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O que aprendi no Fórum Fale Sem Medo: "Para prevenir o ódio, use o diálogo"

A ex-parlamentar dinamarquesa Özlem Cekic, muçulmana e filha de imigrantes, durante o evento - Reprodução/Instituto Avon
A ex-parlamentar dinamarquesa Özlem Cekic, muçulmana e filha de imigrantes, durante o evento Imagem: Reprodução/Instituto Avon

Natália Eiras

Da Universa

30/03/2019 09h42

Nos últimos dez anos, mulheres que lutaram pelos direitos da parcela feminina da população tiveram que gritar muito para conseguir avanços. Porém, segundo o 6º Fórum Fale Sem Medo, promovido pelo Instituto Avon, para tornar o mundo um pouco melhor, chegou a hora de deixarmos o megafone de lado e puxar uma conversa com os vizinhos e amigos próximos que não concordam com a gente. O diálogo, de acordo com pesquisa feita pelo evento, pode ajudar mulheres na luta contra a violência.

A escritora e poeta Ryane Leão foi quem abriu o evento, que aconteceu nesta sexta-feira (29) no Auditório Ibirapuera, em São Paulo (SP). Ela entrou no palco lendo um dos poemas de seu livro "Tudo Nela Brilha e Queima". "Me querem inacabada, me querem queimada. Me querem falta de querer, me querem tudo, menos mulher", declamou a artista.

A gerente geral de produtos editoriais do UOL Tatiana Schibuola falou sobre o trabalho da Universa em humanizar a trajetória de vítimas de feminicídio. "Temos que relatar a história dessas mulheres para elas não virarem apenas números da polícia", afirmou. "Não estamos cobrindo crimes, estamos lembrando lindas histórias que foram interrompidas, que mereciam outro final".

Reprodução/Instituto Avon
Imagem: Reprodução/Instituto Avon

Café com "haters"

A palestra magna foi ministrada pela ex-parlamentar dinamarquesa Özlem Cekic. Muçulmana e filha de imigrantes, a política, quando ocupava seu cargo na Dinamarca, foi alvo de muitos "haters". "Um dia fui até a polícia e perguntei o que podia fazer sobre as mensagens de ódio que estava recebendo. Eles me falaram: 'volte quando acontecer algo'. Eu respondi: 'Quando acontecer?'. Eles rebateram: 'Se acontecer algo?", ela contou em sua palestra.

Em uma conversa com amigos, recebeu o conselho de deixar seus "preconceitos" de lado. Foi por isso que ela começou a tomar café com alguns autores das mensagens de ódio que recebiam. "Comecei a perceber que eles eram pessoas como eu: assalariados, tinham filhos. Eles estavam com medo de desconhecidos, assim como eu estava com medo deles".

A ex-parlamentar pontuou a importância de estar com os ouvidos e coração abertos para compreender as pessoas que não concordam com você. "Se quiser prevenir o ódio e a violência, você precisa ouvir a maior quantidade de pessoas possível. E estar o mais aberto que puder. Inclusive para aquelas pessoas que você demoniza", afirmou.

Difícil de falar, difícil de ouvir

Guilherme Valadares, da plataforma Papo de Homem, faz palestras focadas para o público masculino sobre masculinidade tóxica e direitos das mulheres. Ele foi quem apresentou a pesquisa "Como conversar com quem pensa muito diferente de nós", feita em parceria com o Instituto Avon.

Divulgação/Instituto Avon
Imagem: Divulgação/Instituto Avon

Segundo o levantamento, que entrevistou 9 mil pessoas, apenas dois em cada dez brasileiros procuram interagir ativamente com pessoas que têm posições contrárias - embora sete em cada dez acreditem que esse diálogo é benéfico. Porém, 64% dos entrevistados afirmam que o principal obstáculo para o diálogo sobre esses temas seria a agressividade. Quando palavras como "machismo", "feminismo" e "gêneros" não são usadas, o apoio ao diálogo é de 87%.

Ou seja, a pesquisa diz que talvez exista um problema de comunicação entre quem luta pelos direitos da mulheres e quem acha que é "contra tudo isso que tem aí". "Precisamos criar mecanismos para criar pontes com essas pessoas para tornarmos o mundo melhor", disse Valadares.

Passo a passo

O último painel do evento deu conta que há cinco elementos que são essenciais no combate à violência contra as mulheres: a mobilização, em criar iniciativas para engajar pessoas sobre o assunto; a inovação, para mudar a forma que a sociedade trata a população feminina, seja na religião ou no ambiente corporativo; criação de parcerias, em que ambas as partes aprendem algo novo; incidência de políticas públicas, para mudar as instituições governamentais; e a linguagem, ou seja, o diálogo.

Porém, Alessandra Orofino, do movimento #AgoraÉqueSãoElas, pontuou que compreender uma pessoa que não pensa igual a você não é a mesma coisa que "passar a mão na cabeça" dela. "Às vezes não podemos tolerar e legitimar uma 'opinião'", falou, se referindo a discursos de ódio disfarçados em falas como "isso é o que eu acho". "A sua opinião não é tão importante que pode ser colocada em prática, matando pessoas".

Direitos da mulher