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Tasha e Tracie, 'brabas' do rap: "Homens se incomodam porque somos livres"

Tasha e Tracie lançaram no começo de agosto EP "Diretoria"; para Universa, falam da experiência de serem mulheres negras na cena musical - Reprodução/Instagram/@stefflima/
Tasha e Tracie lançaram no começo de agosto EP "Diretoria"; para Universa, falam da experiência de serem mulheres negras na cena musical Imagem: Reprodução/Instagram/@stefflima/

Nathália Geraldo

De Universa

29/09/2021 04h00

As gêmeas Tasha e Tracie Okereke sempre quiseram usar suas vozes e imagens para elevar a autoestima de mulheres negras. O primeiro passo foi a moda: em 2014, faziam sucesso com um blog de referências de estilo, que teve reconhecimento internacional, com a forma com que as irmãs se vestiam sendo referência para marcas e veículos de entretenimento.

Em 2019, as gêmeas invadiram a na cena musical de São Paulo e passaram a fazer rimas. As "brabas" exaltam a cultura periférica, de onde vieram, fazendo conexões com a música. No final de agosto, lançaram o EP Diretoria, em que falam de relacionamento, sexo, dinheiro e poder, sem deixar de valorizar as referências na arte e na vida e dialogarem com jovens negras. "Parte do nosso trabalho é sobre fazermos coisas que queríamos ter tido na adolescência. É muito gratificante ouvir de mães e pais que que as filhas gostam do próprio cabelo por causa da gente", contam, em entrevista a Universa.

Na pandemia, quando se questionaram se seria possível continuar vivendo de música, deram uma injeção de autoestima em muitas outras mulheres negras, que ouvem as faixas sobre gostar de si mesma e ter boas relações sem perder a pose de marra.

Aos 26 anos, a dupla conta que tem aprendido a lidar com a cobrança por serem tão livres para falar o que os homens já falam há muito tempo, tanto no rap quanto no funk. Em entrevista para Universa, Tasha e Tracie comentam ainda sobre machismo, racismo, sucesso e moda.

tasha e tracie - Reprodução/Instagram/@stefflima - Reprodução/Instagram/@stefflima
As rappers Tasha e Tracie, que lançaram o EP "Diretoria" em agosto
Imagem: Reprodução/Instagram/@stefflima

UNIVERSA - Qual é o lado bom e o ruim de ser "Mulher Preta Independente de Favela", como vocês se definem?
Tracie - A parte boa é que a gente não espera muito das pessoas. Temos sempre que estar na disposição.

No fim, quem cuida da mulher preta é outra mulher preta. A parte ruim é que a gente é a mais desrespeitada sempre, indo bem ou mal no trabalho.

Na nossa área, haverá a maior artista, que provavelmente vai ser branca, e a 'maior artista negra', que possivelmente não chegará nem perto da outra artista em termos de visibilidade, streamings.

Tasha - A gente é o topo espiritual, mas também a base. É ter uma benção e uma maldição ao mesmo tempo.
Estar na base da pirâmide faz com que todo mundo pise na gente. É um trabalho maior porque a gente não tem quem cuide da gente. Nosso psicológico é testado o tempo inteiro, somos hipersexualizadas o tempo inteiro e ainda temos que ter fortalecimento emocional para isso.

Já estive em muitos lugares que sentia que não tinha inteligência emocional, nem para quem pedir ajuda. Essa é a realidade de muitas mulheres pretas no Brasil. Estão à frente das casas, até mesmo quando é adolescente. A mina vê a mãe trabalhando e já sabe que depois ela quem será provedora. A mulher preta precisa ter uma disposição a mais.

Em que nível o machismo e o racismo já impediu que fizessem coisas do dia a dia?
Tasha -
Agora que estou morando em um bairro diferente, vejo alguns restaurantes que tenho vontade de comer. Aí, tem um dia que tenho R$ 10 mil no bolso, feliz, vou lá, me visto bem... Só que não saio contando que todos os garçons vão me ignorar e que vou ficar uma hora esperando atendimento em um lugar vazio, sabe? Depois de um tempo que eu noto: 'Será que está acontecendo por que eu sou preta?'. Isso já aconteceu tanto comigo, que, às vezes, prefiro ver o que tem no aplicativo de entrega e pedir em casa. Ou ir em um lugar que não é tão chique.

Tracie - Quando saio com meu marido, que também é preto, passo pela mesma coisa. Já fomos maltratados em tantos lugares...

Essa semana, levamos nossa mãe, que é branca, em restaurantes chiques que ela queria ir, mas foi muito mais difícil do que prazeroso. E nem sempre você está com essa força para fazer algo que é banal.

Qual é a importância da moda para se expressarem?
Tasha -
É algo afetivo. Uma peça, uma textura e um molde podem nos fazer lembrar várias coisas. E não consigo dissociar de música. É com elas que me expresso passando uma mensagem. E mesmo que você não goste de moda... A escolha do seu tênis ou o fato de não poder escolher um tênis, ligado? Tudo isso conta sua história.

Tracie - Para mim, é conforto. Nosso processo na moda teve muito brechó, onde conseguimos paradas mais autênticas, já que todos os lugares vendem a mesma coisa. Então, dá para se divertir mais e, inclusive, com um estilo sustentável.

Como foi o processo de construção de autoestima das duas?
Tracie -
Na verdade, nem sempre temos autoestima, mas a gente tem confiança no nosso trabalho.
Mas o processo é uma coisa recorrente, não sei se uma dia vai ter 100%, até porque tem aquela síndrome de impostora.

Tasha - Quando me perguntam, sei tudo que aconteceu ali na música, o que escrevi, o beat. Musicalmente, sempre fui fiel a mim.

Como se sentem influenciando na autoestima de meninas por verem a postura de vocês como artistas?
Tracie -
É muito gratificante, parte do nosso trabalho é sobre fazermos coisas que queríamos ter tido na adolescência. E tem mães e pais que falam, com brilho nos olhos, que as filhas são nossas fãs, que elas acabam gostando do próprio cabelo por causa da gente.

E tem muita mulher mais velha que gosta do nosso trabalho, do mesmo jeito que a gente se inspirou em outras e na música. A gente acredita no poder da música de transformar nossa vida e afirmar as coisas. E a gente sabe que a vida da mulher é um eterno teste, todo mundo quer que você se encaixe em algum lugar...

É muito legal ver elas dizendo que ouvem nossa música e se sentem mais gostosas. É tudo que a gente queria.

Tasha - Sobre os adolescentes, a gente vê nossa irmã se inspirando na gente, sendo quem ela é, com o estilo de roupa que ela quer ter. Ela também está usando o sobrenome dela no Instagram. Na nossa época de adolescência, sentíamos vergonha do nosso, das coisas ligadas à cultura africana, porque as pessoas zoavam. A gente passar as coisas de maneira bonita e falar do nosso lugar é muito bom.

Ainda sentem Síndrome de Impostora em algum momento?
Tracie -
O tempo inteiro, principalmente quando algum ídolo nosso vem falar do nosso trabalho. E isso também surgiu quando percebemos que estávamos gastando dinheiro para tapar esse buraco, para compensar. Era uma felicidade que durava pouco, e estamos há seis anos na vida de artista, com sobe e desce... Então, tudo isso desperta uma síndrome de postura.

Tasha - Descobri como lidar com isso um pouco mais cedo e com livro de autoajuda. Na escola, me sentia muito burra porque não acompanhava nada, e ainda vivia um contexto de ser gêmea, nosso pai ser nigeriano... Então, era tudo muito diferente. Me sentia a estranha. Aí, comecei a ouvir essa voz que dizia que não era capaz e passei a discutir com ela.

Vocês foram questionadas na internet porque falam de sexo nas músicas do EP. O que acham dessas cobranças?
Tasha -
Essas cobranças não são sobre mim, é sobre quem cobra. Felizmente, a gente tem muito fundamento no que faz, então não chega nem perto de ser absurdo o que falamos nas músicas. Porque quando se fala de hip hop, tem o Tupac,, o Eminem, fazendo essa mesma coisa e ninguém fala nada.

As pessoas falam porque a gente é mulher. Só que vamos trazer essa normalidade e essa vibe, sim, porque é o rap dos anos 80 e 90 de que gostamos e que está sendo feito pouco aqui no Brasil, até por medo das minas de serem recebidas desse jeito. Mas não adianta eles falarem que é estranho o que estamos fazendo.

Estranho seria se estivéssemos fazendo um rap sobre flor, abelha, amor... Dessa vez, a gente quis falar de sexo com leveza.

Tracie - A gente sabe que há homens que estão incomodados com o espaço em que estamos e porque somos livres e não temos vergonha. E ainda falam sobre nossa música porque dizem que estão pensando nas crianças que irão ouvir. Mas, se o filho é deles, eles que precisam escutar o que ouvem. Nem todo conteúdo é para criança.

Em algumas músicas, vocês falam de 'inimigas', como se houvesse competição entre as mulheres. De onde vem esse discurso?
Tracie -
Geralmente, nossa rivalidade é generalizada, de humilhar qualquer coisa, com a rima. Mas tem alguns conteúdos para quem já fez mal para a gente, atacando na internet ou usando nosso nome para promover trabalho. São minas que já tentaram fazer alguma coisa assim com a gente, mas não é rivalidade.

Tasha - Nessas letras, sempre atacamos a falta de foco da outra pessoa. Na 'Agouro', por exemplo, falamos que a própria inveja da pessoa a ofusca, que ela não pensa no progresso dela mesmo... Até porque sempre tentamos fechar com as minas.

Qual foi o impacto da pandemia na carreira de vocês?
Tasha -
A pandemia começou em março, no mês da mulher em que geralmente a gente trabalhava mais. Isso foi um baque, gerou medo de ter que parar de fazer arte. Foi difícil para a gente manter a sanidade mental. Eu estava muito mais engajada nos problemas sociais, mas precisei parar de ver o noticiário, por exemplo. Não vi mais esses vídeos de violência policial, que são gatilhos... Mas, segurei, por causa da minha saúde mental.

Ao mesmo tempo, a gente sabia que não podia parar, porque senão seríamos esquecidas. Os caras se juntam mais, ficam juntos no estúdio. A gente, não.

Na gravação do podcast "Podepah", a Tasha foi alvo de muitos comentários de assédio de homens porque estava sem sutiã. Comentários machistas e racistas chegam até vocês?
Tasha -
Nós fomos as primeiras mulheres que participaram do podcast, que é bastante assistido pelos 'quebrada'. Só que até alguns dias atrás, não tive coragem de ver. A participação marcou e nos ajudou na carreira, mas não tinha conseguido ver porque parece que as pessoas na internet querem fazer com que a gente se sinta mal. O pior é que eu já sabia que isso ia acontecer...

Vira uma coisa do dia a dia, infelizmente. Eu fiquei triste, nervosa no primeiro dia. Mas, decidi que não vou mais ficar lendo comentários. Queria responder meus fãs, mas isso é pela minha sanidade mental.

Tracie - Desde que começou nossa carreira, a gente não vê os comentários. Porque eram sempre muito racistas. Ficávamos felizes por um bagulho, mas depois ficávamos tristes. Em 2019, quando participamos do maior festival de trap do Brasil, isso também aconteceu... Todos os comentários eram chamando a gente de "macaca", "neguinha". Então, preferimos os feedbacks na rua, dos fãs e amigos.