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Projeto Blacks in Ballet dá visibilidade a artistas negros no balé clássico

Dandara Amorim - Divulgação
Dandara Amorim Imagem: Divulgação

Alan de Faria

Colaboração para Universa

19/09/2020 04h00

A carioca Ingrid Silva iniciou no balé aos oito anos, no Projeto Dançando para Não Dançar, que atende centenas de crianças e jovens de comunidades do Rio de Janeiro. No entanto, foi só uma década depois que ela viu, pela primeira vez, uma bailarina negra, assim como ela, integrante de uma companhia profissional de balé clássico. Era Bethania Gomes, que fazia parte do Dance Theatre of Harlem, um dos principais grupos de Nova York, nos Estados Unidos.

"Participei de uma aula oferecida por ela. Ao me observar, veio falar comigo e disse que eu era talentosa e deveria começar a pensar em viver da dança e em seguir uma carreira internacional", diz Ingrid, que, até então, não tinha nenhuma referência negra no balé clássico.

Aos 31 anos, a carioca, que ainda estudou na Escola de Dança Maria Olenewa e no Centro de Movimento Debora Colker, ambos no Rio, e estagiou no Grupo Corpo, em Belo Horizonte, é atualmente a primeira bailarina do Dance Theatre of Harlem, a mesma companhia daquela que foi uma de suas principais referências na dança.

Recentemente, Ingrid anunciou que estava grávida em um vídeo com passos de balé dirigido pela atriz Taís Araújo.

Valendo-se da visibilidade que tem alcançado, Ingrid, de uns dois anos para cá, começou a analisar a pouca visibilidade de bailarinos negros no balé clássico. Seriam eles, de fato, em número reduzido? Quais companhias abrem espaços para não brancos? Quais as histórias dessas pessoas? Seriam imigrantes, assim como ela, que precisaram sair de seus países para ingressar em um grupo profissional?

Com essas dúvidas rondando sua cabeça, ela chamou os amigos bailarinos Ruan Galdino e Fábio Mariano para pensar em um projeto em que, juntos, pudessem responder a essas questões. Assim, surgiu, em março deste ano, o Blacks in Ballet, cujo principal objetivo é destacar o trabalho de profissionais negros, principalmente do balé clássico, espalhados pelo mundo.

"Tem bunda e coxa grandes, é preto e ainda dança balé clássico"

Com mais de 11 mil seguidores, o Instagram do projeto (@blacksinballet) conta a história desses bailarinos e ainda publica fotos e vídeos de suas performances. "Engraçado, mas tem quase servido como um portfólio para esses profissionais. Muitas companhias têm nos procurado, para falar sobre seus bailarinos ou para pegar o contato de quem a gente divulga", diz Ingrid.

No dia 6 de agosto, a gaúcha Dandara Amorim, 23, natural de Alegrete, teve sua foto destacada no Blacks in Ballet. "Instantaneamente, vários outros artistas do universo do balé entraram em contato comigo", diz ela, que começou a dançar aos 13 e atualmente faz parte do Ballet Hispânico, em Nova York.

Foi lá, aos 18, que Dandara, viu pela primeira vez uma bailarina negra em uma companhia profissional dançando balé clássico. A tal dançarina era Misty Copeland, que, em 2015, foi a primeira afro-americana a se tornar a principal bailarina do American Ballet Theatre, uma das principais companhias de dança dos Estados Unidos.

"Definitivamente, o que falta a esses profissionais é visibilidade, uma vez que, embora sejamos ainda poucos, comparando com a quantidade de brancos, há muitos negros em companhias de balé clássico", diz Ruan Galdino, cofundador do Blacks in Ballet.

Solista sênior da Joburg Ballet, de Joanesburgo, na África do Sul, o carioca de 25 anos só percebeu a possibilidade de se tornar um bailarino profissional quando, pelo YouTube, aos 13 anos, durante uma aula de informática na escola, encontrou um vídeo de Carlos Acosta. O cubano já interpretou alguns dos principais papéis do balé em espetáculos como "Romeu e Julieta" e "O Lago dos Cisnes", em companhias como a Escola Nacional de Cuba e a britânica The Royal Ballet.

