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Mulheres pintam grandes murais em SP e lutam por cidade inclusiva; conheça

Mural de Hanna Lucatelli na rua Quinze de Novembro, no centro de São Paulo; artista pintou empena grávida de 7 meses - Duda Gulman/UOL
Mural de Hanna Lucatelli na rua Quinze de Novembro, no centro de São Paulo; artista pintou empena grávida de 7 meses
Imagem: Duda Gulman/UOL

Mariana Gonzalez

De Universa, em São Paulo

19/10/2020 04h00Atualizada em 20/10/2020 07h31

Quem anda por São Paulo nem sempre percebe, mas a paisagem da cidade muda com frequência: as regiões do centro e de Pinheiros, na zona oeste, ganharam, só neste ano de pandemia, pelo menos uma dúzia de novas obras de arte em grandes murais e empenas (paredes laterais de prédios). Chamam atenção, por exemplo, uma mulher indígena amamentando seu filho, na rua Quinze de Novembro, e uma mulher nua e usando uma balaclava, na avenida Faria Lima.

Segundo Luan Cardoso, curador do festival NaLata, e Giulia Lupo, curadora e produtora de arte, as mulheres estão cada vez mais presentes na cena muralista de São Paulo, mas ainda não estão em pé de igualdade com os homens, que são maioria na arte de rua.

Universa conversou com quatro mulheres muralistas que recentemente ilustraram grandes empenas de São Paulo — Crica Monteiro, Hanna Lucatelli, Mag Magrela e Pri Barbosa.

Elas relatam menos oportunidade para mulheres na arte de rua, machismo entre os colegas homens e surpresa do público ao ver que quem está pintando aquele painel enorme de 30 metros é uma mulher — no caso, de Hanna, grávida de 7 meses. As quatro falam, ainda, sobre a importância de ter uma mulher com o pincel na mão para autoestima, inclusão e diversidade.

Corpo na rua

Pelo menos uma afirmação é comum na fala das quatro artistas: se as mulheres estão conquistando cada vez mais espaço na arte de rua, é graças a elas mesmas.

"Quem estava por trás dos projetos mais bacanas de empenas eram os homens, que muitas vezes colocam os amigos deles pra pintar junto, e assim vai. A gente conseguiu esse espaço porque reclamou muito", afirma Crica Monteiro. E Mag Magrela corrobora: "Tem partido muito das manas se juntarem para fazer diferente. A partir daí, produtores de festivais [de arte de rua] foram entendendo, aos poucos, que não faz sentido fazer um festival e ter só homens no line-up".

E, enquanto ainda são minoria nos balancinhos (equipamento que leva o artista às alturas durante a pintura de empenas e murais), não faltam relatos de episódios sexistas, que vão desde achar que a mulher vai ter medo de altura ou não vai conseguir carregar uma lata de tinta, até assédio sexual.

"Se a mulher está no espaço público, ela fica pública também. A gente fica aberta a ouvir qualquer coisa. Tem o assédio mesmo, de buzinar, gritar, e tem todo mundo dando pitaco, sendo que, se fosse um homem, ninguém se sentiria no direito de falar nada". Hanna Lucatelli

Tanto Crica quanto Hanna contaram, ainda, que é comum homens se dirigem a elas de forma quase infantil, como se mulheres fossem muito frágeis para pintar um prédio. Elas ouvem frases como "você vai cair daí" ou "é perigoso, hein".

Pois bem: no ano passado, Hanna Lucatelli pintou uma empena de 30 metros de altura, bem barriguda, já na reta final da gravidez — para isso, teve acompanhamento profissional e precisou ser medicada algumas vezes. Agora, está trabalhando em três painéis encomendados pela Vivara, enquanto amamenta a filha.

"Foi complicado, foi uma loucura, eu fiz até mais do que eu poderia ter feito [durante a gestação], mas tem essa coisa de ser supermulher, querer fazer tudo. A mulher recebe poucas oportunidades, e quando recebe tem que fazer", comenta.

Hanna pintando - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
Imagem: Reprodução/Instagram
Hanna pintando - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
Imagem: Reprodução/Instagram

Essas poucas oportunidades, lembra Magrela, estão concentradas nos meses de março, por conta do Dia Internacional da Mulher, e outubro, por conta do Outubro Rosa. Ela conta que é comum que mulheres sejam chamadas principalmente para trabalhos ligados ao universo feminino, quando há muralistas que pintam sobre diversos temas,

"As artistas mulheres são geralmente colocadas em projetos que têm alguma coisa a ver com gênero, quando o tema é 'feminino'. Eu realmente falo bastante de feminismo nas minhas obras, mas tem artista por aí querendo pintar coisas diversas, esporte, economia, política. E, nesses casos, os homens costumam ser a primeira escolha".

Há também relatos de descrença no trabalho das muralistas porque, supostamente, mulheres têm corpos menos resistentes — mas Pri Barbosa rebate:

"Na minha percepção, mulheres e homens têm capacidades equivalentes. Não é como se você tivesse que ser homem para pintar um mural, você carrega o pincel com a mão, e não com o pênis".

Mag Magrela, que além de muralista é grafiteira, completa: "Quando eu estou com os meninos [seus assistentes], pintando os painéis maiores, sempre acham que são eles que estão pintando. Quanto maior o trabalho, mais as pessoas acham que é um homem por trás"

Mag Magrela está pintando mural na Vila Buarque, no centro de São Paulo, a pedido do Consulado Alemão - Duda Gulman/UOL - Duda Gulman/UOL
Mag Magrela está pintando mural na Vila Buarque, no centro de São Paulo, a pedido do Consulado Alemão
Imagem: Duda Gulman/UOL

Espelho

Basta uma caminhada por museus como o MASP (Museu de Arte de São Paulo) ou a Pinacoteca para perceber que não faltam mulheres retratadas ao longo da história da arte, mas quem pinta é, quase sempre, um homem. O mesmo acontecia, até então, na arte de rua, explicam as artistas ouvidas por Universa.

