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Alexandre da Silva

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Acelerar a vida é envelhecer sem planejar. Já pensou nisso?

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Alexandre da Silva

Alexandre é fisioterapeuta, especialista em gerontologia e mestre em reabilitação pela Unifesp, doutor em saúde pública pela USP e professor da Faculdade de Medicina de Jundiaí. É também membro do Centro Internacional de Longevidade e dos grupos de trabalho Racismo e Saúde e Envelhecimento e Saúde Coletiva, ambos da Abrasco.

Colunista do UOL

30/08/2021 04h00

Cenas cotidianas nos têm mostrado que a alta velocidade para se fazer e ver acontecer as coisas e os fatos é uma característica quase que essencial para se estar conectada à sociedade atual. Vejamos alguns exemplos:

O WhatsApp, um aplicativo criado inicialmente para troca de mensagens e fotos, agora tem a opção de acelerar o áudio recebido de alguém, seja avó, mãe, tio ou madrinha. E tem duas opções: para quem tem pressa e outra para quem tem muita pressa. Além disso, esse mesmo aplicativo troca arquivos e, mais recentemente, faz até pagamentos ou transferências. Tudo é realizado sem a pessoa sair do app, o que é uma boa estratégia. Mas veja que são recursos que aumentam a velocidade para a realização das coisas. Muitas pessoas chamam isso de praticidade.

O TikTok virou um sucesso mundial e aqui no Brasil não foi diferente. Se você não está nesse aplicativo, pode ser um sinal de que você já não seja tão jovem como imagina. Nesse aplicativo, é comum que crianças, adolescentes, jovens e quem mais quiser reproduza coreografias. Mas as músicas não tocam inteiramente. E mesmo o refrão nem sempre é tocado integralmente. E acaba que hoje muitas dessas pessoas que dançam, não sabem quem canta e qual a obra musical completa daquela banda ou artista. O lado bom, pensando em pandemia, é que o TikTok ajudou a manter muita gente ativa e um pouco mais protegida do sedentarismo absoluto ou de problemas mentais mais graves. Mas aumentar a velocidade para se apreciar uma música? Sei não.

Quem gosta ou precisa escrever para transmitir o que considera importante ou necessário para outras pessoas, cada vez mais se preocupa com a quantidade de letras e parágrafos. Muitas páginas da internet já nos mostram o tempo de leitura de um determinado texto e, quase sempre, muitos não são lidos porque não estão dentro do tempo acelerado das coisas ou dos fatos. O estímulo para acelerar a leitura é cada vez mais presente nos nossos dias. Vejamos a quantidade de cursos que nos estimulam a ler com mais velocidade, sem contemplar as vírgulas, as exclamações, as interrogações e, quem dirá, o ponto e vírgula!

A alimentação vai no mesmo sentido da aceleração para o seu preparo e consumo. Sim, muitas pessoas comem olhando o celular, respondendo mensagens e não observando a qualidade, cor, cheiro e textura dos alimentos. Um alimento que talvez foi preparado com calma, desde o dia anterior, temperado em etapas e ficado pronto bem devagar. E ainda há pessoas que consomem fast-food e comem ainda mais aceleradamente. Cientificamente, comer mal acelera o processo de envelhecimento.

Eu poderia continuar a citar outros exemplos aqui. A questão é: por que gostamos de acelerar nossa vida e, com isso, estimular cada vez mais nossa ansiedade de querer ver a conclusão e não o andamento? Acelerar o tempo para fazer as coisas é também correr mais rápido para um envelhecimento, mas não um envelhecimento construído, desfrutado e planejado.

Acredito que um bom envelhecimento possa ser aquele comparado a um percurso de trilha. Quem gosta de trilha ou de pedalar grandes distâncias talvez o faça porque sabe que tão importante quanto o destino é a trajetória.

