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Ela lançou marca afro-indígena e ensina gestão financeira na periferia 

A empreendedora Ludmyla Oliveira criou a marca Crioula Criativa que exalta a beleza das mulheres negras e indígenas - Arquivo pessoal
A empreendedora Ludmyla Oliveira criou a marca Crioula Criativa que exalta a beleza das mulheres negras e indígenas Imagem: Arquivo pessoal

Mariana Toledo

Colaboração para Universa

20/11/2021 04h00

Ludmyla Oliveira tem 32 anos e é moradora da comunidade de Santa Margarida, na zona oeste do Rio de Janeiro. Administradora de formação, ela montou sua marca de bolsas e acessórios, a Crioula Criativa, a partir de uma dificuldade financeira da família. Quando a mãe precisou parar de trabalhar e a renda diminuiu em casa, ela, que era estagiária, decidiu vender as peças que já produzia por hobby.

Neta e bisneta de costureiras, Ludmyla sempre gostou de moda — chegou a cursar faculdade na área, mas não concluiu — e, ao lado da mãe, Jacira, abriu em 2016 a marca que tem como propósito "exaltar a cultura afro-indígena adornando a beleza das mulheres e contemplando suas singularidades".

Em entrevista a Universa, Ludmyla contou que, no início, a ideia era de produzir apenas bolsas. "Mas começamos a ter muitos pedaços de tecidos que sobravam e não poderiam ser descartados como lixo comum, então ampliamos o negócio para uma linha de acessórios. Hoje, usamos os nossos resíduos e também resíduos de outras marcas, que têm parceria conosco e nos enviam material".

Brincos da marca Crioula Criativa  - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Brincos da marca Crioula Criativa
Imagem: Arquivo pessoal

O negócio começou a partir de um investimento inicial de 300 reais vindos do salário que Ludmyla ganhava trabalhando na área administrativa. O dinheiro foi usado para comprar matéria-prima e dar início ao trabalho. Quando os lucros começaram a chegar, uma parte deles era reservada pra compra de material; a outra, ia para a Dona Jacira e, a outra, era de Ludmyla, que reinvestia na marca, já que ainda tinha um salário fixo.

"Nesse sentido, foi importante eu ter meu diploma em administração. A marca começou corretamente na gestão financeira, tudo foi muito bem mapeado. A grande vitória foi a gente ter saído de uma única máquina de costura e, hoje, ter um ateliê", conta.

Exaltação das raízes

Bolsa e brincos da marca Crioula Criativa  - Arquivo pessoal  - Arquivo pessoal
Bolsa e brincos da marca Crioula Criativa
Imagem: Arquivo pessoal

Os produtos da Criativa são atemporais, inspirados nas cores da natureza, da cultura ancestral e na força da mulher afro-indígena. A avó materna de Ludmyla tinha 12 netos — destes, apenas três negros: Ludmyla, sua irmã e um primo. Mas existe ainda na família um passado indígena que não é totalmente conhecido.

"Meu avô veio da Amazônia e era índio, mas não sabemos exatamente de qual tribo. Já do lado do meu pai, a família toda é negra", explica. "Fomos criadas para nunca abaixar a cabeça, apesar de o termo 'racismo' não ser muito falado. A base da nossa criação era assim: se você quer algo, tem que ir atrás. Se quer muito, desistir não é uma opção."

Quando eu desenvolvi a marca e criei as primeiras peças, comecei a entender algumas coisas relacionadas às minhas raízes. Eu sempre gostei de colorido, mas sempre ouvi que usar muitas cores de uma vez era feio. Decidi, então, que as minhas peças teriam meu DNA

O nome oficial, Crioula Criativa (que mais tarde foi apelidado somente de "A Criativa"), veio do apelido de "crioulinha" que Ludymila e a irmã tinham na infância. "Todo mundo chamava a gente assim. Não era ofensivo. Pelo contrário, era dito de uma forma carinhosa. Do portão de casa pra fora que fui entender que existia um lado negativo".

O racismo, embora não fosse muito falado, era sentido por Ludmyla — esse foi, inclusive, um dos motivos que a fizeram abandonar a faculdade de moda. "Eu estava entre as melhores notas da sala e, mesmo assim, não consegui um estágio na área porque era negra. Ouvi exatamente isso, com todas as letras. Foi quando desisti da moda e fui estudar administração. Não queria mais voltar pra esse universo", relata.

Ao criar a marca, mergulhou nos estudos sobre a cultura afro-brasileira e se aproximou da religião umbandista. "Entrei em contato com tudo aquilo que sempre foi dito como negativo e entendi qual era a potência da minha origem. Ao mesmo tempo, fui passando por uma transição: abandonei as formas de alisar o cabelo. Estudei etnias, aprendi sobre pluralidade. Junto da minha mãe, quis trazer essa união afro-indígena para a marca. Temos criações em tecidos africanos e nacionais. Trazemos esse colorido e queremos valorizar a beleza da mulher negra."

A questão da pluralidade de corpos também é importante para a empreendedora. "Sou uma mulher gorda e, por isso, é importante pra mim trazer mulheres naturais: magras, medianas, gordas. Tento colocar isso em tudo, como nas nossas fotos e editorias".