Na percepção delas, as mulheres que sempre foram retratadas em murais estão muito longe das mulheres que de fato circulam pela cidade. Mas, quando são as mulheres que dominam os rolos e as latas de tinta, corpos femininos são retratados de forma mais humana.

"Se os homens pintam as mulheres, elas ficam dentro de um mesmo padrão, mas quando as mulheres se pintam, elas ganham formas mais humanas, têm estrias, gordura. É uma forma de dizer 'eu sou isso'", acredita Magrela.

Hanna Lucatelli segue a mesma ideia: ela conta que se inspira nas mulheres que vê dentro de casa, como sua mãe e suas avós, e vê nisso uma forma de "fincar bandeiras":

"Quando você dá o pincel na mão da mulher, muda toda essa estética hipersexualizada e até infantil da Barbie", crê. "Assim como pixadores têm essa cultura de pixar seu nome em outros bairros para falar 'eu existo', eu pinto mulheres na rua para fincar uma bandeira, para dizer 'esse espaço também é meu, é nosso'".

Mural pri barbosa - Arquivo pessoal/Pri Barbosa - Arquivo pessoal/Pri Barbosa
Imagem: Arquivo pessoal/Pri Barbosa
Mural crica - Duda Gulman/UOL - Duda Gulman/UOL
Imagem: Duda Gulman/UOL

Pri Barbosa, que pintou sua primeira empena neste ano, não hesita em dizer que a mulher que retratou na lateral de um prédio na Avenida Faria Lima, um das maiores da capital, é inspirada em seu próprio corpo — e vê nisso um ato político. "Eu quero me sentir representada, claro, mas principalmente quero que as mulheres que passarem por ali se sintam representadas também".

Cidade inclusiva

Crica, Hanna, Magrela e Pri concordam que este é um momento de boom na pintura de empenas - mas este movimento pode contribuir tanto para incluir grupos mais diversos na arte de rua, quanto excluir.

Hanna Lucatelli vê na pintura de empenas uma porta aberta para obras de artistas mulheres, já que no grafite elas ficam mais expostas e sujeitas a assédio e outros ataques:

""O grafite é mais abrupto, mais ilegal, geralmente feito de madrugada, e a mulher não consegue estar tão inserida, porque tá cuidando do filho, do irmão, da avó. Quando a gente fala de mural e empena, é outra forma de ocupar o espaço, de forma autorizada e mais acolhedora para mulheres".

Já Crica acredita que o movimento pode ter efeito contrário e fechar as portas para mulheres periféricas e de classes sociais mais baixas, uma vez que pintar uma empena depende de uma estrutura grande e cara, normalmente financiada por empresas privadas.

"Quando você faz um trabalho no baixo, você leva sua escada, consegue transportar a tinta, chamar um amigo e pintar, mas quando vai para um patamar gigantesco como uma empena, depende de uma série de coisas que não estão ao seu alcance. Precisa ter estrutura, equipe, entender de equipamento, muitas vezes fazer um curso de proteção e segurança para subir no balancinho".

"A empena é muito legal, é o sonho de todo artista urbano, mas precisa de grana pra fazer. E, na maioria das vezes, quando um artista pinta um espaço desses, tem iniciativa privada por trás".

De toda forma, as quatro muralistas concordam que é preciso ter na criação das obras não só mulheres, mas a outros recortes sociais, como negros, indígenas e transexuais.

E enxergam em projetos como o Tarsila Inspira — do MAR (Museu de Arte de Rua), que promoveu em janeiro a pintura de seis grandes painéis criados artistas mulheres — a solução para garantir maior representatividade na arte de rua

"Falta muita gente pintando empena, tem muita gente aí na caminhada da arte urbana há anos que nunca pintou um prédio, enquanto gente que começou ontem já tem 3, 4 obras", critica Crica. "São Paulo tem muita empena, imagina quantos prédios poderiam ser trabalhados aí com imagens falando de negritude, de demarcação indígena?".

Mural pri barbosa - Agência InHaus/NaLata Festival - Agência InHaus/NaLata Festival
Imagem: Agência InHaus/NaLata Festival

Futuro

Hanna Lucatelli destaca que o boom de obras em empenas acontece hoje graças à Lei da Cidade Limpa (14.223), sancionada há 14 anos pelo ex-prefeito Gilberto Kassab (à época no PSD). O texto proíbe outdoors na capital paulista e, com isso, deixou paredes enormes em branco, de muros a fachadas de arranha-céus.

Ela explica que a lei garante, além de espaço para a pintura das obras, que artistas sejam pagos por seu trabalho. "Se esse movimento acontece hoje de forma tão legal, se a gente tem empresas privadas querendo bancar os artistas, é graças à Cidade Limpa", acredita.

É por esse motivo, mas também porque a arte ainda depende muito de editais, financiamento público e incentivo à cultura, que as muralistas dizem que a cena depende muito do poder público. Mas se São Paulo continuar neste caminho, elas acreditam, será uma cidade mais inclusiva.

"As pessoas aprendem com a arte e aprendem ao ver o artista pintando. Lá do balancinho eu vejo crianças passando do lado das empenas, elas estão vendo mulheres pintando, estão vendo que a arte emprega pessoas. Um pai ou uma mãe entendem que a filha pode ser artista quando crescer, que é uma coisa possível", Magrela.

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