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"Torcem para você dar errado": a difícil tarefa de ser uma prefeita mulher

Beth Pelaes, prefeita de Pedra Branca do Amapari, no Amapá - Divulgação
Beth Pelaes, prefeita de Pedra Branca do Amapari, no Amapá Imagem: Divulgação

Breno Damascena

Colaboração para Universa

17/10/2019 04h00

No dia 8 de setembro de 1928, o jornal americano The New York Times dedicou parte do noticiário para um desconhecido município do Nordeste do Brasil. Naquele ano, o mundo vislumbrava a eleição de uma viúva, mãe de três filhas, para a prefeitura de Lajes, no Rio Grande do Norte. Alzira Soriano foi a primeira mulher a assumir o governo de uma cidade na América Latina. As brasileiras conquistariam o direito de votar apenas quatro anos depois, em 1932.

Alzira desempenhou a função por pouco tempo, saindo do cargo no ano seguinte em protesto contra o golpe que levou Getúlio Vargas ao cargo de presidente. Hoje, mais de 90 anos depois do histórico acontecimento, as mulheres evoluíram na ocupação de cargos políticos. No entanto, os números ainda são minguados. Em 2016, apenas 649 mulheres foram eleitas prefeitas nas 5.568 cidades brasileiras, o que representa 11,7% do total.

De acordo com um relatório do Instituto Alziras, organização que busca aumentar a participação de mulheres na política, os municípios governados por mulheres abrangem apenas 7% da população do país e 91% delas foram eleitas em municípios com até 50 mil habitantes. É o caso de Marilete Vitorino, prefeita de Tarauacá, no Acre, com uma população de quase 42 mil pessoas.

"Parece que, pelo fato de ser mulher, a gente é mais cobrada. São muitas críticas e falta compreensão, por querer realizar o trabalho de forma diferente", diz, sobre as dificuldades que enfrenta uma prefeita mulher.

Filha de um ex-vereador e prefeito, Marilete diz que não tinha interesse em se candidatar até ver seu nome em uma pesquisa eleitoral. "Recebi um convite para pleitear a função de vice-prefeita. Demorei, mas aceitei em nome da minha família."

Para assumir a função, ela, que trabalhou na área de direito criminal e foi educadora em uma escola pública, teve que deixar de lado outras ocupações. "Uma prefeitura requer tempo integral, não tem horário de folga. É na porta das prefeituras que as pessoas batem atrás de soluções para os seus problemas. Poucas mulheres têm coragem de abdicar de suas famílias."

Como forma de tentar mudar esse cenário, a prefeita se tornou integrante do Movimento de Mulheres Municipalistas (MMM) da Confederação Nacional de Municípios (CNM). Criado em 2017, o projeto tem o objetivo de aumentar a participação e a representatividade feminina na política, principalmente no âmbito municipal. "Temos espaço para ser conquistado e lutas para vencer. É necessário apoio para superar os entraves que ainda nos separam da vida pública", diz Tânia Ziulkoski, uma das fundadoras do movimento.

Para Tânia, a baixa presença feminina em cargos políticos importantes é reflexo de um preconceito entre as próprias mulheres. "Mulher não vota em mulher. A maioria dos eleitores das mulheres são do sexo masculino", diz. Uma mudança nesse cenário aconteceria a partir da vontade das mulheres de fazer parte disso, defende Tânia. "Não é para entrar só para preencher cota, tem que gostar."

O estudo Perfil das Prefeitas no Brasil (2017-2020), do Instituto Alziras, mostra que, enquanto 50% dos prefeitos têm ensino superior, cerca de 71% das mulheres se formaram em um curso universitário. "Ser prefeita nos faz abdicar de muitas coisas pessoais, é um sacerdócio", diz Beth Pelaes (PMDB), prefeita de Pedra Branca do Amapari, no Amapá. Antes de tomar posse, ela era sócia de um consultório odontológico.

