país. No Brasil, os empréstimos consignados, a fala de netos e netas que juram devolver a quantia emprestada muito em breve, a justificativa de um ente familiar para a compra de um automóvel que será um bem aproveitado por toda a família são fatos que elegeriam diversos idosos e idosas para serem potenciais participantes dessa ficção.

A palavra que une é também a palavra que engana. No jogo, muitas estratégias colocam o número 001 como última escolha entre os participantes, só perdendo para a mulher que mostrou um pouco mais de afeto por um homem e que por isso foi humilhada e violentada.

E o jogo aqui faz a construção do que se vê nos dias atuais: essa desvalorização do que não é racional, frio e calculista. As emoções e o exercício da empatia são considerados como fraquezas de jogadoras e jogadores.

A série não valoriza o desempenho de jogadores com 50 anos ou mais nas disputas dos jogos, e isso pode guardar semelhança com o que se vê na maioria dos setores ocupacionais no Brasil. E, por isso, podem ter mais dificuldade para entrar ou se manter no mundo corporativo. Se estivessem trabalhando, quem estaria cuidando das filhas e dos filhos dos "players", das colaboradoras ou dos trabalhadores mais jovens?

O jogo não mostra que pessoas idosas poderiam ser jogadores potenciais, já que estão submetidas ao mesmo sistema que, cada vez mais, nega assistência, e promove a busca individual, eterna ou enquanto existir vida para situações de exploração e pouco gozo da vida.

O restante, família, descanso, propósito e outras atividades importantes não fazem parte do jogo "democrático" ou parlamentarista escolhido, cujas regras parecem destoar do que se espera de sociedades evoluídas.

Nos surpreende a parte final, quando se descobre que é o número 001 é o dono da quadra, das bolinhas de gude, de tudo. Cheguei a acreditar que a vitória do jogador 456 foi pensada, já que suas melhores demonstrações de afeto ocorrem sempre quando estava convivendo com pessoas velhas ou mulheres.

Ainda assim, as violências, principalmente a financeira, ocorrem quando Gi-hun rouba o dinheiro da conta bancária de sua mãe, por exemplo. Mas, durante toda a série, o 456 mostra a preocupação em ganhar o prêmio para ajudá-la. E essa preocupação não fica só com ele. Outros participantes estão preocupados com o bem-estar de suas e seus mais velhos, sinal de que o respeito a ancestralidade não estão perdidos totalmente.

Felizmente, nos bastidores, o ator sul-coreano Oh Yeong-su, de 77 anos, que interpreta o 001, e que já colecionava alguns prêmios, conta que seu bom trabalho na série fez sua vida profissional mudar positivamente. E é mais uma prova de que pessoas idosas são tão boas quanto qualquer pessoa jovem, criança ou adulta.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL