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Sem poder fazer shows, médica-cantora leva música para UTIs de covid em AL

Médica Rafaela Tenório canta durante show antes da pandemia - Arquivo pessoal
Médica Rafaela Tenório canta durante show antes da pandemia Imagem: Arquivo pessoal

Carlos Madeiro

Colaboração para Universa

28/01/2021 04h00

Os palcos e as UTIs sempre dividiram a atenção na vida de Rafaela Tenório, 34. Em 2012, ela começou a construir sua carreira de cantora de axé enquanto fazia residência médica em Salvador.

Três anos depois, ela voltou a morar em Maceió, onde nasceu, e passou a conciliar desde então a arte e a medicina. Mas a sua vida entre plantões e shows mudou com a chegada da covid-19, e o novo momento a obrigou a focar só na medicina. Ela atua, desde março de 2020, na linha de frente de combate à covid-19 em hospitais públicos e privados de Alagoas.

"Não consigo mais fazer shows, a carga de trabalho quadruplicou. Mesmo fora das UTIs de pacientes com covid, o trabalho aumentou com mais pessoas que acabam tendo suas condições agravadas, sem controle de pressão arterial, diabetes", relata a médica. "Mas sempre que posso, levo o violão para os plantões. Faço isso desde que eu iniciei minha carreira médica", completa.

Rafaela conta a Universa que sempre se dedicou quase que igualmente às duas paixões. "Meus plantões sempre iam até a quinta-feira, e no fim de semana eu tinha tempo para me apresentar. Nunca foi uma agenda apertada, sempre deu para conciliar, tudo bem dividido", diz.

Por isso, só atuar como médica durante a pandemia não estava sendo suficiente, e ela decidiu ir além: criar um projeto que reunisse profissionais de saúde e artistas para não só ajudar os sobrecarregados trabalhadores de UTI, mas levar uma alegria a quem está longe da família. Daí nasceu o "Solidariedade Intensiva", que todo fim de semana visita UTIs em Maceió.

A ideia, diz, nasceu de uma conversa. "No dia 13 de dezembro eu estava saindo de um plantão de 24 horas. Era um domingo pela manhã, e encontrei dois colegas que trabalham comigo. O relato que eles me trouxeram era o mesmo: queixa da complexidade que é tratar esses pacientes; que às vezes não conseguiam ter tempo sequer para escrever as coisas necessárias; que estavam em um alto grau de cansaço. Sei que fisicamente é difícil dar conta, são pessoas ali que têm várias intercorrências", conta.

"Sempre que posso, canto para eles"

Com a pandemia, os shows cessaram, e as apresentações que antes eram nos palcos, acontecem agora nos hospitais em que trabalha —onde ela canta e toca para alegrar pacientes internados com o novo coronavírus.

"Algo me tocou mais e senti que precisava fazer algo. Ouvi a queixa de como os recém-formados —tão importantes nesse momento— estavam com dificuldade para lidar com a complexidade desses pacientes. E isso fica ainda mais duro aos fins de semana, quando os plantões ficam mais desorganizados. Então pensei: se fosse muita gente de uma só vez, em mutirão, não seria tão difícil e cansativo", explica.

Em um vídeo que viralizou nas redes sociais, ela aparece tocando e cantando "Minha Estrela", de Jammil e uma Noites, para uma paciente internada em UTI. "Ali estão pacientes isolados, que não têm visita. Então a família deles ali é a gente. Tentamos ajudar o máximo possível. Sempre que posso, canto para eles", revela.

Médica  - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
A médica canta para pacientes
Imagem: Arquivo pessoal
Médica de Maceió - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
E também toca percussão em shows
Imagem: Arquivo pessoal

Bastou ela divulgar a ideia e o projeto passou a atrair voluntários. "Não imaginei que ia ter tanta adesão porque as pessoas estavam cansadas. Mas todos sabem como é um plantão em UTI covid. A participação das pessoas foi incrível! Temos hoje 72 inscritos em apenas duas semanas. E todos vibram, ajudam. Já vimos que, se tiver muita gente, vamos desafogar as ações", explica.

No último domingo, enquanto os profissionais atendiam e olhavam prontuários, um violonista voluntário do projeto tocou canções leves para acalmar pacientes no Hospital Metropolitano, em Maceió. "Além de tudo isso, como a gente está indo a hospitais públicos, estamos levando material de higiene para doar também", conta.

Vacinada na última sexta-feira com a primeira dose da CoronaVac, Rafaela espera voltar logo aos palcos, onde também se sente bem. Ela diz a Universa que pretende reiniciar a agenda em março —caso o número de casos diminua em Alagoas. "Já tenho alguns shows previstos para casamentos. Vamos ver como as coisas estarão daqui para lá, e se vamos confirmar essas apresentações. Só vamos com segurança."

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