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Alexandre da Silva

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Quando o tempo está passando: pessoas idosas e seus planos para a vida

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Imagem: iStock
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Alexandre da Silva

Alexandre é fisioterapeuta, especialista em gerontologia e mestre em reabilitação pela Unifesp, doutor em saúde pública pela USP e professor da Faculdade de Medicina de Jundiaí. É também membro do Centro Internacional de Longevidade e dos grupos de trabalho Racismo e Saúde e Envelhecimento e Saúde Coletiva, ambos da Abrasco.

Colunista do VivaBem

27/09/2021 04h00

Há assuntos que são difíceis de abordar, porque não são legais. Eles mostram um outro lado da vida, aquele que nem sempre temos orgulho de exibir, de falar, de contar os motivos pelos quais aconteceram.

Falo dos planos que não deram certo, das relações que acabaram, dos projetos que, por mais que queiramos, não há mais tempo hábil para que aconteçam. Sabe aquela oportunidade de trabalho, ímpar, exclusiva e que jamais apareceu outra na mesma altura, com as mesmas características, equipe, chefia e, o que pode contar muito para quem envelheceu, o salário e outras vantagens que estavam associadas?

Também os relacionamentos, conjugais ou de amizade, que tiveram um desfecho bem diferente daqueles da juventude ou dos filmes mais românticos que já assistimos. Acabaram em briga, em distanciamento ou até em isolamento. Agora são realizados a partir de cumprimentos formais, lembranças em datas comemorativas e não mais aqueles abraços calorosos e risos sem fim.

Falo ainda das expectativas da casa totalmente reformada, com móveis novos e toda a louça em ordem, com todas os pratos e copos intactos. Dá para incluir a formação de filhos e filhas, com seus canudos de graduação em mãos e sendo reconhecidos por seus conhecimentos e competências técnicas. Toda mãe, pai, tio ou tia que ajudou na formação de alguém sonha com isso tudo.

Mas não deu. Na gíria da turma de vinte anos ou menos: "deu ruim".

É muito provável que muitas pessoas idosas estejam, nesse exato momento, chegando a conclusões de que algum plano traçado há muito tempo não mais acontecerá, com a mesma certeza de que milagres não ocorrerão, de que a humanidade não é tudo isso de bom que se ouve falar. Existe um quase fracasso, que talvez seja mais uma tristeza, iminente na vida de muitas pessoas idosas. Se é racional ou justo, cabe a cada leitor ou leitora fazer suas reflexões.

É da vida a frustração e a tristeza. O conforto espiritual também poderá não estar ali, naquela religião, da forma como a gente gostaria e pronto para atender todas as lamentações e vontades e, talvez, já se tornou algo sem sentido ou importância para muitos idosos e idosas. Quase sempre uma família terá algum familiar que estará com problemas de saúde ou financeiro. Nem toda a pessoa idosa terá no banco a quantidade de dinheiro suficiente para todas as suas vontades. A saúde e os conhecimentos científicos ainda deixarão idosos sem o atendimento mais adequado. A política vai sempre nos causar desapontamentos, líderes religiosos poderão mostrar seu lado humano e desapontar fiéis.

Podemos estar com expectativas e planos baseados em valores culturais e religiosos que reforçam um não lugar para a possibilidade de contemplação e do merecimento por todas as conquistas já realizadas. Talvez seja mais fácil ficarmos incomodados com a vida melhor que outra pessoa tem, seja na vida pessoal, seja na familiar, seja na condição financeira, seja no convívio intergeracional.

O que estou querendo mostrar é que talvez estejamos procurando um sentimento de realização ou de felicidade que só existe no mundo imaginário e perfeito e que frustra muitas pessoas velhas atualmente. Não sei precisar se idosos e idosas estejam sofrendo por influência da positividade tóxica, ou seja, de que precisam estar bem, toda hora, de qualquer forma, para sair sempre bem na foto, seja da reunião com a família, seja do encontro com amigos (se bem que amigo que é amigo entende bem a nossa montanha-russa de sentimentos, não é?).

Pessoas idosas podem estar procurando algo que elas têm certeza de que existiu e hoje não mais. O desafio está na capacidade de mudar o sentido, a rota, o destino ou a forma de se viver daqui para frente. E essa rota para o dia seguinte na vida de pessoas velhas precisa encontrar o motivo, isto é, uma motivação que nem sempre estará no sorriso sincero e com janelinhas de netas ou netos.

E, curiosamente, muitos jovens e adultos de hoje nem sequer pensarão na sua velhice, mas também não estão vivendo intensamente o dia de hoje. Esses grupos sociais podem estar mais expostos a essa positividade tóxica, essa necessidade de correr para fazer tudo e dar tempo para fazer mais, sem olhar para frente. Ali, muito em breve, chegará a velhice e nada com muita significância pessoal foi realizado. E, desta forma, podemos ter novas velhas e velhos frustrados com o que não foi feito.

Buscar nossas conexões, seja com alguém, seja com algo que dê sentido para a nossa vida é uma das soluções. E esse alguém ou algo pode estar no passado ou no futuro. Pode ser a redescoberta de um sentimento por uma pessoa ou a conversa de reconciliação. A aquisição de um objeto pode estar muito além do seu valor real e ser a peça para a conclusão de uma conexão. Passar ou não a ter fé pode ser a condição que faltava para estar bem espiritualmente. Também pode ser a ruptura do convívio com alguém, a conversa sincera que nunca houve, o desapego a algo material que hoje não faz mais sentido.

Velhas e velhos podem carregar a culpa por tantas coisas que fizeram ou que não fizeram. É necessário isso? Receber a culpa da sociedade, da religião, dos familiares? E ainda há a mais dura delas: a autoculpa?

É esse lado da vida que procuramos não mostrar, mas que todo mundo sabe que existe. E, se existe, um dia virá à superfície a necessidade de se fazer algo com ele, já que nos constitui enquanto pessoas e ajuda a definir subjetividades. Vem no sonho, no nosso lado inconsciente. E ninguém mais que a gente precisa entender o seu significado.

A doutora e escritora Conceição Evaristo disse, em uma live recente, que nos perdoar, pelas nossas limitações, é importante para a resolução de problemas internos e daí abrir possibilidades para a felicidade. E isso remete a formas de resiliência e estratégias para estar vivo. Para muitas pessoas jovens e velhas o orgulho estará sempre acima do lugar do perdão. E isso pode não ser bom.

Experiências e condições pregressas podem estar sufocando sentimentos mais sinceros e pessoas idosas não podem mais perder tempo fingindo que eles não estão ali, quase que sufocando a vontade de viver, de deixar de ser a pessoa revolucionária da sua própria existência. Talvez seja o momento da revisão do plano de vida, de encontrar novos caminhos para mudar as sensações historicamente construídas e fortalecidas. Mudar para ficar bem.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL