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'Por que a gente vota?': como conversar sobre política com as crianças

Conversas sobre o que é justiça e injustiça, citando situações cotidianas, podem ser um bom começo para falar sobre política com crianças - Morsa Images/Getty Images
Conversas sobre o que é justiça e injustiça, citando situações cotidianas, podem ser um bom começo para falar sobre política com crianças Imagem: Morsa Images/Getty Images

De Universa, em São Paulo

14/09/2022 04h00

Propaganda na TV aberta, discussões na internet e até conflitos no almoço em família —mesmo que não estejam aptas a votar, crianças e adolescentes estão expostos tanto quanto os adultos às tensões da política e aos debates que costumam aparecer no período eleitoral. Prova disso é que, nas escolas, há histórias de conflitos entre crianças porque a família de uma é petista e, da outra, bolsonarista.

Na casa da colunista do UOL Luciana Bugni, por exemplo, vêm do pequeno João, de 5 anos, perguntas que vão ficando mais e mais complexas a cada resposta, como "o que são eleições?", "por que a gente vota" e "o que são impostos?". "Expliquei que há uma parte do nosso salário que temos que pagar para o governo fazer coisas boas para a população, como escolas e hospitais", conta. "Não usei a palavra democracia, mas ele entendeu que, se a maioria escolhe um presidente, ele ganha".

Inserir as crianças numa conversa sobre política pode ser um desafio. Mas, afinal, tem jeito certo de falar com as crianças sobre política? Quando começar o assunto? E como protegê-las da polarização e do discurso de ódio?

Universa ouviu dois especialistas —o psicólogo Alexandre Coimbra e a psicanalista e educadora parental Thaís Basile— para responder estas e outras perguntas sobre o interesse dos pequenos por termos como "eleições" e "democracia".

Qual é a melhor forma de falar de política com as crianças?

Falar diretamente com a criança usando termos complexos, como se fosse uma palestra, vai ser enfadonho pra ela. O ideal é que a família tenha o hábito de falar sobre política a partir de situações cotidianas "e pelo prisma do bem-estar, da vida em sociedade, e não simplesmente da busca pelo poder" ou da política institucional.

Thaís Basile sugere começar a introduzir o assunto de forma mais macro: o que é justiça, dando exemplos de situações justas e injustas, por que é importante respeitar a vontade da maioria. Ou, ainda, demonstrar situações de pequenas comunidades, como o funcionamento do condomínio em que vivem, a importância da reciclagem, os esforços para economizar água.

"É importante que a criança saiba que a ação dela e da família dela faz diferença dentro daquela pequena comunidade, seja a casa, o condomínio. E é bacana que ela saiba, ao mesmo tempo, que as estruturas coletivas fazem diferença, que a gente precisa lutar de forma organizada para cuidar do mundo".

Alexandre Coimbra acrescenta que, outra forma interessante de discutir política com as crianças é falando sobre as diferenças —já que, em geral, os pequenos são mais abertos a conviver com o diferente do que os adultos, percebe.

"Se você está com uma criança de 2, 3 anos no parquinho e outra criança quer o brinquedo emprestado, é uma boa oportunidade para falar sobre convivência, pensar de forma coletiva. Ou, mais tarde, quando ela estiver na sala de aula, incentivá-la a abraçar um colega que é escanteado, que sofre bullying, e até pontuar eventuais falas preconceituosas que ela apresente", fala.

A partir de que idade?

"Desde sempre", fala Thaís Basile, pontuando que a conversa só precisa estar adequada à faixa etária. "Uma criança de 3 anos, por exemplo, entende muito bem a noção de justiça e injustiça, porque experimenta isso no dia a dia, na escola, em casa".

Escola também tem papel importante

Os dois especialistas lembram que, além do ambiente familiar, a escola também cumpre um papel muito importante na formação política das crianças.

"É importante que as instituições onde a criança está presente façam esse papel de inserir uma cultura democrática, de justiça e decisão coletiva para o bem dos alunos, desde a idade mais tenra possível", defende Thaís Basile. "Fazer votações e ouvir a ideia das crianças é uma forma muito simples e, ao mesmo tempo, muito positiva de mostrar como a política funciona na prática".

Alexandre Coimbra lembra que o papel da educação é justamente preparar as crianças para exercer a cidadania -ele cita Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (lei 9.394/1996), que define, no artigo 22: "A educação básica tem por finalidades desenvolver o educando, assegurar-lhe a formação comum indispensável para o exercício da cidadania".

E, na prática, muitas vezes parte dos próprios alunos a demanda de discutir política em sala de aula: a professora Fabiana Lessa, que leciona Filosofia em escolas particulares na região metropolitana do Rio de Janeiro, conta que neste ano de eleições foi questionada algumas pelos alunos sobre o papel de cada cargo eletivo —presidente, senador, deputados— e sobre termos como "Centrão".

"Não estava no conteúdo programático, a demanda dos estudantes ia num sentido muito diferente do que eu tinha planejado, mas dei uma pausa para responder a estas dúvidas e ouvi-los. Não podemos perder o fio do interesse deles", disse, a Universa.

Como proteger as crianças do discurso de ódio?

Apesar de ser essencial tratar de política com as crianças, é importante tomar alguns cuidados para não expô-las ao discurso de ódio e às tensões inerentes ao período eleitoral —especialmente o deste ano, marcado pela violência política.

Primeiro, é importante não pessoalizar a política —ou seja, não adotar a ideia de que "fulano é bonzinho" e "ciclano é do mal" porque "se a gente fica preso na figura de um político, tanto para defender quanto para demonizar, isso tira a complexidade da coisa. A criança precisa entender que política é uma estrutura que vai além de uma ou outra pessoa", fala Thaís Basile.

Além disso, claro, é preciso evitar xingamentos e palavras de baixo calão ou de cunho sexual —como o termo "imbrochável", usado pelo próprio presidente Jair Bolsonaro (PL) em discurso durante ato em apoio à sua reeleição, com várias crianças presentes, no último 7 de Setembro.

Por fim, aconselha Alexandre Coimbra, "a criança não deve estar exposta a conflitos familiares, apologia a armas e violência de qualquer tipo", seja durante conversas com adultos ou em notícias da televisão, por exemplo.

"Ela vai ser impactada por essa tensão de uma forma ou de outra, porque não tem como esconder dela o mundo em que a gente vive, mas a criança não precisa estar tão exposta às notícias em uma sociedade que é violenta, segregadora, individualista, competitiva, pautada nos valores de poder e lucro".