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Viúva de João W. Nery: 'Passou da hora de termos leis para pessoas trans'

Sheila com João W. Nery, com quem foi casada por 22 anos - Arquivo pessoal
Sheila com João W. Nery, com quem foi casada por 22 anos Imagem: Arquivo pessoal

Mariana Gonzalez

De Universa

24/11/2021 04h00

Embora criminalize a transfobia e regulamente o uso de nome social, o Brasil ainda não tem leis federais que defendam os direitos das pessoas trans —mas isso pode mudar, se o Congresso aprovar o Projeto de Lei 3213/2021, um conjunto de propostas de proteção a pessoas T e intersexo, apresentado na última quinta-feira (18), durante evento na Câmara dos Deputados.

A iniciativa histórica foi batizada de João W. Nery, em homenagem ao psicólogo, escritor e ativista pelos direitos LGBTQIA+, morto há três anos —na ocasião, ele foi representado por sua companheira de mais de duas décadas, a museóloga Sheila Salewski.

Em entrevista a Universa, por telefone, ela diz que "já passou da hora" de o Brasil ter uma legislação favorável às pessoas trans e que, embora seja uma mulher cisgênero e heterossexual, a conquista pelos direitos LGBTQIA+ também é uma batalha sua.

Eu sempre estive ao lado do João. Esta sempre foi uma luta minha e agora continua sendo, em memória dele. Não abro mão disso.

João Nery foi o primeiro homem a passar por uma cirurgia de redesignação sexual no Brasil, em 1977 —o procedimento foi feito de forma clandestina, já que ainda não era reconhecido e nem regulamentado no país.

Ao decidir pela transição de gênero, Sheila conta, ele abriu mão da carreira acadêmica e de trabalhar como professor universitário, profissões que exercia, já que o nome em seus documentos não correspondia mais à sua aparência.

Embora tenha lançado quatro livros entre a década de 1980 e sua morte, em 2018, João Nery passou décadas sem ter seu trabalho reconhecido, lembra a companheira: além de não poder dar mais aulas, também não podia mostrar o rosto quando dava entrevistas para jornais e TV, porque a família tinha medo que ele sofresse represálias ou agressões.

A expectativa é que, se o PL que leva seu nome for aprovado, pessoas transexuais tenham uma vida muito diferente, já que suas principais propostas são a garantia do respeito ao nome social inclusive após a morte e a autodeterminação do gênero —isto é, a garantia de que pessoas possam determinar sua identidade de gênero sem ter que apresentar mudança em documentos ou laudos médicos.

A Universa, Sheila lembra, ainda, que o marido criou uma rede de apoio de 3 mil homens trans pelo país enquanto muita gente sequer conhecia o termo, e que se dedicava tanto à militância LGBTQIA+ que continuou viajando para dar aulas pelo Brasil mesmo após o diagnóstico de câncer no pulmão e terminou seu último livro, "Velhice Transviada", no hospital, pouco antes de morrer.

Sobre a morte do companheiro e o luto que ainda vive, ela não consegue falar.

'Brasil precisa aprovar legislação para pessoas trans. Passou da hora'

"A gente precisa dar visibilidade a este projeto. É uma atualização do original, escrito pelo Jean Wyllys (PSOL-RJ) e pela Érika Kokay (PT-DF) em 2013, de acordo com o que se considera mais atual e necessário para esta população em 2021.

Agora a gente espera que quem está no Congresso representando a sociedade perceba a importância dessas propostas. Tivemos alguns avanços neste sentido, no STF [Supremo Tribunal Federal], mas essa é a nossa chance de ter uma legislação federal que cuide das pessoas trans. Isso é necessário e já passou da hora de acontecer.

Quando o Jean e a Érika procuraram o João, em 2013, ele fez todo um trabalho educacional de explicar como os homens trans eram invisíveis, quais eram as necessidades da população transmasculina. Depois, quando a lei foi apresentada, os autores decidiram homenageá-lo, chamando o projeto de Lei João W. Nery."

Sheila e João Nery - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

'Seu último livro foi escrito no hospital. Até onde pode, ele se dedicou à causa'

"Ele tinha essa militância política, se posicionava, ia a muitos eventos contar sua história. Se ele fosse chamado para dar uma aula em Pernambuco e, no dia seguinte, para participar de um evento em Porto Alegre, ele ia nos dois, fazia questão.

Se estivesse vivo, João ficaria contente com esses avanços [criminalização da transfobia e decretos que tratam do nome social de pessoas trans], até porque ele contribuiu muito para que essas reivindicações saíssem do papel.

Seu último livro, "Velhice Transviada", que foi lançado meses depois de sua morte, acabou de ser escrito no hospital, enquanto ele estava internado.

Até onde pode, ele se dedicou a isso."

'Ele escondia o rosto na TV, porque a família tinha medo de represálias'

Na década de 70, quando João fez a cirurgia [de redesignação sexual, feita de forma clandestina, já que na época ainda não era permitida no Brasil], estudou e reuniu todas as informações que conseguiu durante um tempo em que não tinha internet e ninguém sabia o que era transexualidade.

Mesmo assim, levou adiante o sonho de se tornar aquela pessoa que ele gostaria de ser. Foi um ato de coragem e de muita inteligência.

Quando escreveu "Erro de Pessoa: Joana ou João?" [1984], que é um primeiro relato da vida dele, custou a publicar, porque não era uma assunto fácil, ainda mais naquela época.

Depois de publicar, ele foi matéria em jornal impresso e na TV aberta, mas aparecia sempre sem mostrar o rosto. Ele não podia aparecer, não era um assunto que tinha apelo na sociedade e nem muito amparo legal. O maior medo da família era que ele sofresse algum tipo de represália, de agressão."

Depois de anos na invisibilidade, disse: 'Tenho que voltar a falar do assunto'

"Essa questão de gênero e sexualidade ficou anos engavetada na vida dele. Ele se apresentava como homem e vivia a vida dele assim, mas não podia seguir com suas atividades acadêmicas, de professor universitário, profissão que ele exercia antes da transição, porque não usava mais sua documentação de registro, com o nome feminino que recebeu dos pais, e não tinha documentos como João.

Em meados dos anos 2000, principalmente a partir de 2010, começamos a ver sinais de que esse assunto estava ganhando espaço, sendo discutido no meio acadêmico, em algumas mídias.

Um dia, percebeu: 'Tenho que voltar a falar do assunto'. E preparou uma nova edição de sua biografia, 'Viagem solitária: memórias de um transexual 30 anos depois', lançada em 2011. Foi então que ele passou a ser procurado por outros homens trans."

'João teve coragem. E o trabalho dele ajudou a tirar o véu do preconceito'

"'Viagem solitária' foi um livro muito importante para pensar na visibilidade das transidentidades no Brasil. O trabalho dele, assim como de outros ativistas dessa época, ajudou a tirar esse véu da frente desse assunto, desse preconceito.

O livro foi publicado no período em que todo mundo estava entrando no Facebook e o João criou grupos com esses homens que ele conhecia em viagens e que, depois, o procuravam, porque tinham lido seu livro.

Quando a coisa foi crescendo, ele separou esses grupos por estados e, além de conectar homens trans com outros homens trans, também os colocava em contato com profissionais que atuavam nessa área, de gênero e sexualidade, desde médicos e psicólogos até advogados. Ele criou uma verdadeira rede de apoio na internet.

Em determinado momento, ele parou para contar e se deu conta que tinha se conectado de alguma forma com mais de 3 mil homens trans que o procuravam pela internet ou que ele conhecia em eventos."

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