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Aos 30, tentei aprender a andar de bike na pandemia. Eu não estava pronta

"Uma mulher reaprendendo a andar de bicicleta não quer guerra com ninguém". Será? - Arquivo pessoal
"Uma mulher reaprendendo a andar de bicicleta não quer guerra com ninguém". Será? Imagem: Arquivo pessoal

Nathália Geraldo

De Universa, em Santos (SP)

14/07/2020 04h00

Desde o segundo mês de isolamento social, estou trabalhando da casa dos meus pais, em Santos, litoral paulista. Sim, meu escritório tem sido na praia. E, em pelo menos dois finais de semana, cheguei a visitá-la: pegamos o carro para dar uma voltinha na avenida, ver a paisagem e os poucos pedestres que se aventuravam a caminhar na faixa de areia ou pedalar na ciclovia anexa ao maior jardim de orla do mundo (perdão pelo bairrismo).

Foi em um desses passeios de carro que pensei: "E se eu também viesse andar de bicicleta? O meio de transporte é individual e permite o distanciamento físico que deve ser respeitado". A única questão é que eu precisaria reaprender a andar de bicicleta. Quer dizer, a fazer curvas. O fato de saber ficar sobre duas rodas, mas só em linha reta, se deu porque eu tive aulas em um terreno pequeno (em que eu descia da bike para mudar de lado) e por só ter encarado o desafio novamente quando testei o aplicativo de aluguel de bicicletas para uma reportagem — definitivamente, jornalismo é a paixão de superar a si mesmo por umas linhas de texto.

No último final de semana, a Baixada Santista entrou na fase amarela do Plano São Paulo, plano estadual de retomada econômica. Isso significou também a suspensão de restrição de horário para ciclistas, caminhantes e corredores que se exercitavam à beira mar. Só que, como o prefeito santista, Paulo Alexandre Barbosa, disse no Instagram, a praia ficou cheia.

Pior: com muita gente descumprindo a obrigatoriedade de usar máscara e formando aglomerações. A Guarda Municipal teve trabalho — no Rio de Janeiro, também — e é possível que voltem as restrições, se a população não colaborar.

Meu desafio de reaprender a andar de bicicleta ganhou outros contornos: o medo de cair no chão (Ludmilla e seu "medo de cair de moto e se ralar" me representavam bem) se somou à apreensão de ver o espaço público lotado, à revelia de uma crise de saúde global.

Eu saí de casa para trabalhar, e cumpri as regras de distanciamento. Mas também estava na rua para fazer algo que eu nunca tinha feito, consciente de uma coisa: eu não estava pronta para pedalar. Conto minha estratégia de aprendizado, em dois dias, e os perrengues que passei, aqui.

Andar de bicicleta na pandemia: toda hora eu ia para escanteio

Na tarde de sábado, aluguei na orla da praia uma bicicleta pelo aplicativo Bike Santos. Depois de um cadastro simples (o meu estava adormecido desde a reportagem que eu fiz, há pelo menos oito anos), é possível pedalar de graça por 45 minutos. De máscara, com álcool em gel na cestinha - e água, sempre - fui direto para a ciclovia. Quem me acompanhou nesta saga e fez os registros foi meu pai; e ele também cumpria todas as recomendações de distanciamento. Seguimos.

Antes de subir na bike, conversei com a agente de viagens Ingrid dos Santos Reis, que devolvia o equipamento para uma das estações do Bike Santos. "Qual é a sensação de voltar a pedalar?", perguntei. "Liberdade. Ser livre de novo", ela disse. O que posso dizer é que nas camadas de emoção que eu senti sobre duas rodas, essa era a última.

Receio por mim e pelos outros

Experimenta ciclovia - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Ainda buscando equilíbrio, sem querer, eu avançava para a área de grama; foram umas cinco vezes nesta tentativa
Imagem: Arquivo pessoal

Temos vivido tempos em que encontrar com o outro gera receio. E foi o que senti o tempo todo pedalando. Apesar de não correr tanto risco de cair, porque era só pedalar em linha reta. Senti medo nas vezes em que alguém se aproximava para me ultrapassar. Tive pavor de provocar algum acidente. Meio desajustada, "fui para escanteio" umas cinco vezes, levando a bike para a grama lateral. O coração disparava e, dos 45 minutos, chuto que em apenas 3 minutos eu me senti confiante e livre.

