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Mãe de Emicida cria podcast sobre raça, faz bonecas e quer boicote a marcas

Divulgação
Imagem: Divulgação

Fabiana Bastista

Colaboração para Universa

19/06/2020 04h00

Para dona Jacira, 55, a quarentena tem sido muito produtiva. Além de cuidar de suas hortas e trocar receitas com os filhos, entre eles o rapper Emicida, ela lançou dois projetos: o podcast "Estórias de Família", que relembra uma infância dolorosa e permeada de racismo —"Ali [no podcast] eu resgato minhas memórias e dores. Dores essas, vividas ainda hoje por pessoas negras como eu"—, e uma coleção de bonecas de pano, confeccionadas com retalhos de tecido por ela e por pessoas do bairro em que mora, na zona norte de São Paulo.

Em uma tarde de quarta-feira, enquanto fazia seu tratamento diário de hemodiálise no Hospital das Clínicas, Jacira Roque de Oliveira, a Dona Jacira, conversou, por telefone, com Universa. Ela conta sobre a relação com os quatro filhos, os "meninos", e ri ao lembrar das vezes em que foi reconhecida nas ruas. "Acho cômico quando dizem 'Nossa, essa é a mãe do Emicida'." Ela também conta que se identifica como ativista política e sugere: "Precisamos encontrar outras formas de nos manifestar. Sobre as grandes empresas, por exemplo, já não está na hora de boicotá-las?"

Dona Jacira - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação

UNIVERSA: Em três meses de quarentena, a senhora já lançou um canal de podcast e participa de outros, criou uma coleção de bonecas e fez oficinas online. Como está essa rotina?

JACIRA: A programação era outra, o podcast no formato anterior era um livro. As bonecas, que começaram a ser confeccionadas em dezembro, seriam lançadas em um evento. No entanto, tivemos que repensar todo o projeto. Desde o início do isolamento, trabalho por videochamadas e aproveito para descansar, porque não nasci apenas para o trabalho. Começo a cuidar da minha horta às 6h da manhã, coloco adubo e minhocas na terra. No período da tarde, vou para o HC [Hospital das Clínicas de São Paulo], para o tratamento da hemodiálise, que me acompanha há 22 anos. E, de noite, eu só me animo se for para sair para algum samba, mas neste período faço um alongamento, e me preparo para dormir.

A senhora é mãe do produtor musical Evandro Fióti e do rapper Emicida. Eles te ajudaram a retomar seus projetos?

Minha arte estava guardada em um canto, e quando meu filho [Emicida] me incluiu nas músicas dele, isso me deu esperança, e reconheci que tenho chances de retomar. Eles me estimularam. Eu comecei a estudar a diáspora negra [migração forçada dos negros da África para o Brasil] e, a partir daí, colocar no papel a minha vivência. Foram eles que me ajudaram a ter visibilidade, e acho cômico quando as pessoas dizem "nossa, essa é a mãe do Emicida".

Como é sua relação artística com eles?

Nossa relação é baseada na troca. Eu tenho o saber da cozinha e do cuidado com as hortas, e eles, o conhecimento das novas tecnologias. Então, para fazer um jardim, os meninos me procuram. Por outro lado, eles me ajudam a divulgar e vender meu trabalho na internet. Além disso, sempre fui muito ligada às memórias tradicionais: cantos antigos, jongo, umbigada, artistas nordestinos como Luiz Gonzaga. E foram esses os primeiros contatos que eles tiveram com a cultura. Meus filhos trouxeram a modernidade para os ritmos que eu já ouvia, porque para mim o rap nada mais é do que o tataraneto do jongo e o bisneto do samba.

Temos visto manifestações no Brasil e em outros países contra ações racistas. Como a senhora vê esse momento?

O genocídio negro é histórico e a política está uma bagunça. A polícia protege esse povo baderneiro, que é aliado do presidente da República [Jair Bolsonaro], e nós já sabemos que ele não quer o nosso bem. Eu sou ativista política desde os 14 anos, já briguei, apanhei e corri muito. Entretanto, precisamos encontrar outras formas de nos manifestarmos.

