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Tenente-coronel exonerada do governo Bolsonaro: "Outras mulheres sairão"

Márcia Amarílio foi a primeira mulher nomeada para o grupo de transição do presidente Jair Bolsonaro - Arquivo pessoal
Márcia Amarílio foi a primeira mulher nomeada para o grupo de transição do presidente Jair Bolsonaro Imagem: Arquivo pessoal

Luiza Souto

Da Universa

24/05/2019 04h00

A tenente-coronel do Corpo de Bombeiros do Distrito Federal Márcia Amarílio da Cunha Silva, de 44 anos, foi a primeira mulher nomeada para o grupo de transição do presidente Jair Bolsonaro. Há 25 anos na corporação, ela participou de sua campanha e, após as eleições, foi nomeada subsecretária de Fomento às Escolas Cívico-Militares do Ministério da Educação, pasta então comandado por Ricardo Vélez-Rodriguez.

Antes de ouvir a primeira pergunta da Universa para esta entrevista, Márcia quis justificar sua nomeação: foi para suavizar o ambiente masculino conhecido no militarismo.

Mas durou 72 dias. Márcia foi exonerada no início de maio. E afirma que outras mulheres com quem atuou na pasta também sairão. O MEC não confirma e, por nota, informa apenas que "os cargos do Ministério da Educação são de livre nomeação e livre exoneração, conforme artigo 37, inciso II da Constituição Federal".

Mãe de um jovem de 22 e uma menina de 9, a tenente-coronel diz entender como natural sua saída com a chegada de um novo ministro -- Abraham Weintraub. "Quando muda um ministro, mudam-se as peças", mas lamenta não ter tido tempo de mostrar trabalho. "Quis apresentar tudo que estava construindo, mas já vieram com o nome para substituir".

Universa: É verdade que o governo deixa as mulheres de lado?
Márcia Amarílio:
No meu caso, não. Fiquei voltada para a subsecretaria, e lá, de oito integrantes, um era homem. Eu tive a preocupação de privilegiar primeiramente os currículos, voltados à área, e também optei por mulheres para quebrar a imagem de que o universo militar é todo masculino.

Somente a senhora foi exonerada?

Só eu saí, mas existe uma documentação interna tramitando para que as outras mulheres que entraram comigo sejam substituídas também. A Casa Civil já está fazendo uma pesquisa sobre as pessoas a serem nomeadas. Era algo que não queria. Infelizmente, aconteceu.

Foi uma decisão política, a sua saída?
É claro que foi uma decisão política, pelo fato de não ter a oportunidade de mostrar o que estava desenvolvendo. Quando me deram a notícia de que iriam me substituir, já vieram com um nome, que é um coronel do exército (Aroldo Ribeiro Cursino).

Como foi esse convite para entrar no governo?
Foi o ministro Vélez quem me convidou. Já existe uma polêmica com essa questão do militar dentro da escola. Então ele considerou como um ponto positivo ter uma mulher, para suavizar a pasta e quebrar a imagem desse cenário de que o militarismo é ambiente masculino. E ele ficou feliz também porque sou do Corpo de Bombeiros, e pesquisas mostram que é uma das corporações de maior credibilidade.

O que você conseguiu fazer durante esses 72 dias no governo?
Consegui levantar que o Brasil tem hoje 243 colégios que seguem o modelo militar. O Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira) não tinha essa pesquisa. A ideia era pegar uma escola municipal ou estadual que quisesse aderir a esse modelo e testar, mas não deu tempo. Fora isso, fiz um levantamento sobre as mudanças legislativas as quais os estados precisavam para adotar o programa, escrevi um decreto presidencial criando a subsecretaria, além do espaço físico dentro do MEC para seu funcionamento.

E que modelo militar é esse?
Essas escolas têm atividades extracurriculares voltadas para o civismo e patriotismo. Iríamos, por exemplo, disponibilizar matérias de introdução ao direito constitucional, noções do meio ambiente, matérias sobre combate às drogas e educação no trânsito. Colégio militar não é só marchar.

E qual a sua opinião sobre a escola sem partido ou ter ou não debate sobre sexualidade na sala de aula?
A sexualidade é vista de forma respeitosa. Dentro do militarismo, não há tratamento diferenciado. O ensino militar é baseado na hierarquia e disciplina, que é estabelecer respeito entre as pessoas e manter a rotina dentro e fora da escola. Trabalhamos também com o pluralismo de ideias, que significa não tendenciar a uma determinada história e não direcionar a criança a determinado fato. Nós mostramos todos os lados.

Quais os desafios de servir a uma corporação dita masculina?
No início, foi um choque cultural. Sou da segunda turma, e a primeira era composta por três mulheres. Ainda me enquadro como pioneira dentro dessa história. Existia uma certa resistência, mas muito sutil, porque no militarismo se respeita. Um exemplo: o teste físico era único para mulher e homem. Então, tinha que me esforçar mais do que eles para conseguir um índice, mas que continuava aquém. Hoje é diferente.

Também não tinha banheiro para as mulheres em todas as unidades. Tinha que ir no do comandante. Hoje 100% dos quarteis novos têm banheiro, e os mais antigos fazem adaptação. Sobre assédio e cantada, não sofri.

E o que está fazendo hoje?
No momento, estou aguardando lotação na diretoria de ensino. Cuido do planejamento das diretrizes da instituição. Recebi alguns convites para voltar ao governo, mas estou aguardando para ver se será interessante.

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