"Ou estamos mergulhadas na missão de enfrentar e derrubar os obstáculos, ou passamos despercebidas na história", diz Beth. A prefeita defende o apoio de instituições governamentais às mulheres para que a participação feminina em cargos públicos aumente.

Faltam financiamento, informação e incentivo

Beth é filha de Socorro Pelaes, primeira prefeita do município, e sobrinha de Fátima Pelaes, ex-deputada federal e secretária especial de Políticas para as Mulheres do governo Michel Temer. Foi por intermédio da mãe que recebeu o convite para concorrer ao cargo. O uso de capital político familiar não é raro em disputas eleitorais. Cerca de 74% das prefeitas do Centro-Oeste têm familiares em cargos públicos. No Sudeste e Sul, 71%. No Norte, 64%, e no Nordeste, 60%.

"Mulheres são empurradas para cargos dessa natureza por diversos motivos, mas não podemos achar que elas são marionetes só por causa disso", diz Karin Vervuurt, cofundadora do #ElasNoPoder, projeto que atua na formação de lideranças políticas femininas. "Muitos homens se apropriam do capital político da família, porém não recebem este tipo de crítica."

Karin explica que as mulheres são menos incentivadas socialmente a disputarem cargos políticos. "Os homens vivem escutando 'você deveria se candidatar, pois fala muito bem' ou 'você tem uma personalidade de liderança'. Isso é uma espécie de validação", aponta.

A cientista política atribui uma série de motivos para a desigualdade de gênero no ambiente político. "Não existe uma cultura de empresárias financiarem políticas. O ambiente partidário é hostil porque são os homens que tomam as decisões. As mulheres sofrem com a falta de informação e os partidos não costumam auxiliar nisso. E a maternidade exige muito mais energia das mulheres", lista Karin.

Educação e saúde como prioridades

A cientista política defende que, a longo prazo, a eleição de mulheres contribuiria para diminuir a desigualdade social e a corrupção. O estudo do Instituto Alziras aponta que as prioridades das prefeitas eleitas são educação e saúde.

"Quando o Estado é capaz de sanar necessidades básicas, as pessoas se tornam mais conscientes e participam ativamente, inibindo práticas corruptas", diz Karin. O problema é que o processo de inserção nesse espaço tradicionalmente masculino não estaria sendo ainda tão amigável. "Os homens ainda não sabem como lidar [com as mulheres na política]", pontua.

Essa conjunção provoca números alarmantes: 53% delas já sofreram assédio ou violência política pelo simples fato de serem mulheres, e 23% alegam desmerecimento do seu trabalho. Karin comenta que essa rejeição é significativa porque as pessoas, em geral, atribuem características esperadas para os cargos, como liderança e força, aos homens.

A representatividade é, então, condição fundamental para mudar o cenário: 55% das mulheres incentivam outras a entrarem na política. Desta forma, Karin comenta que as cotas e o financiamento obrigatório são essenciais para incentivar a participação feminina.

No Espírito Santo, apenas quatro mulheres se elegeram nos 78 municípios. Uma delas é Iracy Baltar, prefeita de Montanha, no extremo norte do estado. "Nossa sociedade é patriarcal e machista. Embora tenhamos visto muitos avanços, a ocupação da mulher ainda é modesta. Nos veem com desconfiança. É um desafio que vencemos todos os dias", diz a ex-professora de matemática.

"Minha trajetória foi, sim, diferente por ser uma mulher. As pessoas apostam que você vai dar errado. E, no fundo, até torcem para dar. Não é difícil só para mim, mas para todas que estão nesse lugar", diz Iracy. Apesar das dificuldades, ela sinaliza que a situação está mudando. "Estamos em um caminho bom, exigindo a participação proporcional. Mas não podemos deixar que isso não retroceda."

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do informado, Getúlio Vargas não foi eleito em 1930. A informação foi corrigida.

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