Correr para se fazer tudo, para dar tempo de fazer mais coisas e, durante um encontro familiar ou passeio, também "aproveitar" o tempo para adiantar o envio de um e-mail ou a conversa que poderia muito bem ocorrer no dia seguinte, seria como só pensar no destino e não olhar o caminho percorrido na trilha.

Essa trilha da vida tem tantas coisas boas para se apreciar, aprender, compartilhar e descobrir! Pode-se apreciar a companhia de quem está com você, ou ficar muito bem só com você e perceber que pessoa fantástica você é. Pode nos ensinar a olhar o tempo, o céu, as nuvens, sentir a umidade do ar e a chegada de um frescor que revigora, ainda que momentaneamente, o corpo e a mente.

Uma caminhada pode ajudar na integração das nossas partes emocionais, afetivas e psíquicas. A trilha pode nos aprimorar enquanto pessoas integrantes de uma coletividade que acerta e erra, constantemente. E nessas constatações percebo que o tempo que importa é o de estar na trajetória que, uma hora ou no tempo certo, será finalizada com a chegada ao objetivo programado. O tempo vivido com calma nos dá possibilidades de reparar nos detalhes, o jeito para se fazer bem qualquer coisa, o descobrir como somos e o porquê.

E as descobertas que a não aceleração pode trazer? Não acelerar tanto a vida nos permite descobrir quais coisas, fatos e pessoas são importantes para você e que vale a pena estar mais perto ou se organizar para fazer mais.

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É também desmistificar tantos valores morais que reproduzimos sem pensar e que podem criar grades invisíveis que nos impedem de caminhar nessa trilha da vida com mais leveza.

Leveza. Penso muito nesse termo e, para amigas e amigos, desejo muito que isso aconteça. Para se fazer a trilha não é recomendado acelerar, carregar objetos desnecessários. E quem acaba carregando fatos ou coisas desnecessárias ao longo da vida terá mais dificuldade para desacelerar, é a lei da física. Carreguemos o básico: autonomia, propósito, reserva de ânimo, um pouco de resiliência e água, lembrando os conselhos das minhas amigas nutricionistas.

Acrescentaria algo mais: alongamento. Alongamento do corpo, do desfrute da trilha, da companhia de você mesmo ou, se quiser, de quem está do seu lado, ou do momento prazeroso quando você faz algo que gosta, não importando a idade que julgam ser recomendada para que seja realizado.

O tempo certo permite que o corpo esquente e assim a ginga corporal fica melhor e dá para se esquivar de muitos problemas e barreiras que surgem durante a vida. A velocidade ou a aceleração não conseguem fazer isso sem a ginga que se aprende com o tempo. Velhos e velhas aprenderam a ser bons capoeiristas na roda da vida.

Pessoas idosas que apresentam alguma dificuldade e estão em espaços públicos, como bancos, mercados, pagando o boleto de cobrança de estacionamento nos shoppings "atrasam" a vida das pessoas mais jovens que, quase sem tempo de entender ou de ajudar a pessoa mais velha, estão nos seus celulares adiantando alguma coisa ou fato das suas vidas.

E assim continuam a não estar plenamente no presente, correndo para um futuro onde serão pessoas mais velhas, mas não aprendendo, neste presente, como as pessoas velhas lidam com a velocidade e a aceleração. Lembrando que nem todas as pessoas idosas aprenderam bem esse manejo.

Nossa medida de valores precisa ser quilômetros por hora ou atividades por dia? Não poderia ser risadas por dia, abraços por encontro ou contemplações por semana?

Não ter a paciência para ensinar ou acompanhar uma pessoa mais velha, e não necessariamente idosa, é um dos erros nesse aprendizado. Muitos adeptos do TikTok já perceberam que as músicas velhas são incríveis para os tornar pessoas famosas.

A base musical antiga, velha, é ótima para se construir novos sucessos. Ainda estamos com tempo para aprender a desacelerar para viver melhor todas as fases da vida e nos preparar para o nosso próprio envelhecimento.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL