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Alexandre da Silva

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Envelhecimento e movimentos corporais: há riscos para as gerações?

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Alexandre da Silva

Alexandre é fisioterapeuta, especialista em gerontologia e mestre em reabilitação pela Unifesp, doutor em saúde pública pela USP e professor da Faculdade de Medicina de Jundiaí. É também membro do Centro Internacional de Longevidade e dos grupos de trabalho Racismo e Saúde e Envelhecimento e Saúde Coletiva, ambos da Abrasco.

Colunista do UOL

12/07/2021 04h00

Para muitas pessoas, é mais difícil subir do que descer, considerando a vida e as realizações profissionais que almejamos: trabalho, família, vida afetiva e tantas outras. Entretanto, quando pensamos em movimento do corpo, muitas vezes, subir é mais fácil que descer, agora considerando a saúde dos nossos joelhos, músculos e tendões.

Quando passamos a ter alguma dificuldade para subir uma escada, descer uma rampa, correr aqueles 20 metros para pegar um ônibus, agachar para pegar algo no chão ou brincar com uma criança, estamos constatando os impactos do envelhecimento?

Se olhamos para a nossa vida, quantos hábitos salutares estão presentes no nosso cotidiano? Atividade física? Meditação? Oito horas de sono, aproximadamente? Alimentação saudável? Ingestão de quantidade adequada de água? Realização de trabalho voluntário?

Se sua resposta foi não para um ou mais desses hábitos, você acaba de mostrar que é uma pessoa humana e que, de fato, é muito difícil ter condições para realizar todos eles. Vontade todas e todos temos em fazer o melhor para a nossa mente e o nosso corpo.

O "nó do problema" está aí, muitas e muitos queremos, a dificuldade é como incluir tais práticas na nossa vida, além de trabalhar (ou continuar procurando emprego), cuidar de crianças ou de uma pessoa idosa ou alguém com necessidade, crescer profissionalmente, assistir a todas a boas "lives" que vêm sendo produzidas, concluir as séries que gostamos, acompanhar bem as finanças e por aí vai (melhor eu parar de aumentar essa lista!).

Hoje vou me atentar para discutir o movimento corporal e como pessoas idosas podem estar bem ou não com os seus corpos.

Toda disciplina que aborda o envelhecimento, todas e todos profissionais de saúde que atendem pessoas idosas, dadas a condição de saúde da idosa ou do idoso, irão recomendar a atividade física, o exercício físico ou alguma prática corporal.

Os benefícios conhecidos aumentam a cada ano e chega até na melhora das funções cognitivas, emocionais e espiritualidade, esta última se passarmos a valorizar saberes orientais e africanos que não dissociam corpo e mente, já que a somatização de alguns adoecimentos mentais é também percebida no corpo, seja em ombros mais doloridos, costas mais enrijecidas, joelhos que falseiam ou um coração que acelera seus batimentos diante de uma mesma situação "cotidiana".

Lembro de uma frase que ouvi de um professor que, infelizmente não lembro o nome, pois queria fazer menção a ele. Essa frase dizia que estávamos, isso há mais de 10 anos, correndo o risco de ter uma geração de analfabetos do movimento.

E o que isso que tem a ver com o envelhecimento? Muito.

O movimento é um dos pré-requisitos importantes para a capacidade funcional. Para fazermos muitos dos movimentos corporais precisamos de coordenação, equilíbrio, flexibilidade e força ajustada para cada angulação de movimento corporal que queremos fazer.

E o que observo em diversas pessoas, das mais diversas idades, é uma dificuldade para fazer alguns movimentos.

Faça um teste: veja a sua forma de correr ou de alguma pessoa que conviva com você? Veja como você coloca uma meia? Veja como você se agacha? E já pensou o quanto esse descondicionamento físico, que é não doença, pode afetar a sua velhice?

E quando uma doença dificulta a sua prática de movimentar o corpo? E quando há um círculo vicioso doença-descondicionamento-mais doença-mais descondicionamento e que precisa ser interrompido com a inclusão de atividade física ou exercícios físicos?

Quantas pessoas idosas deixaram há anos de mexer o corpo? Mesmo aquelas que brincaram durante suas infâncias e até juventudes, agora não se mexem tanto.

Idosas praticando tai chi chuan, terceira idade, movimento - iStock - iStock
Imagem: iStock

Fazem o básico do dia a dia e movimentos mais complexos podem ser o entrar e sair do carro ou de algum transporte público. Espaços que ofereçam oportunidades para que seus corpos continuem ativos também são escassos e, muitas vezes, distantes da moradia dessas idosas e idosos.

Onde estão as danças tradicionais, esportes praticados nas ruas, com as pessoas da sua geração, com filhas e filhos ou netas e netos?

Hoje, os mais jovens praticam menos atividades físicas com propósito recreativo. E as ruas, muitas mais cheias de carros e violências, não permitem que toda hora seja hora de brincar.

Os celulares, ou melhor, os smartphones estão cada mais deixando dedos habilidosos e colunas cervicais mais cansadas, e mostrando outras pessoas movimentando seus corpos, além de deixar muitos adultos acomodados com o sedentarismo e falta de motivação para se mexer.

Mas vejamos também que ainda não permitimos que corpos envelhecidos tenham a liberdade para se mexer. Uma idosa movimentando livremente seus quadris, um idoso fazendo aula de zumba, uma idosa praticando a capoeira de Angola?

Quantos espaços para a prática de atividades que movimentem o corpo, academias, quadras, salões de dança, pista de bicicleta e outros espaços são convidativos para pessoas idosas?

Quantos profissionais estão preparados para lidar com algumas especificidades que podem estar presentes em uma pessoa que envelhece, mas que não seriam impeditivas delas se mexerem?

Lembro do meu amigo, senhor Edélcio, um idoso negro de pele retinta, lindo e muito educado. Edélcio dançava o samba rock, uma dança que usa clássicos de Tim Maia, Jorge Ben Jor, The Jacksons e James Brown.

Assim como James Brown, um dançarino espetacular, Edélcio dançava o samba rock conduzindo duas mulheres. Isso era incrível de se ver e, como estudioso do movimento, me encantavam as suas capacidades motoras e cognitivas para fazer tudo aquilo.

E ele ainda conseguia conversar com as pessoas que estavam ao seu redor! Não há processo de reabilitação mais complexo e exitoso do que esse!

E poderíamos pensar isso para as baianas das escolas de samba, para as pessoas idosas praticantes de ioga, Tai Chi Chuan e tantas outras, muitas dessas já incorporadas no nosso SUS (Sistema Único de Saúde). Mas com pouca adesão, infelizmente, em muitos territórios.

Não pela falta de vontade do idoso ou da idosa, mas porque precisamos reduzir alguns aspectos burocráticos, ampliar a quantidade de profissionais, aumentar o período diário de oferta dessas práticas e incluir outras formas de manter corpos ativos.

Quem envelheceu e consegue manter-se ativo pode constatar as vantagens de um corpo aprimorado nos gestos motores, ainda que a potência muscular ou flexibilidade não sejam as mesmas da juventude. Mas a qualidade para se mexer é o mais importante.

No Brasil, principalmente nos grandes centros urbanos, perde-se a espontaneidade do movimentar-se. Novas gerações brincam menos, dançam menos (salvo quem conhece TikTok), mas também não temos políticas e articulações que incluam as práticas corporais como algo necessário para a nossa educação.

Esportes, danças e outras expressões corporais precisam ser vistas como meio de sociabilização, de aprendizagem motora, de construções de sonhos e novas amizades. Não é só para um melhor desempenho e formas de ascensão social, como se vê no futebol jogado pelas e pelos mais jovens.

Movimentar-se pode começar com permissões que pessoas mais velhas precisam dar a si mesmas, entendendo que suas vontades precisam ser atendidas. Tem capoeira, tango, samba, futebol, walking football, vôlei, basquete, queimada, pique-esconde, passar por baixo da corda e pular corda como exemplos de como o corpo precisa desse cuidado.

Gosto de pensar e sugerir que, cada vez mais, possamos desburocratizar todas as práticas corporais que os tantos povos e grupos sociais e novas tendências trouxeram para o Brasil.

É um direito constitucional, sua autonomia e um resgate da alegria em fazer uma prática corporal que lhe agrada e não apenas aquelas práticas disponíveis em alguns serviços de saúde. Essa ampliação é necessária.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL