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Ela coreografou Anitta em clipe: "Pega tudo rápido, por isso está no topo"

Anitta no clipe de "Girl From Rio" - Mar + Vin/Divulgação
Anitta no clipe de 'Girl From Rio' Imagem: Mar + Vin/Divulgação

Alan de Faria

Colaboração para Universa

30/06/2021 04h00

Anitta costuma ela mesma desenvolver coreografias junto com suas bailarinas para os shows que faz — como pode ser visto no documentário "Made in Honório", da Netflix. Mas, para o recente clipe de "Girl From Rio", que já tem mais de 28 milhões de visualizações, a cantora contou com a ajuda de uma bailarina que já integrou um dos maiores grupos de dança do país, o Corpo, para desenvolver os passos apresentados ali: Cassilene Abranches, a Cassi.

Quando foi chamada inicialmente para o trabalho pelo diretor criativo Giovanni Bianco, a coreógrafa paulistana estava desenvolvendo uma montagem para a São Paulo Companhia de Dança. Mas, como a gravação do clipe foi adiada, e ela conseguiu trabalhar no projeto.

O primeiro passo da coreógrafa foi indicar bailarinos para o trabalho: Jovani Furlan, do New York City Ballet, Gabriel Lopes, solista de uma companhia de dança russa, Bruno Silva, irmão da bailarina Ingrid Silva, e Luiz Oliveira, do Balé da Cidade de São Paulo.

No Rio, ciente de que Anitta não teria agenda para participar dos ensaios, Cassi trabalhou com os bailarinos e uma garota que atuou como dublê de corpo da cantora, durante dois dias. "Mas você não acredita na sagacidade da Anitta. Não à toa ela é o que é hoje. Ela chegou pronta para gravar e me perguntou: 'O que eu preciso fazer?'", lembra,

Mostramos a coreografia com a dublê uma vez, uma segunda vez... Logo em seguida, ela virou para mim e falou: 'Acho que já posso tentar. Você me orienta pelo microfone?' Na primeira vez, ela esteve um pouco contida. Na segunda, já entendendo as marcações, soltou-se mais, e, na hora do valendo, pronto, aconteceu. A leitura visual da Anitta é impressionante.

cassi abranches - José Luiz Pederneiras/Divulgação - José Luiz Pederneiras/Divulgação
A coreógrafa paulistana Cassi Abranches integrou o Grupo Corpo e criou espetáculos para a São Paulo Companhia de Dança
Imagem: José Luiz Pederneiras/Divulgação

Integrante do Balé da Cidade de São Paulo, Luiz Fernando narra que, mesmo ciente da grandiosidade do clipe — Anitta já disse que "Girl From Rio" teve o orçamento de um filme —, Cassi conseguiu tranquilizar os bailarinos que contracenavam com a cantora. "Isso foi fundamental para que todos ficassem focados no que tinham de fazer. Imagine se eu deixo cair a Anitta dos meus braços?", diverte-se.

Dançou em shows de Chitãozinho & Xororó e jogou futebol

Ao topar trabalhar com uma artista pop como Anitta, Cassi enxergou ali uma oportunidade importante para a arte da dança. "Considerando, claro, critérios artísticos, vou sempre dizer sim a projetos por meio dos quais eu possa levar a dança para o maior número de pessoas. No clipe 'Girl From Rio', a dança não é a protagonista, a estrela é a Anitta, mas a dança está inserida naquele contexto."

Desse modo, é possível entender também o "sim" dado ao estilista Ronaldo Fraga ao aceitar assinar a coreografia da comissão de frente da escola de samba Canto da Alvorada, em Belo Horizonte (MG), no Carnaval 2020. "Para artistas do calibre da Cassi, não há limite, independentemente da plataforma e do material humano", diz ele.

Ou até mesmo o "sim" ao convite para criar, por meio do Zoom e com o auxílio de uma tradutora, uma coreografia para um casal de bailarinos profissionais da Rússia em uma competição de um programa televisivo de lá. Desde janeiro de 2019, Cassi tem uma agente na Europa que a mantém informada sobre possíveis trabalhos no exterior.

Outro momento em que Cassi flertou com um gênero musical popular no Brasil foi entre 1996 e 2000, quando foi bailarina de Chitãozinho & Xororó. "Já tinha a consciência de que o showbusiness poderia ser uma área que poderia remunerar os profissionais da dança", diz.

