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Filha médica esconde exame e faz vídeo para avisar que mãe teve covid-19

A médica infectologista Lourdes Borzacov - Arquivo pessoal
A médica infectologista Lourdes Borzacov Imagem: Arquivo pessoal

Carlos Madeiro

Colaboração para Universa

31/01/2021 04h00

Na tarde do último sábado, a médica infectologista Lourdes Borzacov foi até a casa da mãe, em Porto Velho, com falas impressas em papéis para que ela lesse. O objetivo era gravar um vídeo para flagrar a sua reação ao saber que teve e se curou da covid-19 dias antes.

O vídeo mostra dona Yêdda Borzacov, historiadora de 81 anos, levando um susto ao saber que teve a doença. Em seguida, ela lê o que estava nos papéis, dá bronca na mãe e pergunta como a mãe pegou coronavírus se não saia de casa. "Ela saia, ia a banco, salão de beleza", entrega a filha, que não teve covid e evitava contato com a mãe.

Saber que a mãe teve covid-19 foi um choque. "Protegi minha mãe o tanto que pude. Quando soube que ela estava doente, veio um sentimento de revolta, de querer brigar com alguém, de encontrar como aconteceu. Mas você vê depois que nada disso importa", conta.

"Eu enrolava, dizia que não tinha saído"

Lourdes - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Lourdes explica que decidiu não contar à mãe da covid-19 para evitar que houvesse um impacto psicológico. "O impacto é sempre grande, achei melhor preservar. Essa foi a maneira lúdica, leve dela saber", diz.

Como os sintomas eram leves, ela escondeu por uma semana o resultado positivo. "No dia 13 de janeiro, quando desconfiei que ela estava contaminada, já a isolei. No dia 16 a levei para o hospital e fiz a coleta. Ela ficava perguntando se tinha saído o resultado do exame, mas eu enrolava, dizia que não, que tinha uma fila grande. E ela acreditou", diz.

A historiadora não precisou de internação. A médica conta que o caso serviu de estímulo para seguir atuando no atendimento a pacientes com covid-19 no estado. "Deus foi tão misericordioso que concedeu a graça de que fosse um caso leve. Então agora, mais ainda, o que quero é cuidar daqueles que precisam, por mais que eu esteja cansada", afirma.

"A culpa não é da mutação, é nossa"

Lourdes conta que em Rondônia é evidente o colapso na rede pública de saúde. "Todos os leitos públicos com 100% de ocupação de UTI. No privado a ocupação é de 90%", conta, acrescentando que o número de internações continua a subir. Ela atua em dois hospitais —um público e um privado— que atendem pacientes com covid-19.

"Acredito que a segunda onda que o Brasil está passando é pior que a primeira. Para a médica, a situação agora é reflexo do "final do ano desregrado" da população. "Na primeira onda, as pessoas aguentaram por muito tempo, e isso segurou. Mas agora no final de ano todos viveram como se não houvesse amanhã.".

No contato com os pacientes que estão internados, os relatos são unânimes. "Todos, sem exceção, falam de viagem, de encontro com parentes. É fácil culpar a mutação do vírus, mas a culpa é toda nossa", afirma.

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