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Mulheres negras empreendem mais por necessidade e pedem apoio psicológico

FG Trade/Getty Images
Imagem: FG Trade/Getty Images

De Universa

31/07/2020 04h00Atualizada em 31/07/2020 10h00

A crise econômica derivada da pandemia do coronavírus no Brasil tem atingido especialmente as mulheres negras, seja com desemprego, redução da fonte de renda ou dificuldades para manter seus negócios ativos. Essa é uma das conclusões de um levantamento com 369 mulheres feito pelo Instituto Identidades do Brasil (ID_BR).

"Mulheres negras, segundo dados do Ipea [Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada] estão num quadro de 50% mais vulnerabilidade de ficar desempregada. É o lado mais sensível da pirâmide social", diz Luana Génot, Diretora-Executiva do ID_BR, mestra em relações étnico-raciais e autora do livro "Sim à Igualdade Racial".

Esse grupo representa 28% do total da população brasileira, segundo o IBGE, o que equivale a 60 milhões de habitantes. Entre as mulheres que responderam espontaneamente ao questionário feito pelo instituto pela internet, a maioria tem ensino superior e é do Sudeste; 18% está desempregada e outras 33% são empreendedoras.

Apesar de o estudo não ser probabilístico e não pode ser ampliado para a situação de todas as mulheres negras brasileiras, ele indica as dificuldades enfrentadas por essa parcela da população. Um dos pontos aprofundados no estudo é a questão do empreendedorismo feminino negro.

"Precisamos criar intencionalmente políticas para que essas populações tenham acesso [a situações mais igualitárias", diz Luana. "Muitas mulheres que chegam ao mercado de trabalho encontram um ambiente refratário. De maneira geral, elas estão em cargos aquém de sua capacitação técnica, precisam estudar ainda mais, mas lhes sobram os cargos operacionais. Esses ambientes precisam se reinventar."

O fato de ocupar mais cargos operacionais -mesmo com qualificação superior— as torna mais "descartáveis" em momentos de crise dentro da cadeia de produção. Invisíveis dentro das empresas, elas também têm dificuldades de serem vistas quando deixam o mercado de trabalho para se tornar fornecedoras.

Quando empreender é sobreviver

Entre as que responderam o levantamento, 60% decidiram abrir um negócio por necessidade, não por vocação ou por ter identificado uma oportunidade -situação que em geral indica menor planejamento gerencial e financeiro para alicerçar a empresa que está nascendo.

Dessas, 45% relataram que não conseguem alocação ou reconhecimento no mercado e 15% perderam o emprego ou tiveram suas fontes de renda reduzidas durante a pandemia e foram empurradas para a abertura de um negócio para sobreviver.

Para Luana, elas estão concentradas em áreas já saturadas, como beleza e moda, o que dificulta a inovação e superação do momento de crise. "Além de serem áreas absolutamente afetadas pela pandemia", pontua.

"Meu negócio é minha única fonte de renda. Durante a pandemia, ficamos fechados durante 3 meses. Meus pais tiveram Covid-19 e no hospital meu pai sofreu racismo e maus tratos. Sou microempresária, não tenho condições de ter capital de giro", relatou T. S., do Rio de Janeiro, às pesquisadoras.

Ela conta que não conseguiu o "auxílio da Caixa" (emergencial, do governo federal), e que gostaria de vender direto pelo Instagram, mas não tem capital para isso. "Os bancos não disponibilizam empréstimo nesse momento, eu tentei. Estou devendo a fornecedores."

Sobrecarga mental na pandemia

O instituto perguntou às entrevistadas qual é a principal necessidade delas neste momento: 45% delas contaram que precisam de apoio psicológico -mais do que o dobro (18%) das que indicam que precisam mais de capital de giro (dinheiro necessário para bancar a continuidade do funcionamento da sua empresa ou casa). "A saúde mental dessas mulheres está em risco", diz Luana.