Nesse período, ela também fez parte de três companhias diferentes e ainda estudou administração, curso parcialmente pago graças a uma bolsa de estudos obtida não pela dança, mas, sim, por jogar futebol. "Sempre gostei de esportes, é uma paixão que herdei do meu pai, que era santista e me levava aos jogos", revela.

"Eu gosto de gente"

Filha mais velha de um pai contador, falecido quando ela tinha 15 anos, e de uma professora aposentada do ensino fundamental, Cassi, que passou a infância nos bairros Água Fria e Horto Florestal, ambos na zona norte paulistana, começou a dançar aos três anos.

O que poderia ser uma brincadeira infantil foi ficando cada vez mais sério, a ponto de seu pai, quando ela tinha cerca de 11 anos, realizar sua inscrição na Escola Municipal de Bailados. Ele também passou a assinar a "Dançar", primeiro periódico da América Latina dedicado especialmente à dança. Foi nesta revista que ela tomou conhecimento da Raça Cia. de Dança. "Foi quando fiquei curiosa em fazer outra coisa que não fosse somente a dança clássica." Ainda na adolescência e início da fase adulta, passaria pelo Raça, o Balé do Teatro Castro Alves, em Salvador (BA), e também o Balé do Teatro Guaíra, em Curitiba (PR).

Paralelamente, fazia faculdade de administração. Plano B? Cassi afirma que não, salientando que as disciplinas que mais a fascinavam eram aquelas relacionadas aos recursos humanos. "Eu gosto de gente", esclarece. "Sempre fui a representante da turma, a que estava à frente de iniciativas, pois conseguia ser um canal de conversa." Esse aprendizado acadêmico, ela crê, foi de suma importância em um dos grandes desafios de sua carreira: a direção de movimentos da cerimônia de abertura da Paralimpíada da Rio 2016.

"Lá, eu tive de dirigir 80 bailarinos, 12 assistentes e 3.000 voluntários. Um trabalho de gestão de pessoas no mais alto nível", lembra. Neste projeto, contou com nove mulheres e três homens como assistentes.

Como em toda área, porém, reconhece que as mulheres ainda são minoria em cargos de chefia. Assim, ela, que desde 2010 comanda a Blecaute Produções ao lado do marido, Gabriel Pederneiras, e outros dois sócios (Janaína Castro e Atilla Gomes), tem procurado preencher suas equipes com o maior número de profissionais do sexo feminino. "Até costumo dizer ao Gabriel que, muitas vezes, ele vai ser o único boy na linha."

Ao longo de quase três décadas de carreira — Cassi tem 46 anos -, ela confessa que felizmente nunca precisou lidar com situações de machismo ou qualquer tipo de assédio por ser mulher. "Mas não vou dizer que isso não existe. Sabemos que há quem queira te prejudicar e atitudes machistas, infelizmente, em todas as áreas."

Grupo Corpo

Fato fundamental em sua trajetória, tanto pessoal quanto profissional, foram os 12 anos, de 2001 a 2013, em que integrou o Grupo Corpo. "A Cassi era uma bailarina muito precisa, muito requisitada em duos", lembra Janaína Castro, também sua companheira na companhia de Belo Horizonte.

Por lá, Cassi enaltece dois espetáculos. "Lecuona", de 2004, que tornou suas qualidades como bailarina mais evidentes, e "Sem Mim", de 2011, que selou sua carreira em cima do palco. Esta aposentadoria não aconteceu devido a alguma lesão ou a dores. Até então, ela só havia interrompido sua carreira como bailarina, aos 32 anos, ao engravidar de Pedro, fruto de seu casamento com Gabriel, filho de Rodrigo Pederneiras, coreógrafo e fundador do Corpo. Eles começaram a namorar em 2003 e se casaram em 2006.

"É comum as bailarinas postergarem a gravidez. Algo frequente também na vida de todas as mulheres que, em qualquer carreira, são levadas a acreditar que precisam se firmar na profissão, consolidar-se nela e, enfim, pensar na maternidade", justifica. Sete anos depois de Pedro, e já fora dos palcos por decisão própria, daria à luz Estela.

O desejo de parar ocorreu, segundo ela, porque havia perdido interesse no processo criativo. "Era uma delícia ensaiar para um novo espetáculo. Mas, depois de sua estreia, tudo soava igual para mim". Em 2009, ela criou a sua primeira coreografia para o Balé Jovem Palácio das Artes, também de Minas. Já atuando só como coreógrafa, iniciaria, em 2013, uma parceria de sucesso com a São Paulo Companhia de Dança. Em sete anos, assinou quatro montagens do grupo paulistano.

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