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"Mulheres independentes também sofrem por amor", diz autora de "Copo Vazio"

Natalia Timerman é psiquiatra e autora do livro "Copo vazio" - Renato Parada
Natalia Timerman é psiquiatra e autora do livro "Copo vazio" Imagem: Renato Parada

Júlia Flores

De Universa

19/02/2021 04h00

Mirela, uma mulher inteligente e bem-sucedida, conhece Pedro pelo Tinder. Eles se envolvem, ela se apaixona e Pedro, de repente, desaparece. E Mirela fica angustiada sem saber o motivo do abandono sem maiores explicações. No livro da escritora Natalia Timerman, "Copo vazio", a personagem principal, assim como muitas mulheres, sofre um "ghosting" (em português, algo como "tornar-se fantasma"), o que nas relações modernas, significa "levar um fora" sem que haja um término - a pessoa, do nada, some de sua vida.

Natalia é psiquiatra pela Unifesp e mestre em psicologia e doutoranda em literatura pela USP. Em 2019, sua coletânea de contos "Rachaduras" foi finalista do Prêmio Jabuti, uma das principais premiações da literatura brasileira. Dois anos antes, ela já havia escrito "Desterros", em que relata as incertezas, angústias e sofrimentos do sistema carcerário nacional.

Em "Copo Vazio", Natalia escreve sobre a brevidade dos relacionamentos modernos, mas não se limita a isso. O romance se propõe a investigar como as mulheres contemporâneas lidam com o abandono. Comparada com Elena Ferrante, popular autora italiana e uma das mais contempladas da atualidade, a escritora brasileira escreve 140 páginas sobre um assunto que há tempos permeia o imaginário feminino e confronta até a mais feminista das militantes: por que dependemos tanto de relações amorosas?

UNIVERSA: "Copo vazio" aborda a efemeridade das histórias de amor de hoje. Por que você decidiu escrever sobre isso?

Natalia: Essa coisa de conhecer e se envolver muito rápido com uma pessoa, e essa pessoa poder ir embora, é algo que já se acontecia. Por exemplo, no livro 'Razão e Sensibilidade', de Jane Austen, a personagem principal da obra, Marianne, sofre ghosting. Eu li esse livro depois de escrever o 'Copo Vazio' e fiquei impressionada com as semelhanças. Comecei a perceber uma recorrência deste tema nos meus atendimentos como psicoterapeuta. Via mulheres independentes se desfazendo - homens também, mas principalmente mulheres - diante de um abandono, diante de uma recusa. É algo difícil de entender. Eu também já passei por isso e é algo que todo mundo já passou. Via mulheres feministas, empoderadas, vivendo o mesmo sentimento, e o fato de elas estarem sentindo isso as deixava ainda piores. Saber da própria fraqueza, mesmo não querendo estar nessa posição.

Temos pistas durante todo o livro de que a personagem principal gosta mais do parceiro do que ele dela. Ainda assim, ela não vê isso. Por que idealizamos tanto nossos relacionamentos?

É algo que aprendemos ao longo da nossa formação, e acredito que esteja mudando. Talvez as gerações futuras sofram um pouco menos com isso.

A gente aprende, principalmente as mulheres, que só somos alguém dentro de um relacionamento. A própria expressão 'marido e mulher' é problemática, como se só nos tornássemos mulher depois de casadas.

Esse conceito está se transformando nos novos filmes, nos contos de fada. Eu vejo pelos meus filhos. Essa coisa da princesa que precisa ser salva está fora de moda, como se ela só pudesse existir com um homem. Essa idealização está presente no nosso imaginário. O peso de ter que estar em um relacionamento acaba sendo quase uma questão de vida e morte. O risco de perder a pessoa acentua essa insegurança, como se perder o parceiro fosse perder a si mesma - e não é isso, mas a gente vive como se fosse.

Essa dependência pode acabar?

Acho que temos feito isso aos poucos, mas é intrínseco. Todos somos uma falta, desde o momento em que a gente nasce, e talvez tenhamos que entender este conceito. Que a gente vai continuar sendo essa falta mesmo do lado de alguém. É o contrário de achar que a gente se basta. Não, a gente não se basta: a gente vive em sociedade, precisamos do outro, a gente cresce com outras pessoas, a gente aprende, a gente ama, mas a gente sempre vai ter essa falta, esse buraco. Precisamos aprender a lidar com esse vazio. As redes sociais e a internet dificultam esse aprendizado. Por um lado estamos avançando, por outro tem a internet.

Hoje em dia temos novos códigos para o desinteresse amoroso, como ignorar, bloquear, restringir nas redes sociais. Isso é pior do que o "antigo dar o fora"?

Temos que ampliar nossa vida além da internet. Sei que na época de pandemia isso é mais difícil, mas precisamos ter espaços da vida, e do dia, sem internet. Isso é cada vez mais complicado. Percebo isso em mim mesma, o quão é difícil ter um momento sem ter vontade de postar, quase que como se vivêssemos para compartilhar os momentos. Perdemos muito com isso, perdemos um lugar que é nosso, que é justamente o que pode nos amparar na solidão.

