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"Índio costura?": artesã indígena vence preconceito e cria marca de bonecas

Luakam Anambé, 52, viu sua marca de bonecas indígenas de pano, Anaty, batizada com o nome da neta, viralizar na pandemia - Arquivo pessoal
Luakam Anambé, 52, viu sua marca de bonecas indígenas de pano, Anaty, batizada com o nome da neta, viralizar na pandemia Imagem: Arquivo pessoal

Marcelle Souza

Colaboração para Universa

18/04/2021 04h00

A artesã indígena Luakam Anambé, 52, só viu uma boneca pela primeira vez quando aos oito anos, em uma feira no centro de Viseu, município localizado no nordeste do Pará. À época, ela acompanhava nas compras a "patroa", que se recusou a levar o brinquedo, apesar dos pedidos da menina. "Naquele dia, eu prometi que ainda ia fazer uma boneca para mim."

O sonho só se realizou quase 40 anos depois, com o nascimento da neta, Anaty, e da marca que batizou com o nome dela: Anaty, que significa "menina" em tupi-guarani.

Luakam pertence ao povo Anambé e, aos sete anos, foi morar com uma família de fazendeiros, já que a sua não podia cuidar dos 11 filhos. No local, teve que trabalhar como empregada doméstica e babá, foi abusada sexualmente pelo patrão e não tinha o direito de brincar.

Um dos modelos de boneca confeccionados por Luakam é inspirado em sua etnia, Anambé - Divulgação - Divulgação
Um dos modelos de boneca confeccionados por Luakam é inspirado em sua etnia, Anambé
Imagem: Divulgação

"Aos 14 anos, eu tive que me casar. Eles me arranjaram um marido de 38 e foi difícil, uma tortura muito grande. Fui violentada outras vezes", conta. Separou-se aos 19 anos com dois filhos e decidiu se mudar para Belém (PA) em busca de melhores oportunidades de trabalho e de vida.

Na capital, ela foi empregada doméstica e viu televisão pela primeira vez. 'Eu me lembro que tinha um programa do Ronaldo Esper, que eu virei fã. Foi aí que eu me apaixonei pela profissão de costureira'

Nesse tempo, Luakam também trabalhou fazendo pães e bolos. A renda, no entanto, mal dava para sustentar ela e os filhos, e não sobrava dinheiro para comprar uma máquina ou para o tão sonhado curso de corte e costura. "Eu comprava tecido e costurava à mão as roupas dos meus filhos, com luz de lamparina, porque em casa não tinha energia elétrica. Quando tinha festinha, eu fazia o vestido e pedia para a minha filha não se mexer muito, para ele não se descosturar."

Aos poucos, começou a usar uma máquina emprestada de uma amiga e aprendeu sozinha a costurar. Começou a trabalhar em um pequeno ateliê até que conseguiu comprar duas máquinas usadas para produzir as encomendas que recebia.

"A dona da confecção me perguntou se índio sabia costurar"

O sonho de Luakam, no entanto, era muito maior: ela queria ir para São Paulo ou Rio de Janeiro trabalhar em uma grande confecção — se possível, com o ídolo Ronaldo Esper. De carona, viajou oito dias do Pará até o Rio. Na cidade, ficaria hospedada inicialmente com uma amiga de infância. Mas, quando chegou ao Rio e ligou para a conhecida, ouviu:

Ela me atendeu e disse que eu poderia ficar, mas que tinha que dormir em uma lona do lado de fora da casa e teria que deixar a minha cultura', conta. 'Eu respondi que até podia acompanhá-la na igreja, mas que tinha um compromisso com o meu povo'

Luakam conta que foi só nessa época que conheceu o que era o preconceito. "Eu tinha 80 cm de cabelo, a pele queimada de sol e características indígenas. As pessoas me olhavam com uma certa indiferença. Foi muito difícil. "Apesar disso, saiu em busca de um emprego. Em uma confecção de biquínis, conseguiu um teste para mostrar que sabia trabalhar com máquinas industriais.

A dona me perguntou: 'E índio sabe costurar?'

