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Mães e filhos

Na contramão do Brasil: elas foram promovidas durante a licença-maternidade

Metade das mulheres é demitida em até dois anos após retornar da licença maternidade - iStock
Metade das mulheres é demitida em até dois anos após retornar da licença maternidade Imagem: iStock

Ana Bardella

De Universa

26/08/2020 04h00

Quando descobriu que estava grávida, Michelli Buzogany Eboli, de 32 anos, sentiu receio de contar a novidade no trabalho: ela, que havia sido contratada para o cargo de designer há menos de três meses na Pier, empresa brasileira de seguros, não sabia qual seria a reação da chefia ao receber a notícia. "Até chorei no momento de falar com o RH", conta. Seu medo de uma reação ruim, no entanto, não chegou a se concretizar. Pelo contrário: pouco tempo depois do nascimento da filha, recebeu uma ligação da empresa informando que estava sendo promovida.

Receio comum entre as mulheres

A tensão de Michelli ao saber da gravidez é justificável: dados de uma pesquisa divulgada pela FVG em 2018 mostram que, no Brasil, metade das mães perde o emprego até dois anos depois de voltar da licença-maternidade. A maior parte das demissões acontece sem justa causa e por iniciativa do empregador. Os relatos de mulheres que foram demitidas por se tornarem mães envolvem hostilidade por parte de supervisores e dos colegas de trabalho, além de inflexibilidade nas regras da empresa para suprir suas necessidades enquanto gestantes ou lactantes.

Michelli ficou surpresa com a promoção após o nascimento da filha Aurora - Acervo pessoal - Acervo pessoal
Michelli ficou surpresa com a promoção após o nascimento da filha Aurora
Imagem: Acervo pessoal
No caso de Michelli, a trajetória foi diferente: como ela foi a primeira funcionária da startup a engravidar, a notícia foi recebida com alegria pela equipe. "Durante a gestação, tive liberdade para comparecer as consultas médicas e realizar os exames. Substituindo o chá de bebê tradicional, meus colegas organizaram uma vaquinha", relembra.

A surpresa maior veio durante a licença-maternidade. "Anualmente, recebemos um feedback dos líderes sobre nosso desempenho, mas não pude participar porque já estava afastada. Apesar disso, depois que a empresa realizou o procedimento com os funcionários, recebi uma ligação informando que estava sendo promovida. No mês seguinte, já tive um ajuste salarial", conta.

A novidade pegou a designer de surpresa: dedicando-se aos cuidados com a recém-nascida, não pensou que seria lembrada no momento da avaliação. "Nem passou pela minha cabeça que pudesse acontecer. Me senti bastante valorizada", afirma.

Exceções no mercado de trabalho

Apesar de raras, histórias semelhantes existem também em outras áreas. Quando Thais Nicolau descobriu que estava grávida pela primeira vez, ocupava o cargo de gerente de comunicação e inovação no Burger King Brasil. "Estava com 36 anos e já tinha aproveitado bastante meu casamento. Então, meu marido e eu decidimos que era o momento", conta. Ela acredita que, por já estar com a carreira bem estruturada, os medos com relação à maternidade não a afetaram tanto.

 Thais Nicolau foi promovida ao cargo de diretora de marketing durante o período - Acervo pessoal - Acervo pessoal
Thais Nicolau foi promovida ao cargo de diretora de marketing durante o período
Imagem: Acervo pessoal
"Grande parte das mulheres da empresa é formada por jovens de até 28 anos. Pelo fato de eu ser mais madura, acredito que meu caso tenha servido até como uma inspiração", opina. Thais teve uma gestação tranquila e procurou adiantar os processos que julgou como sendo os mais importantes do calendário para que pudesse executar antes do nascimento do filho. Ela também se tornou mais regrada com os horários, evitando ficar até mais tarde, pois sabia que isso seria importante após a chegada do bebê.

Sua licença-maternidade começou em outubro do ano passado e, na segunda semana de janeiro, ela recebeu uma ligação do chefe. A conversa era sobre uma reestruturação hierárquica da empresa, com a criação de uma nova camada de diretoria. Com isso, ela foi convidada a assumir, ainda afastada, o cargo de diretora de marketing. "Sabia que eventualmente esta reestruturação poderia acontecer e acreditava ser a pessoa mais indicada à vaga. Para mim, ser promovida durante a licença foi algo especial, que reforça a minha competência, ainda mais por trabalhar em uma empresa de cultura meritocrática, na qual a pessoa que apresenta os melhores resultados é mais reconhecida".

Benefícios da promoção durante a licença

Bia Nóbrega, coach e conselheira na área de recursos humanos, explica que além de trazer benefícios para as funcionárias, promover mulheres no período da licença maternidade é positivo para empresa. "Os demais membros percebem o quanto as lideranças são capazes de reconhecer e valorizar as competências da equipe. Além disso, quando uma mulher é promovida, independentemente de estar afastada temporariamente, isso contribui para a diversidade no mercado de trabalho, uma vez o percentual feminino em níveis hierárquicos superiores aumenta", afirma. A especialista ressalta que, em situações como esta, a profissional pode se preparar melhor para o desafio do retorno e, com isso, desempenhar as funções de maneira mais eficaz ao retomar o dia a dia.

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