As grandes empresas, por exemplo, são, em sua maioria, ligadas ao agronegócio e ao fundamentalismo, que odeiam os negros, os LGBTs e as mulheres. Já não está na hora de boicotá-las?

No podcast "Estórias de Família", a senhora narra lembranças de racismo que sofreu na infância. No 2º episódio, por exemplo, conta que uma professora do ensino fundamental pediu que a diretora a transferisse da primeira para a segunda série, porque era uma aluna avançada. Mas a diretora a tirou da sala de aula e a colocou para lavar as latrinas. Essas lembranças machucam ou intensificam sua força?

Quando falamos que a luta contra o racismo é um ritual diário, é sobre situações como essas que eu falo. Ali [no podcast] eu resgato as minhas memórias e dores. Dores essas, vividas ainda hoje por pessoas negras como eu. Eu tive uma infância roubada, ouvi de professores e diretoras que não era capaz de escrever ou fazer o que desejasse, porque sou negra. E ainda hoje as crianças negras que vão para a escola passam pelo mesmo. Precisei reafirmar para mim mesma que posso ser o que quiser, e que a minha cor não é um problema, problema é o racismo das pessoas. Além do mais, com essas memórias, eu também procuro chamar a atenção de pessoas brancas. Nós já cansamos de ser o que destinaram que fôssemos, não permitiremos mais sermos explorados.

Dona Jacira - Divulgação - Divulgação
Dona Jacira posa com a sua produção de bonecas de pano
Imagem: Divulgação

Ainda sobre seus projetos da quarentena, cada boneca foi feita com formatos, cores e gêneros diferentes. De onde surgiu essa preocupação?

Minha mãe e avó já produziam nossas bonecas. Eu, desde nova, quatro, cinco anos de idade, já fazia tricô e crochê, e hoje trabalho com materiais de retalho. Comecei a estudar a possibilidade de resgatar esse costume e procurei um curso. Na busca, percebi que a maioria ensina um formato padrão de boneca e seus kits de tecidos são cor "de pele". Me questionei: que cor de pele é essa, e por que os corpos são iguais? Dessa ausência de diversidade, surgiu a ideia de confeccionar bonecas variadas: gordas, magras, negras, indígenas, trans. Dentro da proposta, tratamos do racismo, mas também buscamos dar visibilidade às diversidades sexuais. O objetivo é tratar, a partir da brincadeira, assuntos sérios com as crianças.

As mulheres ganham destaque em suas obras. Quem são as mulheres que te inspiram?

Foi através da luta das minhas ancestrais que eu consegui chegar aqui, minha mãe, avós e também vizinhas antigas foram responsáveis pela minha educação e das crianças da minha época. A minha mãe, por exemplo, foi uma pessoa à frente de seu tempo, e precisou trabalhar em dois empregos para cuidar de mim e dos meus irmãos. Eu, quando adulta, segui o mesmo caminho. Converso com os meninos, "vocês precisam tomar cuidado, porque dentro da nossa família, restaram poucos homens". E sabe por quê? Os homens negros são mortos a torto e a direito —se envolvem em brigas, com o álcool ou são mortos pela polícia.

Como você tem encarado a pandemia no país?

A verdade é que caímos em um buraco. A desgraça já estava presente, vivemos miséria, suicídios, enchentes, muita gente em situação de rua. Agora, com o vírus, percebemos que somos ainda mais vulneráveis. Com esse presidente, governador [João Doria] e prefeito [Bruno Covas], a desgraça era prevista, não? Há quantos anos não se constrói um hospital na cidade [de São Paulo]? Quantos hospitais particulares estão parados, enquanto constróem outros de plástico? Além disso, há pessoas que perderam suas empresas, trabalhos ou que não podem se isolar porque precisam trabalhar. Não há políticas públicas eficientes para elas. Acredito que ainda vamos enfrentar outros vírus, porque enquanto não respeitarmos a diversidade, as crianças e a natureza, nada vai fluir.

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