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São Paulo ganha primeira livraria só com obras de autoras

Johanna Stein, fundadora da livraria Gato Sem Rabo, posa dentro do espaço, localizado no centro de São Paulo - Divulgação
Johanna Stein, fundadora da livraria Gato Sem Rabo, posa dentro do espaço, localizado no centro de São Paulo Imagem: Divulgação

Mariana Gonzalez

De Universa

18/05/2021 04h00

"Corrigir um buraco na história". Esse é o objetivo da livraria Gato Sem Rabo, a primeira do Brasil apenas com livros escritos por mulheres, que abrirá as portas nesta quarta (19), na Vila Buarque, região central de São Paulo. O espaço foi concebido por Johanna Stein, ex-modelo catarinense formada em artes visuais.

"As mulheres sempre escreveram muito, sobre diversos assuntos, mas estavam condenadas a obrigações sociais que as mantinham longe da produção literária. Nós conquistamos mais espaço, mas ainda existe um vazio, um buraco na história, e a gente precisa garantir que nenhuma mais seja deixada para fora das prateleiras das livrarias", afirma Johanna a Universa dias antes da abertura da Gato Sem Rabo.

O nome faz menção a um ensaio de Virginia Woolf (1882-1941), em "Um Teto Todo Seu" (1929), que descreve a presença das mulheres na literatura como algo tão estranho quanto um gato sem rabo. Apesar de ter sido escrita há quase um século, a ideia permanece bem atual, já que, até 2014, mulheres eram apenas 30% das autoras dos livros impressos no Brasil, segundo um estudo da professora Regina Dalcastagnè, da Universidade de Brasília.

Mas Johanna acredita que esse dado está mudando: "Existe um movimento impulsionado pelos leitores de demandar literaturas sob outras perspectivas, o que inclui não só mulheres, mas autores negros e que vivem no sul global."

 artista visual Johanna Stein é a idealizadora e dona da livraria - Divulgação - Divulgação
A artista visual Johanna Stein é a idealizadora e dona da livraria
Imagem: Divulgação

A relação entre ela e os escritos de mulheres, como chama os livros, é antiga: "Fui buscando leituras de escritoras e pensadoras que eu pudesse considerar meus pares. Essa busca começou a partir do interesse de compreender o mundo pela perspectiva de outras mulheres, especialmente as que estão no sul global, como eu".

"Comecei a compilar esses livros sem saber muito bem o que ia virar, mas sempre com esse recorte do que estava sendo escrito por mulheres", lembra. "Essa lista foi crescendo, poderia virar uma coleção, uma biblioteca, mas, por conta da nossa relação com o bairro, decidimos transformar em livraria."

Resistência dos pequenos negócios

A loja, localizada ao lado do Minhocão, promete ser "um espaço calmo, de pausa, mesmo numa rua tão movimentada", a Amaral Gurgel. O local terá uma cafeteria e espaço para encontros quando a pandemia permitir aglomeração — até dia 29, os clientes não poderão "passear" entre os livros, apenas fazer pedidos no balcão ou por WhatsApp, com retirada no local, no formado conhecido como take away.

Por lá, leitoras e leitores vão encontrar obras de autoras dos mais diversos segmentos, do romance e da poesia à ciência política, passando também pelas áreas de exatas.

Projeto da livraria Gato Sem Rabo, que abrirá as portas nesta semana no centro de São Paulo - Vapor Arquitetura/Divulgação - Vapor Arquitetura/Divulgação
O nome da livraria foi tirado de um conto da escritora Virginia Woolf
Imagem: Vapor Arquitetura/Divulgação

A ideia, ela conta, é que a livraria seja uma curadoria viva, ou seja, que o catálogo vá se transformando conforme "as urgências do presente e a importância do passado". "Nossas livreiras estão sempre sugerindo novos temas, levantando assuntos quentes e descobrindo nomes que não ganharam a visibilidade que mereciam."

Um time de quatro pessoas será responsável por tocar o dia a dia na Gato Sem Rabo: Johanna, duas livreiras e uma pessoa no financeiro.

A crise econômica em decorrência da pandemia de covid-19 — que está fazendo grandes redes de livrarias diminuírem consideravelmente de tamanho — não assusta a catarinense: para ela, esse é um momento de resistência dos pequenos negócios.

"Foi um período catastrófico para a economia, mas a gente vê aqui no bairro [Vila Buarque, no centro de São Paulo] um movimento de retomada dos pequenos negócios e de fortalecimento das livrarias de rua", afirma. "Acreditamos que a experiência de comprar em uma livraria de rua é inalcançável: caminhar até lá, estabelecer conexão com o bairro, conversar com as livreiras, ouvir sugestões. Por mais que a gente esteja no centro da maior cidade do Brasil, a gente consegue manter uma vida de rua muito especial. Esse é o tipo de relação com a cidade que nós queremos."

De fato, na região em que a Gato Sem Rabo vai funcionar, há pelo menos outras três livrarias abertas, além de alguns cafés, salões de beleza e empórios, todos pequenos empreendimentos, com cara de comércio de bairro. Há, também, quatro faculdades que podem ajudar a movimentar o fluxo de leitores quando as aulas presenciais voltarem a acontecer.

Três livros para conhecer novas autoras

Johanna indica três obras que gosta para clientes leitoras que querem conhecer novas autoras — um de poesia e dois de contos.

  • "A Teus Pés", da Ana Cristina César;
  • "Um Exu em Nova York", da Cidinha da Silva;
  • "A Fúria: e Outros Contos", da Silvina Ocampo. "A autora argentina é uma das melhores contistas que eu já li", elogia.

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