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"Mulheres Pós-2020" encerra com debate sobre desafios da jornada contínua

O terceiro e último dia do "Mulheres Pós-2020" foi marcado por uma entrevista com a filósofa Silvia Federici - imagem: @luaith
O terceiro e último dia do "Mulheres Pós-2020" foi marcado por uma entrevista com a filósofa Silvia Federici Imagem: imagem: @luaith

Letícia Paiva

Colaboração para Universa

30/04/2021 14h47

A Organização Mundial de Saúde (OMS) alerta que, depois da pandemia de Covid-19, o mundo enfrentará uma crise de saúde mental. Os efeitos desse adoecimento se aprofundaram durante o período, marcado pelo estresse, medo e luto. Para as mães, foi também de acúmulo de tarefas profissionais e de cuidados. Desprotegidas, as moradoras de periferias e micro-empreendedoras lidam ainda com as inseguranças econômicas. Promover autonomia e não deixar nenhuma de nós para trás foram as convocatórias do último dia de "Mulheres Pós 2020", evento transmitido por Universa nesta semana.

Para evitar problemas de saúde mental entre colaboradores, há empresas pensando em alternativas que deem conta de prevenir e acompanhar quadros que podem levar a transtornos graves. Mas quem cuida das mulheres autônomas ou que perderam seus empregos? Essa crise é também sobre cuidados, então como lidar com os inúmeros problemas enfrentados pelas brasileiras? Esses questionamentos foram debatidos em painéis mediados pela editora-chefe de Universa, Dolores Orosco, e pela jornalista Joyce Ribeiro.

Promover autonomia financeira nas periferias

 Crisciane Rodrigues (Pres Comitê Líderes Grupo Hinode) - Imagem: @luaith - Imagem: @luaith
Crisciane Rodrigues, presidente do Comitê Líderes Grupo Hinode
Imagem: Imagem: @luaith

"Desde o ano passado, temos visto o desespero das donas de negócios pequenos, especialmente porque mais da metade empreende em áreas de conforto para mulher, como estética, alimentação fora de casa e vestuário. Esses setores foram muito prejudicados", explicou Ana Fontes, fundadora da Rede Mulher Empreendedora. Por outro lado, segundo ela, se percebeu reação feminina propositiva, em busca de soluções para enfrentar a crise.

Há problemas que são anteriores à pandemia para as empreendedoras e que, agora, são enfrentados com mais obstáculos. Mulheres têm menos acesso à capital, tanto por meio de crédito quanto por investimentos. "Devemos mudar a participação delas no ambiente financeiro, mostrar que não é só lugar de homem. Mesmo quem empreende muitas vezes deixa a cargo dos homens cuidar do dinheiro", explicou Ana.

Um primeiro passo seria garantir que elas tenham acesso à formação sobre organização financeira e investimentos. "Ao mesmo tempo, isso ultrapassa ensinar a fazer planilhas ou sobre fluxo de caixa. Elas são, muitas vezes, as provedoras da família, mas não decidem sobre como gastar", disse Flavia Schlesinger, vice-presidente de Finanças da Pepsico. A empresa tem o programa "Mulheres com Propósito", com capacitação sobre negócios. Na pandemia, a executiva e outras funcionárias deram mentorias individualizadas para empreendedoras.

Painel "O Papel Decisivo das Empresas para Devolver Oportunidades e Autonomia às Mulheres" - Imagem: @luaith - Imagem: @luaith
Painel "O Papel Decisivo das Empresas para Devolver Oportunidades e Autonomia às Mulheres"
Imagem: Imagem: @luaith

Nesse campo, também há como barreira a falta de acesso à educação ao longo da vida delas. Por isso, é fundamental criar ferramentas para acessar quem tem potencial empreendedor, sabendo que nem todas partem de um mesmo patamar. "Começamos com um grupo de cerca de 30 mulheres, ensinando como se organizar financeiramente usando envelopes, antes de partir para o digital. Encontramos nelas muita vontade de ser protagonista", contou Crisciane Rodrigues, presidente do Comitê Líderes do Grupo Hinode, sobre o programa "Pérolas". A iniciativa da empresa já formou 400 mil mulheres, no Brasil e em outros países em que atua.

Elas trabalham mais e não recebem por isso

Painel  Mulheres pós 2020: como resgatar aquelas que estão ficando pelo caminho - imagem: @luaith - imagem: @luaith
Painel Mulheres pós 2020: como resgatar aquelas que estão ficando pelo caminho
Imagem: imagem: @luaith

Aprofundando o olhar para as mulheres mais vulneráveis, as questões enfrentadas por elas passam ainda pelo aumento da pobreza e da insegurança alimentar no Brasil nos últimos anos, agravados pela pandemia. Aqui, não se pode deixar ninguém para trás. "Estamos em um momento de retrocesso social, falando de fome, desemprego, estafa, abusos físicos nas casas. É muito sofrimento acumulado. Precisamos aproveitar esse momento de solidariedade para promover mudanças", disse Ilona Szabó, presidente do Instituto Igarapé, no painel de encerramento.

Como uma das lacunas que devem ser preenchidas para que se possa reverter esse quadro, ela elencou a participação de mulheres e outras minorias na política. Isso incluiria cargos eletivos, mas também atuação na sociedade civil.

Essa política na linha de frente é o que faz Flavia Rodrigues, presidente do Comitê Mulheres Paraisópolis, ao lado de 34 jovens na comunidade paulistana. "A realidade é de muito sofrimento, mas estamos trabalhando para passar por ele. As iniciativas de gerar renda em costura e culinária devem continuar mesmo após a pandemia, quando, mesmo com as dificuldades, conseguimos formar mulheres", contou a líder. Agora, ela trabalha no desenvolvimento de um aplicativo para conectar quem busca emprego com vagas próximas à Paraisópolis.

De todo modo, as barreiras são intransponíveis se não são discutidas transformações mais amplas em políticas públicas. "Em relação às mulheres, pesa muito a soma com os trabalhos domésticos. Há políticas de sucesso, que vêm sendo implementadas por países na região, para promover licença compartilhada que insere os pais no cuidado dos filhos", disse Paula Tavares, advogada e especialista do Banco Mundial. Para a filósofa italiana Silvia Federici, o trabalho de cuidados é expressamente não remunerado, ainda que ele seja essencial para a sociedade, já que é responsável por garantir novos indivíduos para a força de trabalho remunerado.

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