"Fiquei enlouquecido quando assisti à performance dele. Gritei: 'Mãe, ele é do Royal Ballet, tem bunda e coxa grandes, é preto e ainda dança balé clássico!'. A partir daquele momento, passei a visualizar aquilo tudo para mim. Se ele havia sido o primeiro bailarino negro de alguma companhia, eu poderia ser o segundo", diz Ruan.

Ele conta ter chorado muitas vezes, no início de sua trajetória, por não se enquadrar no "padrão europeu ou russo" tão preconizado, até então, no balé clássico. "O Blacks in Ballet pode ajudar a nova geração de bailarinos negros, que, desde cedo, não terá essas dúvidas pairando em suas mentes e poderá, assim, só se dedicar ao aprimoramento técnico", afirma.

"Ver outra pessoa que se parece com você fazendo aquilo que você, um dia, sonha em executar faz toda diferença", diz Fábio Mariano, 27 anos, que, por sua vez, só notou a diversidade na dança ao ingressar em 2017 no Collage Dance Collective, grupo baseado em Memphis, nos Estados Unidos. Um dos objetivos da companhia é espalhar a pluralidade no mundo do balé e proporcionar a inclusão da comunidade afro local -64,2% dos habitantes de Memphis são negros.

Cisne negro

Ingrid - Steven Vandervelden - Steven Vandervelden
A bailarina Ingrid Silva
Imagem: Steven Vandervelden

Ingrid reconhece que não basta apenas uma plataforma como a Blacks in Ballet para aumentar a representatividade no balé clássico. "Decisões em prol da inclusão devem ser tomadas por diretores de companhia e por quem seleciona os bailarinos para os espetáculos", diz ela. A carioca ainda salienta a importância de o debate sobre a diversidade na dança se tornar algo rotineiro nos encontros entre os bailarinos.

Fábio, no entanto, vai além: "O papel dos diretores é fundamental, porém é preciso pensar também na base. Se, porventura, um bailarino negro não é escolhido pela falta de técnica, isso significa que, ao longo de sua formação, ele não foi preparado adequadamente para audições em companhias profissionais", diz.

Neste sentido, a contratação para o corpo docente permanente da School of American Ballet da bailarina negra Aesha Ash -primeira afro-americana a ocupar o cargo- foi bastante celebrada pelos fundadores do Blacks in Ballet. No Instagram do projeto, eles postaram uma reportagem do jornal The New York Times sobre este feito da americana, que, durante muito tempo, integrou a New York City Ballet.

Aesha é também fundadora do The Swan Dreams Project, por meio do qual, vestida de cisne negro, visita comunidades carentes nos Estados Unidos, predominantemente negras, para mostrar às meninas que elas podem, sim, vislumbrar uma carreira no balé clássico.

"Não tem jeito, o corpo negro é diferente do corpo branco, europeu. Não tem como uma professora exigir que uma jovem negra tenha o mesmo tipo físico de uma menina branca, exigir que ela coloque a bunda para dentro", diz Fábio. "Uma professora negra vai entender as particularidades do corpo negro e, assim, ensinar as técnicas de maneira diferente."

Bailarina deu origem a lei antirracismo

Embora estejam atentos à geração atual e à futura do balé clássico, Ingrid, Ruan e Fábio não ignoram aqueles que vieram antes deles e que, de alguma forma, abriram as portas em companhias profissionais. "Sempre me pergunto como essas figuras históricas negras conseguiram tais conquistas. Se em pleno século 21 ainda é bem complicado pertencer a estes espaços, como eles sobreviveram mentalmente, eu não sei", afirma Ruan. "Dar visibilidade a essas pessoas gera em nós o sentindo de identidade."