Luakam não só mostrou que sabia, como, com o tempo, trabalhou para marcas famosas e criou a sua própria, a Artes Papaxibé, de roupas e bolsas com referências indígenas. "Não costurei para o Ronaldo Esper, como eu queria, mas trabalhei para Maria Filó, Osklen e Cantão. Nunca fiz curso, mas conheci muitas pessoas que me ajudaram a aperfeiçoar o meu trabalho, que me colocavam para fazer detalhes, e aprendi a trabalhar com tecido plano com muita delicadeza." Mas faltava ainda realizar um sonho: fazer a boneca que ela sempre quis ter

Nascimento da neta Anaty a levou a fazer bonecas

Luakam Anambé e a neta Anaty em seu ateliê de costura - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Luakam com a neta Anaty em seu ateliê de costura; ela mudará a sede de sua marca do Rio para o Pará
Imagem: Arquivo pessoal

Quando a neta Anaty nasceu em 2013, Luakam confeccionou para ela uma boneca com roupas e pinturas do povo Anambé, etnia à qual elas pertencem. Nessa época, a costureira conheceu algumas lideranças indígenas e passou a participar de atos e eventos que eles promoviam no Rio. "Descobrimos que tínhamos parentes aqui e cresceu uma amizade", conta.

Nas feiras de artesanato indígena, ela vendia as roupas e bolsas de sua marca e a neta era companhia constante. Muita gente gostava da boneca que ela levava e me pedia para fazer uma igual. Foi aí que a artesã começou, ao lado da filha, a investir na produção das bonecas que levariam o mesmo nome da neta.

Pandemia de covid: trabalho viralizou e produção aumentou

A grande aposta veio no início de 2020, quando as duas decidiram pegar as economias e participar de uma feira temática. "Investi tudo o que a gente tinha, uns R$ 1.000, em material para produzir cem bonecas", conta. Um mês depois, no entanto, a onda de casos de covid-19 fez o evento ser cancelado e os planos da família irem por água abaixo.

O mais difícil de começar um negócio é conseguir o dinheiro para investir, porque sou eu, minha filha e minha neta. Não sobra quase nada. Daí, quando veio a pandemia, eu não sabia como agir. Foi muito difícil mesmo, porque a gente chegou a dormir sem ter o que comer

Após alguns dias de "desespero total", como ela se refere a esse período, Luakam e a filha perceberam que a única saída seria produzir as bonecas que planejavam e vender tudo pela internet — o que, até então, elas nunca tinham feito. "Tivemos que pedir ajuda para um amigo."

Assim que retomaram o trabalho nas máquinas de costura, a neta resolveu fazer um vídeo da produção, que foi postado no Facebook e acabou viralizando. "De uma só vez, recebemos o pedido de 200 bonecas de uma organização de Brasília, o dobro do que a gente tinha pensado que podia vender na feira", diz a artesã.

Desde então, o trabalho aumentou tanto que elas tiveram que contratar mais cinco costureiras. Assim como elas, todas são indígenas e vieram do Pará. 'Não consegui mão de obra aqui por causa do preconceito. Coloquei um anúncio e, quando as costureiras chegavam e me viam, diziam que não iam trabalhar para uma índia, conta. A saída foi custear a mudança das parentes para o Rio

Hoje elas produzem cinco modelos de bonecas: um casal Anambé, da etnia à qual pertencem, do Pará; uma Kayapó e uma Yawalapiti, em referência aos povos de mesmo nome que vivem no Mato Grosso; e uma Krahô, etnia localizada no Maranhão, Piauí e Tocantins. Todas são desenhadas e criadas por Luakam.

As bonecas Anaty são um grito de força contra o preconceito, uma superação. Elas são uma forma de mostrar a força e a identidade indígenas', diz

Eu me sinto tão honrada, porque com essas bonecas eu realizo o meu sonho e também o de outras tantas indígenas. É uma oportunidade de inclusão, porque a gente é dono dessas terras, não somos representados e precisamos estar em todos os lugares", diz a empresária.

Retorno para a comunidade

O dinheiro do primeiro lote de bonecas vendidas durante a pandemia foi destinado para a compra de um terreno em Viseu (PA) para a construção de uma sede do negócio no Pará. O objetivo, diz Luakam, é apoiar a sua comunidade, capacitando novas costureiras, e facilitar as vendas pela região. "Recebemos muitos pedidos do Acre, Amazonas e de Rondônia, mas o frete é muito caro. Ter um ateliê no Pará vai deixar o envio mais barato."

Neste momento, 5% das vendas são destinadas para o projeto que, além da sede própria, custeia o envio de remédios e comida para a comunidade Anambé. Para se manter em pé e garantir que a sede esteja pronta até o final deste ano, no entanto, o projeto depende de doações externas.