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"Fico triste pelos pais dos alunos", diz vítima de racismo em escola do RJ

A estudante Fatou Ndiaye - Reprodução/Instagram
A estudante Fatou Ndiaye Imagem: Reprodução/Instagram

Elisa Soupin*

Colaboração para Universa

20/05/2020 14h15Atualizada em 20/05/2020 18h45

A aluna do colégio Franco-Brasileiro Fatou Ndiaye, 15, filha de senegaleses, foi surpreendida no último domingo ao saber por um amigo que seus colegas de colégio, uma escola de elite do Rio de Janeiro, trocavam mensagens racistas sobre ela por meio de um aplicativo de conversas.

"Eu recebi as mensagens por um amigo que fazia parte do grupo e me contou que as mensagens estavam sendo trocadas. Ele me encaminhou os prints [das telas de conversa]", disse ela a Universa.

Entre o conteúdo racista, havia mensagens que diziam "dou dois índios por um africano", "1 negro vale uma jujuba, 1 negro vale um pedaço de papelão, 1 negro vale um Trident", entre outras frases de violência e apologia à escravidão e ao tráfico humano que Universa optou por não reproduzir.

A família registrou um Boletim de Ocorrência. O Colégio Franco-Brasileiro publicou uma nota de repúdio e disse que está apurando os fatos para tomar as "devidas providências".

A adolescente conta que pensou primeiro nos educadores do colégio. "Pensei nos meus professores, que sempre foram muito engajados, sempre demonstraram muito apego à luta racial, sempre me deram voz pra expor minhas ideias. Uma professora me mandou uma carta em que disse sentir que falhou. Eu não acho que ela falhou e eu pensei primeiro neles", diz ela.

Ela explica que se sentiu revoltada, mas não ficou abalada ou triste. "Eu não fiquei triste porque eu sei quem eu sou, eu sei qual é a minha história, não vou deixar quatro pessoas que não conhecem nada de mim me abalarem. Eu fiquei indignada, mas ficar triste, eu fico triste pela família do João Pedro, que perdeu seu filho. Fico triste também pelos pais desses meninos, porque imagino que essas famílias fizeram tudo para educá-los", diz ela.

Orgulhoso do desempenho escolar da filha, o pai, Mamour Ndiaye, doutor e professor de engenharia elétrica no Cefet-RJ, conta que Fatou estuda há dez anos na mesma instituição e já ganhou vários prêmios internos de poesia.

Iza e Taís Araújo repudiam ato e dão apoio

Nas redes sociais a cantora Iza mandou uma mensagem de apoio. "Como você é maravilhosa! Linda demais! Nunca deixe que nenhuma pessoa, por mais idiota e baixa que ela seja, diminuir sua força e seu brilho", escreveu a artista.

Ela também recebeu mensagens da atriz Taís Araújo, que disse ser um dever "enquanto mulher negra, mãe de uma menina negra, e cidadã", se posicionar nessas situações.

"Extremamente racistas", diz colégio

Em nota, o Colégio Franco-Brasileiro disse que tomou ciência do ocorrido envolvendo os alunos do primeiro ano do ensino médio na segunda-feira (18). A instituição classificou o conteúdo das mensagens como "extremamente racistas".

"Estamos profundamente indignados com o ocorrido e reiteramos que o Colégio Franco-Brasileiro repudia, de forma veemente, toda forma de racismo", disse a escola.

"O ato de discriminar agride os Direitos Humanos e o princípio da dignidade da pessoa humana. É nossa responsabilidade enfrentar o racismo nos diferentes espaços que ocupamos, incluindo os ambientes virtuais", continua.

A nota termina dizendo que a escola está "analisando todos os fatos para que as devidas providências sejam tomadas".

Aluna cobra ação da escola

A aluna vítima de racismo, no entanto, considera que uma nota de repúdio é uma medida insuficiente.

"A nota de repúdio foi um nada. Falou muito sem dizer nada. O que a gente quer saber é se o colégio vai tomar medidas efetivas. Como pessoa atingida, não acho que estou na posição de dizer quais são as medidas. Não sou eu que tenho que apontar o dedo. Mas acho que existe um regimento escolar e eu sei o que está previsto nele para casos de racismo", diz ela.

Por enquanto, o pai da menina, Mamour Ndiaye, decidiu que a jovem não assistirá mais às aulas que estão sendo administradas à distância, até que a escola tome um posicionamento efetivo.

"Apesar de amar meus professores, acredito que precisa haver uma mudança pedagógica, o cronograma de história da África deve que ser mais aprofundado. Como a gente quer educar uma criança não racista quando aos 9 anos a primeira associação que ela tem com a África é o desenho de um navio negreiro e a escravidão?", diz Fatou.

*Colaborou Redação

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