O que a gente precisa é ampliar nossos espaços offline e nossos momentos de falta. Por exemplo, a gente para em um semáforo e olha o celular. A gente não consegue mais ter momentos de vazio, de espera e de tédio, que podem nos abrir para o entorno.

Isso é a gente se dizendo o tempo todo que não consegue lidar com o vazio. A internet é uma tentativa de tampar um buraco que é intampável.

"Copo vazio", nova obra de Natalia Timerman - Divulgação  - Divulgação
"Copo vazio", nova obra de Natalia Timerman
Imagem: Divulgação

Apesar de tantos avanços femininos, o amor romântico ainda parece ser uma preocupação que ocupa mais a mente das mulheres que a dos homens. Como equiparar essa equação?

Precisamos povoar nosso imaginário com outras coisas - o filme "Moana" é um bom exemplo, uma mulher independente que não precisa de homem. A própria Simone de Beauvoir no livro 'A mulher desiludida' fala de personagens mulheres devastadas com o fim do relacionamento. Precisamos falar, sim, sobre este tema. Por isso eu acho que o 'Copo vazio' tem a sua importância por colocar a pauta em questão. A gente precisa olhar para essa mulher que sofre. Fico impressionada com a quantidade de pessoas que têm me escrito para dizer que se reconhecem na história. Homens também me escrevem. Eles estão um pouco perdidos...

Não sei se é possível desconstruir essa dependência do amor romântico completamente, mas isso tem sido discutido. Tem muito de cultural, de aprendizado, não sei se tem algum elemento natural. Somos atravessadas por hormônios e ciclos que os homens não são, então acho que isso interfere, mas vejo mais como uma pressão social, uma mistura de fatores.

Em vez de homens e mulheres, no amor a gente pode falar de "postura feminina" e "postura masculina", psicanaliticamente falando. Mas, por exemplo, homens se juntam e não ficam falando sobre relacionamentos - até falam, mas bem menos do que nós mulheres ficamos falando sobre aventuras amorosas.

Somos condenadas a "sair do eixo" após relacionamentos fracassados?

Não acho que é uma condenação, mas uma possibilidade de resposta ao fracasso do relacionamento. O companheiro, a pessoa que vai embora, que desiste, a maneira como essa pessoa age também influencia na nossa resposta. Quando você oferece alguma coisa para alguém e essa pessoa não pega, aquilo cai no chão. Ou quando você está apoiada em algum lugar e aquele lugar desaparece, você também cai. Então a resposta da outra pessoa também pode mudar a maneira como reagimos. É que nem sempre podemos prever isso - a Mirela poderia ter visto, mas ela não quis ver. E por que às vezes não queremos ver? Pela pressão de ter um relacionamento. Por queremos mais o relacionamento do que de fato a pessoa. Nos apegamos ao sofrimento, como se o sofrimento fosse uma continuação, uma possibilidade de fazer a relação perdurar, uma ligação com a pessoa. A Mirela vive em busca do Pedro como se fosse uma continuidade da relação.

Quem faz sua introdução é a Fabiane Secches, uma das grandes estudiosas de Elena Ferrante no Brasil. Ela traça um paralelo entre a história de 'Copo vazio' e com o que a Ferrante escreve, ao falar sobre a mulher que enlouquece com o abandono. O que acha dessa comparação?

Me senti honrada. Também estudo Elena Ferrante no doutorado que faço em literatura e conheci a Fabi nesse percurso acadêmico. A Ferrante consegue chegar nos afetos de um jeito impressionante. É o que a boa literatura faz: a gente lê uma coisa e diz 'é isso que eu sempre senti, mas nunca consegui nomear'.

Sua formação como psiquiatra te ajuda a escrever sobre amor?

Nos meus atendimentos, eu pude notar uma recorrência de histórias de pessoas que estão lutando contra o abandono - homens e mulheres, mas principalmente mulheres.

Como psiquiatra, tive acesso ao discurso da intimidade das pessoas, às inseguranças, às dores, aos medos, aos sonhos. Isso não tem como não estar na minha escrita.

O meu primeiro livro "Desterros" é sobre minha experiência em um hospital psiquiátrico; em grande parte o meu segundo livro, "Rachaduras", foi escrito a partir de frases que ouvi durante consultas. Tem também o fato de que as pessoas são complexas e, sabendo dessas contradições, da diferença do que a pessoa é ou do que ela gostaria de ser, fica até mais fácil compor um personagem.

Você foi indicada ao Jabuti em 2019. Como recebeu esse reconhecimento?

A indicação foi um susto. Toda vez que escrevemos, não é a gente que pode avaliar se a obra é boa ou ruim. Estamos inteiras no que escrevemos. Sendo um livro autobiográfico ou não - o próprio estímulo de escrever já é autobiográfico. Por isso as criticas doem tanto e os reconhecimentos nos fazem tão bem.

E quem te inspira a escrever?

Eu estudo - e aprecio - as obras de Karl Ove Knausgard e da Elena Ferrante. Gosto bastante da Giovanna Madalosso - tanto da escrita quanto da pessoa. Adoro Hilda Hilst, Clarice Lispector, Guimarães Rosa. Autores não brasileiros como a Toni Morrison, o Tolstói, a Anna Kariênina, o Flaubert e a Jane Austen também me inspiram muito.

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