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Izabella Camargo: "Encontrei muita gente que não estava a fim de trabalhar"

Izabella Camargo - Reprodução/Instagram
Izabella Camargo Imagem: Reprodução/Instagram

Luiza Souto

Universa

26/04/2019 11h54Atualizada em 26/04/2019 18h47

A jornalista Izabella Camargo tinha acabado de conversar com um procurador do Ministério Público do Trabalho de Campinas sobre uma possível epidemia de doenças ocupacionais quando atendeu Universa.

Demitida da Globo após diagnóstico de Síndrome de Burnout e depois de pedir exoneração do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, ela fala que agora quer fazer do tema a sua bandeira. "Ouvi do procurador que temos um exército de trabalhadores doentes, uma epidemia".

Pela primeira vez, ela explica sua saída da pasta comandada por Marcos Pontes. E lista o que conseguiu fazer nesta passagem meteórica pelo governo Bolsonaro.

"Quando fui chamada para o Ministério, fui de coração aberto para desenvolver o melhor trabalho de comunicação. Mas tive algumas crises, porque a gente é profissional. E num ambiente público você está lidando com pessoas que não estão a fim de trabalhar, e também com gente que está muito a fim.

Quem me cantou essa bola antes foi o [filósofo e escritor] Mario Sergio Cortella, com quem conversei assim que recebi o convite. Ele me disse: 'Você vai se esfolar porque vai chegar num ambiente público, e tem muita gente que não está a fim de trabalhar e você vai ver coisas com as quais vai querer contribuir'. Dito e feito.

Eu me incomodava muito com frases de alguns servidores do tipo: 'Estou aqui para fazer meu horário e ir embora'. Isso tem em todo departamento público, mas claro que vão negar.

Tem de tudo: gente muito do bem, muito a fim de trabalhar, e gente muito a fim de encostar. Tenho uma pegada diferente, de querer trabalhar, contribuir, e não ia fingir que não estava vendo.

Posso dizer que fiz três coisas das quais me orgulho muito nesses quatro meses. Resumi 40 páginas em três minutos de vídeo o AST (Acordo de Salvaguarda Tecnológico), um documento que há 20 anos ninguém conseguia entender. O objetivo era explicar o que pode ser feito na Base de Alcântara, no Maranhão. Meu papel era passar uma mensagem para que as pessoas não perdessem tempo com informações equivocadas.

Também expliquei para que serve a transmissão da base de telecomunicações da Antártica, o que é a base brasileira lá.

E em Israel, furei um bloqueio para falar com o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, junto com o Marcos Pontes, sobre a ajuda para Brumadinho [ele enviou uma missão de apoio às buscas por desaparecidos em Brumadinho, MG, para o local do rompimento da barragem da Vale].

Foi muito legal fazer isso pelo país, pelo Ministério, mas eu preferi abrir mão desse universo de possibilidades para cuidar da minha saúde e falar desse assunto de maneira clara e verdadeira. Ainda há muito preconceito sobre a saúde mental.

Eu agora sou a Rosa Parks [mulher negra que em 1955 se negou a ceder a um branco o seu assento em um ônibus nos EUA] da saúde ocupacional. Lá atrás, os brancos acharam que era "mimimi" brigar por um assento no ônibus, tal qual ela fez.

Mais de 870 pessoas já me procuraram para contar sua história e pedir ajuda. Comecei a trabalhar aos 16 anos e agora, aos 38, pela primeira vez vou cuidar de mim e continuar com essa bandeira".

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