Desde março, o perfil Blacks in Ballet criou postagens especiais sobre a bailarina Lauren Anderson, cujo pai chegou a ouvir de um professor que a filha, à época adolescente, não tinha corpo para o balé clássico. Anos mais tarde, ela se tornaria um dos principais nomes do Houston Ballet, com papéis em montagens como "Alice no País das Maravilhas" e "Dom Quixote". Falaram também sobre Katherine Dunhan, bailarina americana, que foi fundamental para a criação da primeira lei antirracismo no Brasil.

Durante uma turnê por São Paulo, em julho de 1950, ela disse a jornalistas que faziam reportagens sobre a sua apresentação no Theatro Municipal que o gerente do luxuoso hotel Esplanada havia se recusado a hospedá-la por ser negra. A denúncia caiu como uma bomba na opinião pública e prejudicou bastante a imagem brasileira no exterior - naquela época, Dunhan era um dos grandes nomes da dança mundial.

Alguns dias depois, o deputado federal Afonso Arinos (UDN-MG) apresentaria um projeto de lei para transformar determinadas atitudes racistas em crime. Segundo o texto, quem recusasse hospedagem em hotel, entrada em estabelecimento comercial, matrícula em escola ou contratação em empresa a alguém por preconceito de raça ou cor poderia ser condenado ao pagamento de multa e ficar preso por até um ano. No dia 3 de julho de 1951, a proposta, aprovada na Câmara e no Senado, foi promulgada pelo presidente Getúlio Vargas.

"O que me motiva a realizar essa pesquisa histórica é justamente mostrar que não há apenas um destaque negro no balé. Claro, se perguntarmos quem é o grande nome brasileiro negro no balé clássico, atualmente, muita gente vai dizer que é a Ingrid", diz Fábio.

"Mas é preciso ir além e parar de associar essa arte a uma pessoa somente. Aqui nos Estados Unidos, a artista mais citada é a Misty Copeland. Começaram a divulgá-la como se ela fosse a primeira bailarina negra em uma grande companhia, mas, antes, houve muitas outras."

Balé é microcosmo da sociedade

Se os planos iniciais do Blacks in Ballet eram apenas fazer publicações a respeito do universo da dança, o racismo e a violência policial contra a população negra, sobretudo nos Estados Unidos e no Brasil, fizeram Ingrid, Ruan e Fábio repensarem o projeto.

De acordo com o Atlas da Violência 2020, divulgado no dia 27 de julho, pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, os casos de homicídios de pessoas negras (pretas e pardas) aumentaram 11,5% entre 2008 e 2019 no Brasil. No país governado por Donald Trump, assassinatos em ações policiais de negros como George Floyd, em maio, desencadearam uma série de protestos que ainda ecoam.

"É óbvio que essa triste realidade nos afeta. Ignorar esses assassinatos seria muita hipocrisia de nossa parte", afirma Fábio. "Não faz sentido só postarmos as lindas fotos das performances dos bailarinos, um mundo colorido, e deixar de abordar esse assunto no Blacks in Ballet."

Tão logo o assassinato de Floyd ganhou as manchetes dos jornais de todo o mundo, o Blacks in Ballet publicou textos em apoio ao movimento Blacks Lives Matter, por exemplo. No perfil do Instagram do projeto, chama ainda a atenção uma performance do bailarino americano Gabe Stone Shayer, clamando por uma transformação sustentável.

O vídeo vem acompanhado do seguinte texto: "Quando os negros puderem correr sem serem baleados, falar com a polícia sem serem tratados como animais, se ajoelhar contra a brutalidade policial, ser ouvidos em vez de serem examinados, viver sem medo constante de serem julgados, retidos, encurralados ou assassinados por conta da cor da sua pele, então poderemos falar sobre o que significa igualdade".

"Não acredito em luta seletiva", diz Ingrid. "'Ah, só devo brigar pela inclusão e representatividade na dança'. Não, não. É preciso falar sobre racismo, ser antirracista e sair da zona de conforto. O universo do balé clássico é um microcosmo do que acontece na sociedade."

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