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9 curiosidades sobre "O Jardim Perfumado", o manual de sexo do século 15

A obra, inspirada no Kama Sutra, é uma das referências quando o assunto é sexo - Getty Images/iStockphoto
A obra, inspirada no Kama Sutra, é uma das referências quando o assunto é sexo Imagem: Getty Images/iStockphoto

Heloísa Noronha

Colaboração para Universa

09/02/2019 04h00

Embora a data em que foi escrito seja imprecisa --boa parte das fontes diz ter sido entre 1410 e 1434--, "O Jardim Perfumado" teve grande impacto na época e é considerado, até hoje, uma obra de referência quando o assunto é sexo. Inspirado levemente no Kama Sutra, do teólogo indiano Mallanaga Vatsyayana (século 4), o livro é um verdadeiro manual de autoajuda que vai além das sugestões de posições sexuais ao ensinar técnicas de preliminares, noções de higiene, dicas de comportamento e até orientações farmacológicas conforme as normas e práticas vigentes. Tudo isso embalado por descrições detalhadas e um linguajar bem direto --até mesmo para nós, no século 21. Confira algumas curiosidades sobre a obra:

Autor misterioso

Pouco se sabe sobre o Xeique (também chamado de Xeque ou Sheik) Nefzaui, o autor da obra. Segundo relatos, ele não se sentia feliz com o trabalho público que exercia e resolveu escrever o manual para abstrair. Pelos registros, o autor vivia em Túnis, capital da Tunísia, e é provável que o livro tenha sido escrito ali. A linguagem e as informações dão a entender que se tratava de um homem erudito com bons conhecimentos em literatura e medicina.

Páginas queimadas

A edição mais famosa de "O Jardim Perfumado" foi lançada em 1886 na Inglaterra pelo erudito Sir Richard Burton (1821-1890) que, por sua vez, o traduziu de uma versão francesa publicada antes de 1850. No ano em que morreu, Burton estava prestes a publicar a sua própria tradução do original árabe para a substituir a versão de 1886. Infelizmente, porém, o pudor vitoriano e excessivo de sua esposa, Isabel Burton (1831-1896), também escritora, levou-a a queimar o manuscrito após a morte do marido, condenando aquela nova tradução ao total esquecimento. Entre o conteúdo censurado, havia um capítulo inteiro dedicado à homossexualidade. No Brasil, a tradução de Burton foi adaptada para o português e lançada pela Editora Record em 2002. A edição está esgotada, mas pode ser encontrada em sebos --assim como "O Jardim das Delícias" (outro nome dado à obra), de 1981, da Editora Cátedra e tradução de Marcos Santarrita.

Apelidinhos criativos

Outro suprassumo do sexo, de acordo com Xeique, é dar apelidos incomuns e criativos às partes íntimas como forma de diversão e para aumentar a intimidade do casal. As metáforas utilizadas pelo autor para os órgãos sexuais femininos e masculinos são engraçadas, criativas e até poéticas à nossa opinião ocidental. Entre os apelidos que os árabes atribuíam às partes íntimas de homens e mulheres há expressões insólitas como "o extintor de paixões", "a primitiva", "o cavador de poços", "o libertador" e "a sempre pronta para a batalha".

Pequenas medidas

O Xeique Nefzaui dedicou atenção especial --e, literalmente, um capítulo inteiro-- para os homens com características anatômicas, digamos, diminutas. Uma de suas dicas: "Se o homem tem o membro pequeno, põe a mulher de barriga para cima, suspende as pernas dela --de modo que a direita fique junto à orelha direita, e a esquerda junto à orelha esquerda--, e nesta posição, com as nádegas erguidas, a vulva se projeta para fora. Então, ele lhe introduz o seu membro."

Preliminares, sempre

Um traço comum aos manuais de sexo tidos como históricos é o destaque dado às preliminares e à sua importância para o orgasmo feminino. Em "O Jardim Perfumado" uma das técnicas sugeridas com essa finalidade é: "Se desejas o coito, deita a mulher no chão e cola-te ao peito dela, os lábios dela próximos aos teus; em seguida, aperta-a contra ti, aspira o hálito dela, morde-a; beija-lhe os seios, a barriga, os flancos, estreita-a em teus braços até fazê-la desfalecer de gozo; e, quando vires que ela já chegou lá, introduz-lhe então o teu membro. Se fizeres o que digo, o prazer chegará aos dois simultaneamente. É isso que torna tão doce o gozo da mulher. Mas, se não deres ouvidos aos meus conselhos, ela não ficará satisfeita, e não lhe haverás propiciado prazer algum."

Histórias ilustrativas

A narrativa de "O Jardim Perfumado" é o outro atrativo, porque o autor apostou em histórias para "amarrar" as dicas. A mais famosa é a de um homem chamado Abou el Keiloukh, que ficou com o pênis ereto durante 30 dias, sem descanso. Casos sobre traições e seus desdobramentos, além de outros enredos, são apresentados ao longo das páginas para embasar, aludir ou advertir seus ensinamentos.

Pênis em ação

Práticas para aumentar a potência masculina --ou, pelo menos, não prejudicá-la-- permeiam todas as páginas do livro. Exemplos? Mastigar cúbebas, piretros (hoje conhecidos como cristântemos), gengibre e canela e umedecer o pênis com a saliva resultante dessa mastigação faz, segundo o livro, com que a parceira queira ficar o tempo todo grudada nele. Untar leite de jumenta no "membro viril" o torna ainda mais forte e vigoroso. Por outro lado, lavar o pênis com muita frequência e deixar que a mulher monte sobre o homem na hora da transa podem causar males à saúde, como gonorreia, diz o autor.

Beijar é obrigatório

Os escritos de Xeique Nefzaui comprovam que, há muitos séculos, o beijo na boca ainda é o principal afrodisíaco e termômetro da relação a dois. Na sua opinião, beijo bom é aquele dado em "lábios ardentes e úmidos, acompanhado da sucção dos lábios e da língua, de forma que se produza uma saliva doce e intoxicante" e que, "acompanhado do som feito quando se chama um gato dá mais prazer do que qualquer outra coisa".

Prazer feminino

Por ter sido concebido, voluntariamente ou não, para a leitura dos homens, a preocupação em agradar a mulher domina grande parte dos ensinamentos. De posições para agradar a parceira a noções sobre como um sujeito pode reconhecer o orgasmo feminino, o princípio básico que norteia "O Jardim Perfumado" é que o sexo pode e deve ser desfrutado em toda a sua plenitude por um casal.