Viés social e ambiental

Acessórios da marca Crioula Criativa  - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Acessórios são feitos com resíduos de tecidos
Imagem: Arquivo pessoal

A preocupação ambiental é constante na atuação de Ludmyla. Desde o começo, ela foca em usar tecidos naturais, 100% algodão, e usa todos os resíduos, de forma a não desperdiçar matéria-prima. Com o tempo, a preocupação social também foi crescendo e ganhou um espaço importante em sua vida. Inserida no mundo do empreendedorismo, ela começou a participar de encontros com empreendedores e percebeu que existia uma lacuna de informação na questão financeira.

"As pessoas tinham dificuldade em precificar seus produtos. Em 2017, comecei a fazer rodas de conversas com amigas empreendedoras sobre o assunto. Eu tinha um emprego formal na área administrativa e usava meus horários de almoço para essas conversas. Eu tinha lugar de fala, afinal era graduada em administração. Queria aproveitar o aprendizado para ajudar outras pessoas. Foi aí que nasceu o viés social da marca", conta.

Em 2018, Ludmyla participou do AfroLab, o programa de aceleração da Feira Preta, que é o maior evento de cultura e empreendedorismo negro da América Latina. "Lá, conheci a Adriana Barbosa [fundadora da Feira], que era minha musa inspiradora. Ela me colocou à frente de um grupo para falar, pela primeira vez, sobre gestão financeira de forma oficial. Depois nunca mais parei."

No ano seguinte, Ludmyla abriu um curso de costura com taxa social. "Eram apenas três alunas dentro do nosso ateliê — que é um espaço pequeno, não caberia mais gente. Mas aí, veio a pandemia em 2020, que deu uma rasteira em todo mundo".

Confecção de máscaras

Produção de máscaras de tecido - Arquivo pessoal  - Arquivo pessoal
Produção de máscaras de tecido
Imagem: Arquivo pessoal

Com a chegada do coronavírus ao Brasil, Ludmyla viu cada vez mais mulheres da sua comunidade ficando desempregadas. Além disso, teve muito medo do impacto da doença. "Ouvi amigos que trabalham dentro dos hospitais públicos e UPAs da região dizendo que não tinha máscara pra todo mundo trabalhar. Quem era da limpeza ou da segurança estava sem. Eu chorei muito, achei que ia todo mundo morrer."

Passado o susto, decidi transformar a angústia em pesquisa. Fui ver o que países do Primeiro Mundo estavam fazendo. Foi quando descobri as máscaras de tecido. No Brasil, ainda tinha aquela discussão se prevenia o contágio ou não. Mas sou apressada. Li artigos, vi que funcionava e entendi o que eu podia fazer

Então, Ludymila e a mãe deram uma pausa na produção da marca e voltaram seus esforços a ajudar quem estava precisando. Elas produziram 250 máscaras de tecido — inicialmente apenas para entregar para uma amiga levar para o hospital em que trabalhava. Mas a notícia se espalhou e a demanda cresceu rapidamente.

"Eu não tinha como fazer mais. Fiz um vídeo no Instagram pedindo ajuda para a população, para quem tivesse tecido, doasse pra gente. E me propus a ensinar virtualmente como fazer as máscaras. Ficamos em função disso até agosto de 2020".

O trabalho não parou por aí: na mesma época, a Shell abriu um edital para a Rede de Iniciativa Jovem e Ludmyla inscreveu um projeto no qual ela capacitaria mulheres para fazerem máscaras. Foram 20 mulheres capacitadas, 10.500 máscaras produzidas e com mão de obra remunerada para todas as costureiras envolvidas.

Hoje, a marca está entendendo como voltar à ativa: "Ainda não estamos participando de feiras presenciais; seguimos presentes no digital. Lançamos nossa primeira campanha depois da pandemia. Ela se chama 'Brisa', porque acredito que, depois da tempestade, vem uma brisa. Seguimos nos inscrevendo em editais para continuar oferecendo esses cursos de corte, costura e modelagem para a população da zona oeste do Rio e sigo como voluntária em projetos que apoiem o empreendedor."

Para o futuro: inspirar e incentivar

Ludmyla enxerga mudanças pessoais que o trabalho trouxe a ela. "Antes eu tentava me adaptar pra ser aceita numa sociedade que só tentava me diminuir. Mas quando a gente se conecta com a nossa beleza e ancestralidade, se conecta com a nossa força e isso fortalece a autoestima. Toda empresa traz um pouco da essência do seu dono. Mesmo uma multinacional um dia foi um negócio pequeno e precisou do DNA do fundador pra crescer".

A empreendedora faz questão de falar da mãe, que considera sua maior inspiração. "É a pessoa que mais teve perdas na vida e, mesmo assim, nunca deixou de lutar pelo que queria. Se a gente chegou até aqui, foi porque ela não me deixou desistir."

O maior sonho de Ludmyla é levar educação financeira e gestão empreendedora a todo o Brasil, atuando especialmente nas periferias e sendo parceira de projetos que já existem. Além disso, a partir da marca, ela espera construir, nos próximos cinco anos, uma escola de moda na zona oeste carioca. "Quero incentivar crianças a sonharem em ser estilistas, a desenharem tênis pra Nike ou pra marca que elas quiserem. Quero capacitar as pessoas, dar oportunidade pro jovem sonhar alto, e não achar que vai acabar no chão da fábrica".

Esse conteúdo é resultado da parceria entre @facebookapp e @universa_uol no projeto #CompreDelas, de incentivo a mulheres empreendedoras.

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