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'Encontrei o amor da minha vida trabalhando na linha de frente da covid'

A estudante universitária Bibiana Brum - Reprodução/Instagram
A estudante universitária Bibiana Brum Imagem: Reprodução/Instagram

Camila Brandalise

De Universa

20/10/2021 10h32

Na primeira vez que a estudante universitária Bibiana Brum, 27, cruzou com o fisioterapeuta Jivago Amorim, só conseguia ver os olhos dele. "Nós trabalhávamos em uma UTI de covid, e ele passou por mim com aquela roupa de proteção hospitalar. Não sabia quem era, mas senti que tinha alguma coisa nele", conta Bibiana.

Mesmo com a faculdade de Medicina trancada por problemas financeiros, ela não titubeou ao saber que os hospitais de sua cidade, São Leopoldo, na região metropolitana de Porto Alegre, precisavam de voluntários para atuar na pandemia. Por já ter iniciado os estudos na área da saúde, foi designada para trabalhar na triagem de pacientes de covid e na UTI, em abril de 2020.

"Fiquei com medo de contaminar minha família, sentia uma insegurança por tudo que estava acontecendo relacionado à doença, mas quando me chamaram, foi o dia mais feliz da minha vida", relembra. "Por mais que o cenário fosse de caos, era onde eu queria estar, ajudando as pessoas. Sentia que precisava fazer o que deveria ser feito. Ainda assim, foi um momento muito cansativo."

Bibiana Brum com o noivo, o fisiotarapeuta Jivago Amorim: casal se conheceu em UTI de covid - Reprodução - Reprodução
Bibiana Brum com o noivo, o fisiotarapeuta Jivago Amorim: casal se conheceu em UTI de covid
Imagem: Reprodução

Seis meses depois, em outubro, foi quando ela notou o atual noivo pelos corredores do hospital. "Comentei com uma amiga fisioterapeuta, que também era amiga dele, que tinha me interessado. Falei que, se ele estivesse solteiro, era para ela passar meu telefone. Mas deu uma semana e não recebi mensagem nenhuma", conta Bibiana. "A gente se encontrava pelos corredores e eu morria de vergonha pensando: 'Meu Deus, tomei um fora'."

'Foi um Tinder ao vivo'

Mas o match veio poucos dias depois. "Em um sábado em casa, recebi uma mensagem e era ele perguntando como eu estava, falando que eu era séria, que nunca tinha cumprimentado ele. Começamos a conversar e não paramos mais. Virávamos noites trocando mensagens e descobrimos inúmeras afinidades", diz. "Brinco que foi um Tinder ao vivo."

O que até então eram apenas conversas virtuais se concretizou em um dia em que Bibiana precisava ir até o hospital e Jivago ofereceu carona até a casa dela. Uma tempestade caía na capital gaúcha, o que fez com que ela o convidasse para passar à noite na casa dele. "Foi por preocupação, mas dormimos juntos", conta.

No outro dia, ele disse que iria para casa trocar de roupa para ir trabalhar. Segurei o braço dele e disse: 'Se não quiser ir embora, não precisa'. No mesmo dia, mais tarde, ele chegou com uma mochilinha de roupa e nunca mais nos separamos.

"Foi tudo muito rápido", ela admite, "mas foi um encontro verdadeiro. A gente teve alguns conflitos, mas sempre teve muita compreensão. Nós estamos juntos há um ano, noivos e, no mês que vem, pretendemos marcar a data do casamento."

'Motivamos um ao outro para enfrentar a pandemia'

Bibiana não romantiza a pandemia por ter encontrado o amor de sua vida justamente nesse período tão delicado e trágico para centenas de milhares de brasileiros. E diz que a força que os dois davam um para o outro para enfrentar a rotina pesada do hospital estreitou o laço de afeto atado desde as primeiras conversas.

"A pandemia resume um laço de coragem muito importante que estabelece a nossa relação. Vivemos um momento de muita incerteza, mas foi uma união de propósitos. Ele, designado para fisioterapeuta, e eu, para ser uma futura médica", diz.

"Acompanhamos um cenário de horror. Toda vez que entrava no setor de covid, tinha uma sequência de cadáveres. Tivemos que aprender a ver cenas muitos tristes de morte, mas ao mesmo tempo ter uma motivação maior, a de ajudar as pessoas a enfrentarem esse momento."

O sentimento de desespero por ver fileiras de leitos cada vez mais cheias vinha à tona quando ambos chegavam em casa. "Não dava para desistir. Se um de nós recuasse, o caos iria aumentar. Por isso, a gente sempre se ajudava nesse sentido, mostrando o quanto nosso trabalho era importante. A palavra que resume nossas conversas foi motivação."

Conexões mais profundas

Para Bibiana, os dois também se reconheceram por suas histórias de vida. "Ele também vinha de uma família com alguma dificuldade financeira, como eu. Me encantei também porque, pela primeira vez, alguém estava disposto a me conhecer de verdade", diz.

O desejo de conhecer as pessoas de maneira mais profunda, é, inclusive, uma das lições que a pandemia nos deixa, na opinião da estudante.

A pandemia nos fez querer ter mais sentido na vida, nas relações. Com o afastamento físico, só ficaria o vínculo mental e emocional. Por isso, acho que o momento nos afastou de relações superficiais e nos faz querer ter conexões mais profundas.

Além de encontrar o amor, Bibiana conta que também reencontrou a paixão pela Medicina, adormecida desde que teve que trancar os estudos. "Estou estudando para conseguir uma bolsa e voltar para a faculdade. E nisso ele me incentiva muito, pergunta se já estudei e diz que sou aprendiz da melhor médica."

Um presente especial

Em um vídeo que viralizou nas redes sociais, Bibiana aparece contando sua história com o noivo de maneira resumida e mostrando o presente dado a ele, que representava o forte laço entre os dois: um anel de formatura.

"Queria dar algo especial para comemoração de um ano de namoro. Um dia, ele me contou que na formatura, todos os colegas ganharam um anel com a pedra da profissão, menos ele, porque a família não tinha condições financeiras. Então eu fiz essa surpresa, dei um anel para ele e disse que nunca mais estará sozinho", conta.

"Tinha uma época em que eu via as pessoas namorando e me perguntava: 'O que eu tenho de errado que as coisas não acontecem pra mim?'. Mas, hoje, vejo que era para ter sido assim. Queria que a pessoa que aparecesse na minha vida me desse um sentido, tanto que, quando o encontrei, decidi voltar para a Medicina. Temos uma intimidade e uma entrega que não tive com ninguém antes. Agora eu posso ser de verdade."

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