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Vai ter prefeita, sim: as cidades onde só mulheres concorrem ao cargo

Campanhas eleitorais em 33 cidades brasileiras contam apenas com mulheres concorrendo ao cargo de prefeita - Getty Images/iStockphoto
Campanhas eleitorais em 33 cidades brasileiras contam apenas com mulheres concorrendo ao cargo de prefeita Imagem: Getty Images/iStockphoto

Camila Brandalise

De Universa

13/11/2020 04h00

Se o resultado das eleições no próximo domingo (15) ainda é uma incógnita, 33 cidades brasileiras já têm uma certeza: terão uma prefeita na próxima gestão. São lugares em que apenas candidatas mulheres estão concorrendo ao cargo. O número representa apenas 0,6% dos municípios brasileiros. Comparando-se aos locais onde há apenas homens como candidatos, a disparidade é enorme: em 62% das cidades, somente eles disputam a prefeitura. Os dados foram analisados por Universa a partir do banco de informações de candidaturas do TSE (Tribunal Superior Eleitoral).

A maioria dos casos em que só mulheres concorrem está no Nordeste, com 22 municípios de sete estados diferentes. As outras cidades que reúnem apenas candidatas estão nos três estados da região Sul, em dois da região Norte e em um do Centro-Oeste, Goiás. São municípios de tamanho pequeno e médio. O menor é São José do Brejo da Cruz, na Paraíba, com cerca de 1.800 moradores, e o maior é Camocim, no Ceará, com 64 mil.


"Uma visão administrativa mais refinada"

Morador de São Cristóvão do Sul, cidade catarinense de 5.000 habitantes a cerca de 200 km da capital, Florianópolis, o professor Alexandre Liz, 25, comemora o fato de, pela primeira vez, a cidade ter duas mulheres concorrendo. "É uma novidade. Não digo surpresa porque as duas têm histórico de lutas e doações às causas sociais do município", afirma.

Disputam a prefeitura as candidatas Ilse Leobet (PSDB), ex-secretária de Educação e primeira vereadora mulher eleita na cidade, em quem Alexandre declara publicamente seu voto, e Sandra Cassul (PP), professora da rede pública. "Acho necessário e mais do que devido as mulheres assumirem posições públicas. Precisamos esquecer o termo 'conquistar' e entender que a mulher chega a esse lugar por que merece", ele diz. Atualmente, a cidade tem uma prefeita mulher: Sisi Blind (PP), a primeira a ocupar o cargo, que apoia Sandra, candidata do mesmo partido.

"Como aspecto inspiracional, me sinto feliz e totalmente realizada, pois em São Cristóvão do Sul teremos novamente uma mulher", declarou Sisi em suas redes sociais. "Portanto, cumpri a missão. Deixo como legado na história da política, a presença da mulher como chefe do executivo por mais um mandato, com certeza!

Do mesmo município, mas com voto declarado na outra candidata, a pedagoga Alciomara Maron Jubanski, 39, acredita que a população entendeu que uma mulher no posto pode fazer diferença. "Uma prefeita pode apresentar uma visão democrática e administrativa mais refinada, vejo que [Sisi] conduz de maneira sensível sem deixar de ser firme, além de apresentar um cuidado com as pessoas", diz.

Ambas as candidatas focam suas propostas, principalmente, em educação, sem recortes específicos de gênero.

No Nordeste, Olinda Nova do Maranhão, a 250 km da capital São Luís, foi uma das duas cidades brasileiras a ter três candidatas mulheres, segundo o TSE. A outra é Mimoso de Goiás. Mas uma das campanhas foi indeferida. Hoje comandado por um homem, o município maranhense de 15 mil habitantes, com uma economia baseada em recursos públicos, verá uma das duas concorrentes ao cargo assumir em 2021.

Disputam o cargo Moça de Riba (PSL), atual vice-prefeita, e Conceição Cutrim (PDT), que já governou o município entre 2009 e 2012.

"Muitas mulheres ainda têm dificuldade de ocupar cargos de poder, serem eleitas ou terem voz ativa nas tomadas de decisões políticas. Hoje, em Olinda Nova, temos duas candidatas. A atenção é merecida, pois vivemos em uma sociedade que é machista e patriarcal", diz a servidora pública federal Mirelle Penha, 37. "Para mim, faz toda a diferença, pois além de a mulher poder mostrar que é competente para assumir um cargo político, quebra o preconceito de que elas não estão preparadas", diz.


"Nossa surpresa é um reflexo da política masculinizada", diz pesquisadora

A cientista política Hannah Maruci Aflalo, co-idealizadora do projeto A Tenda das Candidatas que estimula a participação feminina na política, chama a atenção para o fato de se perceber uma disputa só entre mulheres candidatas como um fato inusitado. "Nossa surpresa em ver uma cidade em que só há candidatas mulheres é um reflexo de uma política altamente masculinizada. Isso é sintomático. Em diversos municípios, por séculos, só tivemos candidatos homens brancos e isso não causou estranheza", diz.

"Proponho um exercício. Por exemplo, quando alguém pergunta: 'Uma mulher negra só vai representar as mulheres negras?', pergunte o contrário. Nós já nos questionamos se os quase 90% de homens eleitos iriam representar somente homens?".

Hannah também afirma que as candidatas em campanhas apresentam a tendência de não se pautarem tanto em ataques contra adversárias, como costuma acontecer quando há uma preponderância masculina. "Por estarem marginalizadas da política institucional por tanto tempo, elas buscam fazer a política de forma diferente. Percebo, inclusive, que cooperam entre si."

*Colaborou Gabriela Sá Pessoa, do UOL, em São Paulo.

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