Ao tentar entrar de novo "em campo", me senti o centro das atenções de todo mundo - de maneira negativa. Os policiais que trabalham em uma das áreas mais agitadas da ciclovia, perto do bairro comercial Gonzaga, me acompanhavam com os olhares enquanto eu me dirigia novamente para fora da área cimentada. Uma família calculava quanto tempo mais eu demoraria a subir na bike e seguir o fluxo. "É que ela está aprendendo a andar depois de adulta", avisava meu pai para os passantes. Foi ele, aliás, que dobrou a meta do desafio:

Amanhã, você treina mais e volta.

Pelas curvas das ruas de Santos: treino é treino, jogo é jogo

Andar de bicicleta na Vila Belmiro - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Treinei na rotatória antes de seguir para uma rua vazia; 20 minutos de passeio e já estava mais segura
Imagem: Arquivo pessoal

No domingo de manhã, mudamos a estratégia: antes de ir para a praia, mais movimentada, circulei pelas ruas do bairro. Usei a bicicleta que meu pai acabou de ganhar em uma rifa e ele ficou com a bike de aplicativo. Que diferença. Com mais controle sobre duas rodas, passei até em frente à Vila Belmiro, estádio do Santos FC, onde fiquei girando na rotatória para desenvolver minha habilidade de virar o guidão. Jogar em casa, realmente, é muito mais fácil.

Com mais 20 minutos fazendo curvas em uma rua totalmente vazia, pude ter concentração total. Reparei que estava 90% mais segura, finalmente, para a terceira parte do experimento: voltar à ciclovia da praia e finalmente curtir o final da tarde sentindo a brisa do mar no rosto.

Segura, mas não pronta

Ciclovia Santos - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
No final da tarde de domingo (12), movimento na ciclovia santista
Imagem: Arquivo pessoal

Para quem, como eu, não está furando a quarentena, sair de casa já acende um alerta. E foi nesse estado que cheguei à última parte do meu desafio pessoal. Imaginei que, no final da tarde de domingo, a praia estaria bombando. Mas achei mais tranquila do que no dia anterior.

Com mais estabilidade na bicicleta do meu pai, sobrou até tempo para refletir o quão simbólico era eu estar ali pela terceira vez, aos 30 anos, tentando guiar algo que aparentemente era muito fácil para os outros (como eles conseguem sorrir? Fazer selfies mascaradas com uma mão só no guidão?), mas, para mim, era uma pequena conquista em meio a um dos períodos mais caóticos que já passamos na vida.

Eu não tinha o controle da situação e, disso, tirei minha grande lição: assumir que não está pronta faz parte do reconhecimento de que sempre é tempo de aprender (o pagode dos anos 90 do Soweto bem que tentava me alertar). Pedalei por cerca de 20 minutos, sem ocorrências preocupantes, mas lidando com o fato de que o "expectativa x realidade" era bastante discrepante na minha cabeça.

Luana e Kayky - Nathália Geraldo/UOL - Nathália Geraldo/UOL
Luana e Kayky curtiam a vida ao livre pela primeira vez desde o começo do isolamento social; ele levou o skate
Imagem: Nathália Geraldo/UOL

Neste dia, conversei com a corretora de seguros Luana Araujo, que também pegaria uma bicicleta no sistema de aluguel. Ela levou seu filho, Kayky, 11, para andar de skate na mesma pista que eu. Os dois usavam máscaras e, ainda que felizes pela retomada da opção de lazer, ela se dizia preocupada com o futuro. "Saio com medo. Aliás, acho que nunca mais será a normalidade de antes". Me despeço dos dois e pedalo mais alguns metros (na minha cabeça, quilômetros).

Alheio ao meu temor de me ralar e ao de Luana sobre o futuro da pandemia, Kayky passa por mim sobre o skate. Pleno, curte a brisa do mar e se concentra apenas no barulho que a rodinha faz em contato com o chão. Não deixa que o medo o engula.

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